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Apresentação


Nova York

“Gosto de trabalhar com coisas que são próximas da minha vida, do meu cotidiano, por isso não é um trabalho racional e especulativo. É de cunho mais emocional, sobre coisas que acontecem em minha própria vida".
Mario Cravo Neto

Em 1969, Mario Cravo Neto saiu de uma Salvador patriarcal e sincrética e foi morar em Nova York, cidade cosmopolita e impessoal. Matriculou-se em uma escola de arte (Art Students League). As estratégias conceituais, em voga àquela altura, levavam os artistas a um tipo de experimentação serial que seria recorrente em sua produção posterior. A fotografia, sendo um instrumento de registro rápido do mundo, é, ao mesmo tempo, atravessada pela subjetividade do seu olhar. Combina, assim, informação e experiência. Fotografias de carros, do metrô e a série de deformações mostram que o deslocamento e o anonimato eram uma marca da metrópole. Uma cidade em que todos circulam na pressa do compromisso e na expectativa velada do inesperado. Suas aquarelas, esculturas e fotos com cor evidenciam a formação de um artista plural.

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Dinamarca, família, acidente

“Arte é vida quando ela deixa de ser uma vitrine e passa a ser um recanto da casa.”
Mario Cravo Neto

Da rua para a intimidade. Do urbano para a paisagem natural. O acidente e a afirmação da fotografia. Fotografar a família era um hábito de toda a vida, percorreu sua trajetória do começo ao fim. Em 31 de maio de 1975, Mario Cravo Neto sofreu um acidente de carro que o deixou imobilizado por quase um ano. A impossibilidade de deslocar-se ao longo da recuperação significou, para muitos, uma virada definitiva em direção à fotografia e a um tipo de encenação no estúdio que viria a se consolidar com os retratos posteriores em fundo infinito. O vídeo Luz e sombra, feito ainda no hospital, é marca de uma virada introspectiva. Que se desdobrará de forma magistral na série feita em seguida na Dinamarca.


Eternal Now

“No início (até 1984) eu estava preocupado com o aspecto contemplativo: o que o modelo (o olhar meio perdido) conseguia transmitir para mim, através do seu semblante. Depois fui mais eu a moldar os corpos: tensão, fuga, luta, desafios. Fragmentos sintetizados num perfil, pescoço, músculo, veia.”
Mario Cravo Neto

Confronto ou cumplicidade? Retrato do conhecido ou do desconhecido? Com essas duas perguntas, a crítica de fotografia Stefania Bril começa um dos seus textos sobre Cravo Neto. Elas explicitam a tensão inerente a essas fotografias em preto e branco. Talvez seja o caso de substituirmos a disjunção pela conjunção. É um e outro ao mesmo tempo. A construção desses retratos em fundo infinito está no centro da poética fotográfica de Cravo Neto. Há neles o interesse escultórico pela gravidade dos corpos e do fotógrafo pelos detalhes da expressão corporal. Luz e atmosfera. Monumentalidade. O olhar flutua entre a contenção e o desamparo.

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A Cor

“Mario Cravo Neto faz a dureza física da luz de Salvador passar pelo filtro da doçura espiritual que anima a cidade.”
Caetano Veloso

A cor, que já estava presente nas aquarelas e em algumas fotografias de Nova York, ganha nas ruas de Salvador uma vibração única. Ao mesmo tempo exasperada e contida, a cor é corpo, é arquitetura, é natureza. Ela atiça os contrastes, mas segura a intensidade luminosa. Não resta dúvida que se trata de um dos grandes coloristas na história da arte contemporânea brasileira. Seus fotolivros, começando com Bahia (1980) e indo até Laroyé (2000), evidenciam a qualidade desse trabalho com a cor e a consciência do ritmo na composição das páginas.

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Candomblé, ex-votos, Aleijadinho

“Programo a minha máquina (Leica R4) de antemão para obter aquela subexposição característica das minhas fotos e depois me lanço de corpo inteiro (e de alma também) na festança: me incorporo nela e ela me incorpora. Focar na objetiva? Nem pensar. O foco se faz no passo, na dança: um pouco mais perto, um nada mais longe. É caça meio alta para afinar a focalização. A imagem é também fruto dessa parte performática do fotógrafo.”
Mario Cravo Neto

As festas religiosas sempre interessaram a Mario Cravo Neto. Frequentou-as incansavelmente. Converteu-se ao Candomblé sem fazer disso profissão de fé. Há nessas imagens a revelação do que há de espontaneidade e vitalidade nas tradições afro-brasileiras. Sua amizade com Pierre Verger e Lina Bo Bardi explicitam-se nesse contato com o mágico e o popular. A escultura está no seu DNA, e mostrar os ex-votos é mostrar o corpo, simultaneamente, como matéria plástica e simbólica.

A série dos profetas do Aleijadinho em Congonhas do Campo é a primeira aventura de Cravo Neto com a fotografia. Foi realizada antes da ida a Nova York. Vê-se aí o filho do escultor buscando a expressão talhada em pedra e revelada no contraste de luz. A busca do efeito dramático, o olho atento ao Barroco, jamais deixou-se transformar em exagero sentimental.

