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“Filmes de cinema”

29 de outubro de 2020

No formato deste ano da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com exibições online, os mais prejudicados são os “filmes de cinema”, isto é, aqueles que exigem do espectador uma imersão total. Um filme que se limite, bem ou mal, a contar uma história, a expor um assunto ou a defender uma tese pode ser confinado numa tela de TV, de computador ou até mesmo de celular. Um “filme de cinema”, ao contrário, precisa da tela grande e da sala escura para ser fruído em sua plenitude. Não é um passatempo, é uma experiência.

Tomo a expressão “filme de cinema” emprestada de Rogério Sganzerla, que a usou para definir seu primeiro longa-metragem, o magnífico O bandido da luz vermelha (1968). Para mim, o “filme de cinema” não é “sobre” alguma coisa, não é mero veículo para comunicar uma ideia exprimível por outros meios, não descreve um aspecto do mundo, mas cria, ele mesmo, um mundo. É um artefato irredutível e único, como um afresco, um poema, uma catedral, uma sinfonia.

Na atual edição da mostra paulistana, várias obras esteticamente muito diferentes entre si podem ser enquadradas nessa exigente categoria. Uma das mais arrebatadoras, a meu ver, é Gênero, Pan, do filipino Lav Diaz, diretor celebrizado por seus filmes de quatro, seis e até oito horas de duração. Este novo é curto, para os seus padrões: só duas horas e meia.

 

 

Num preto e branco nítido e ricamente matizado, em planos longos e geralmente abertos, por onde o olhar do espectador passeia livremente, conta-se (ou melhor, mostra-se) uma história simples ao extremo: três homens deixam o trabalho exaustivo numa mina e voltam a sua aldeia, situada em outra ilha do arquipélago filipino. Um deles é jovem, os outros dois, de meia-idade.

Ao longo dessa jornada por mar, montanha e floresta, vamos conhecendo aos poucos cada um deles, seu passado, seus projetos, suas relações com os outros e com a vida. Afloram conflitos, lembranças, mitos, dores, culpas – sempre com a natureza como testemunha e partícipe. São personagens sofridos, espoliados, à margem da sociedade e suas benesses. A história filipina, turbulenta e opressiva, parece chegar a eles como um eco, uma reverberação, um trauma recorrente.

 

Chimpanzés e homens

O título vem de uma entrevista ouvida no rádio de um dos personagens, em que um estudioso fala sobre o gênero Pan, aquele dos primatas mais próximos do homem, como o chimpanzé. Diz o sujeito, com outras palavras, que o chimpanzé tem inteligência, mas carece do senso moral possuído pelos humanos, por isso se deixa tomar pelo egoísmo, pela fúria e pela violência.

É a partir desse prisma – apresentado como que por acaso, como ruído de fundo (mas realçado pela escolha do título) – que somos levados a pensar as atitudes dos personagens, tanto dos principais como dos secundários. Impossível não lembrar as palavras do rádio quando explodem os sucessivos atos de brutalidade, seja na mata, seja na aldeia.

As rivalidades aldeãs, a corrupção da polícia, a opressão do estado, a ganância dos indivíduos, tudo isso é mostrado sem ênfase ou espetacularização, quase como dados da natureza – mas mediante um filtro moral e espiritual difícil de definir com palavras. (É um filme de cinema, não nos esqueçamos.)

Uma particularidade notável: numa obra em que os gestos cotidianos são mostrados de modo objetivo e transparente, os atos de violência são um tanto estilizados, ostensivamente falsos, como num faz-de-conta: as pedras, porretes ou facões não tocam os corpos, não se vê sangue algum. Mais que um pudor ou uma autocensura, vejo nisso quase uma afirmação moral. É como se o diretor dissesse: existe a crueldade no mundo, mas não vou fazer dela um espetáculo, não vou me regozijar nela.

Gênero, Pan, em suma, é muito mais do que a história que narra, os assuntos que aborda ou os personagens que descreve. Tudo nele – a duração dos planos, a precisão dos enquadramentos, a austeridade da fotografia, a sobriedade das atuações – conflui para compor um universo moral e nos atrair ao seu interior, como sujeitos do gênero homo, espécie sapiens. Aqueles que, segundo o homem do rádio, detêm um senso moral que os distingue dos chimpanzés.

 

Outras imersões

Lua vermelha (Lois Patiño, Espanha). Surpreendente longa-metragem de estreia do videoartista galego Lois Patiño. Numa aldeia de pescadores da Galícia, os mortos convivem com os vivos e uma maré destruidora pode ser ou não fruto de uma lua sinistra. Monstro marinho, bruxas e a memória de um marinheiro lendário povoam um lugar entre o sonho e o mito, em algumas das imagens mais belas do cinema recente, sob a música estranhamente familiar do galego, esse idioma limítrofe entre o espanhol e o português.

 

 

As órbitas da água (Frederico Machado, Brasil). Dois forasteiros (Antonio Saboia e Rejane Arruda) chegam de barco a um lugarejo no litoral do Nordeste, perturbando as relações locais e trazendo à tona antigos conflitos e situações mal resolvidas. Os nexos narrativos são esgarçados, os personagens parecem obedecer ao ímpeto destruidor do desejo, os elementos da natureza pesam como uma maldição. O contraste entre a paisagem exuberante e uma visão trágica e soturna das relações humanas molda a poética do cineasta maranhense, como se os trópicos fossem filmados por um eslavo (Tarkovski, Sokurov).

 

 

Dias (Tsai Ming-liang, Taiwan). Uma das experiências mais radicais do cinema contemporâneo em termos da imersão no tempo que flui. A vida dos tempos mortos. Em planos fixos de vários minutos, vemos alternadamente dois homens solitários (um deles Lee Kang-sheng, ator habitual do diretor) a realizar ações banais – preparando uma salada, contemplando a chuva, acendendo um fogão a lenha – numa grande cidade. A certa altura eles se encontram num quarto de hotel, onde o mais jovem aplica uma esmerada massagem no mais velho e os dois fazem um sexo sem palavras. Na aridez das vidas descritas até então, esse breve encontro vale por uma epifania, assim como a ostensiva ausência de trilha musical torna comovedoras as notas trêmulas de uma caixinha de música tocando a batidíssima “Limelight” de Chaplin.

 

 

Sibéria (Abel Ferrara, Itália/Alemanha/Grécia/México). Apesar do título, o filme se passa não apenas na Sibéria, mas também junto a esquimós no Alaska, entre beduínos no deserto e numa porção de outros ambientes, pois tudo acontece, de certa forma, na cabeça do protagonista (Willem Dafoe). Assim, ganham concretude suas memórias, traumas, culpas, desejos. Essa presentificação do imaginário do personagem não deixa de ser uma metáfora do próprio cinema. Nem todo mundo embarca nessa viagem. O filme divide opiniões. Mas é bonito ver um veterano consagrado como Ferrara seguir apostando num cinema absolutamente pessoal.

 

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