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Série do fogo, do ninho, vídeo guerra do golfo

“Mario tinha a mesma densidade dramática de Bill Brandt: existia um drama na luz, as pessoas e coisas não estavam expostas às luzes frias dos alemães – o que está na moda fotográfica hoje em dia... E não era alguém preso a uma nota só. Compunha sinfonias com montagens surpreendentes de imagens e também peças individuais que nos sacudiam em surdina”
Miguel Rio Branco

Série do fogo: Iniciada logo depois de seu retorno de Nova York, no começo da década de 1970, a série do fogo explicita vários elementos recorrentes em sua poética – a tensão entre o natural e o artificial, a performatividade do gesto fotográfico, a hibridação do escultórico e do imagético, a composição serial, o interesse pelo simbólico.

Série do ninho: O ninho, construído com fios de fibra de vidro retirados do ateliê por um passarinho, foi encontrado no jardim pelo filho do artista. Virou natureza-morta colocado sobre uma mesa com lona gasta, em uma série fotográfica silenciosa e grave. Uma ética minimalista atravessada por um lirismo desafetado.

gw41 Persian Gulf: Vídeo feito diante das imagens da tv americana durante a guerra do Iraque. Junção radical entre o real e o virtual. Retira daí poesia, apesar de tudo. Bruto, direto, cruel, trágico. Segundo o artista, “talvez seja a mais livre de todas as minhas peças. Transa com a sincronicidade, com o acaso e com o gestual.”

Bahia, décadas de 1970-1980. Acervo Instituto Mario Cravo Neto/IMS

Instalação das câmeras

Cravo Neto teve seu equipamento fotográfico furtado de dentro do seu carro. Depois de mobilizar a polícia, o ladrão foi encontrado, mas, antes de ser preso, queimou câmeras, lentes e filtros. Ficou tudo destruído, calcinado. O artista pegou o equipamento carbonizado e colocou sobre a mesma lona dos fundos infinitos; uma lona bastante desgastada e retirada do circuito utilitário para integrar a composição plástica da instalação. O fogo volta aqui como índice e como signo, como o que queima e o que se transforma. O curador Walter Zanini, no catálogo da Bienal de 1983, escreveu sobre este trabalho que via ali, na instalação, o ponto de confluência da fotografia e da escultura, em que a “precípua ideia escultural torna-se criadora de atmosfera – evocativa e dramática no mistério poético das realidades que a contém”. O trabalho foi apresentado pela primeira vez em 1982, numa exposição realizada em um galpão industrial abandonado. Cravo Neto produziu uma série de instalações na ocasião, aproveitando os resíduos destroçados e misturando às suas lonas – a exposição como um todo pode ser vista como uma única instalação.


Somewhere over the Rainbow, 2005 / La Mer, 2007

Somewhere over the Rainbow - Em 2005, a convite de Solange Farkas, Cravo Neto foi convidado a participar do Mostra Pan-Africana de Arte Contemporânea, no Museu de Arte Moderna da Bahia, o Solar do Unhão. Ocupando todo o andar térreo, ele projetou imagens do mar em todas as paredes, com dois orixás discretos projetados e flutuando, liquefazendo o espaço, articulando o dentro e o fora, o Brasil e a África, o sagrado e o profano, a imagem e a música. O som que predominava era a música “Murder”, cantada por John Lee Hooker, a voz e a guitarra mais dilacerantes do blues americano. Um sobrinho de Cravo Neto mixou-a com sons do candomblé. Lidar com o mar, mais do que tudo, era homenagear Yemanjá, Mãe das Águas, reverenciada em Salvador e símbolo da africanidade brasileira. Em 2007, a convite da galeria Brito Cimino de São Paulo, Cravo Neto fez uma adaptação do trabalho para o novo espaço, considerando-a um desdobramento da instalação anterior e dando um novo título, agora, La Mer.

La Mer, 2007

Bienais de 1971 e 1973

Depois de retornar ao Brasil, no fim de 1970, Cravo Neto foi logo convidado para participar da XI Bienal de São Paulo de 1971. Levou para a exposição um conjunto de esculturas com acrílico, areia e plantas. O trabalho foi muito bem recebido, e o artista ganhou o Prêmio Governador do estado de São Paulo, dado para a obra brasileira de maior destaque no certame. Na Bienal seguinte, em 1973, foi novamente selecionado. Apresentou uma enorme instalação de 25 m², com terra no chão, e uma sala com 36 fotografias da série do fogo (50 x 60 cm).


Álbum 4 Scrapbook

Em 1975, Cravo Neto começou a realização de um caderno de colagens (scrapbook), que foi sendo construído ao longo de alguns anos. Nessa sequência magnífica de páginas, vemos anotações, comentários visuais, recortes de revistas, trabalhos de colegas, enfim, o cotidiano de um artista visual inquieto e de um fotógrafo cioso do seu ofício. Esse scrapbook, como de praxe na poética de Cravo Neto, traz irmanados acaso e construção, improviso e precisão, com uma montagem acelerada e uma inteligência gráfica notável.

Album 4, 1975

Espíritos sem nome

Manter a palavra espíritos no plural foi uma decisão curatorial. Na primeira página da boneca do livro inacabado e na manchete da matéria da revista Fotoptica, está escrito no plural. Em entrevista e em uma anotação do artista, ficou no singular. Justificava-se qualquer uma das opções. Tratando-se de um artista cuja presença do Candomblé na vida e obra era relevante e com uma poética tão plural, parecia mais coerente deixarmos Espíritos.

Revista Fotoptica