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Mulheres ao mar

22 de outubro de 2020

Começa nesta quinta-feira (22 de outubro) a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, desta vez com exibições online para todo o país, além de sessões em drive-ins. Várias trilhas são possíveis para desbravar essa floresta de 198 filmes de todas as partes do mundo.

Uma das veredas mais interessantes é a dos filmes integralmente femininos, isto é, escritos, dirigidos e protagonizados por mulheres. Dois deles me tocaram em particular, ambos brasileiros, ambos de diretoras estreantes no longa-metragem de ficção: O livro dos prazeres, de Marcela Lordy, e Mulher oceano, de Djin Sganzerla. Em ambos, coincidentemente, o mar exerce papel central.

 

Clarice atualizada

O filme de Marcela Lordy, como o próprio título sugere, é uma transposição para as telas do romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector. Um desafio e tanto, do qual a cineasta se sai muito bem.

Trata-se, basicamente, da história de Lóri (Simone Spoladore, numa atuação memorável), uma professora carioca de classe média, na faixa dos trinta anos, às voltas com sua inadequação à vida social e seu medo de amar. Medo de amar, medo do mar – e o Atlântico está logo ali, diante da grande parede envidraçada de seu apartamento no Leme.

O homem de quem ela alternadamente se aproxima e se afasta, como as marés, é o arrogante e sedutor Ulisses (o argentino Javier Drolas), professor de filosofia. O nome remete inevitavelmente à Odisseia, aludida também nas referências a sereias e numa tapeçaria que Lóri, como Penélope, desmancha para tecer de novo.

Como sempre acontece nos livros da escritora, o enredo é fluido, ambíguo, inconclusivo, e o filme busca expressar com seus próprios meios essa condição. Tudo é narrado do ponto de vista da protagonista, de quem a câmera não se afasta nem por um minuto. No romance, a narração é em terceira pessoa, mas abusando do chamado discurso indireto livre, em que o narrador “cola” nos pensamentos e emoções da personagem. Mantém-se, no entanto, certa opacidade de Lóri: nunca sabemos bem o que ela fará em seguida. Nem ela sabe, aliás.

 

O espírito e a letra

Para ser fiel ao espírito do texto, a diretora muda aqui e ali a sua letra, acrescentando personagens e situações, sugerindo uma bissexualidade do amante, invertendo a emissão de algumas falas. Por exemplo, a célebre frase final truncada, que encerra o livro com dois pontos, deixa de ser dita por Ulisses e passa para a boca de Lóri.

Há, além disso, uma atualização política da personagem, que a certa altura diz que nunca perdoará o pai “por ter votado nesse cara”. Em outra cena, ela assiste com uma amiga a Terra em transe, de Glauber Rocha, e se emociona ao ouvir Glauce Rocha dizer que queria “casar, ter filhos, como qualquer outra mulher”, mas foi “lançada no coração do meu tempo”.

As soluções visuais são quase sempre muito inspiradas, utilizando ao máximo as potencialidades plásticas e poéticas do espaço, em especial do grande apartamento semivazio diante do oceano. Numa cena de masturbação, Lóri, deitada no ângulo agudo entre uma parede e uma porta de vidro espelhado, tem sua imagem refletida inúmeras vezes, configurando um ser narcísico e fragmentado.

Um possível excesso de discurso filosófico clichê por parte do professor/amante é largamente compensado pela sensibilidade visual da diretora. As densas aulas de Lóri, que despeja suas inquietações metafísicas sobre seus aluninhos perplexos, ganham um momento de respiro, quase uma epifania, quando um tucano invade a sala, deslumbrando e irmanando a todos, crianças e adulta.

As cenas na vidraça do apartamento são belas e significativas. Numa delas, à noite, Lóri atira a ponta de um cigarro aceso pela janela e acompanhamos com nitidez a viagem da pequena brasa até o chão da calçada, numa proeza do diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. O cigarro perfaz o trajeto que o corpo da protagonista em certo momento parece prestes a realizar.

As hesitações de Lóri, sempre prestes a desistir de si mesma, sua dificuldade em lidar com a dor de existir, tudo isso é traduzido visualmente de modo notável. Em suma, uma obra que celebra condignamente o centenário de Clarice Lispector. E vem aí A paixão segundo G.H., sob a direção de Luiz Fernando Carvalho.

 

Mulher oceano

Se Marcela Lordy teve que se defrontar com um monstro sagrado da literatura brasileira, a responsabilidade de Djin Sganzerla, de certa forma, era lidar com o rico legado artístico de seus pais, Helena Ignez e Rogério Sganzerla. E ela enfrentou a parada com uma leveza e uma desenvoltura admiráveis.

Em Mulher oceano, a própria Djin encarna duas mulheres: a escritora Hannah Visser e a bancária e nadadora Ana Bittencourt. A primeira está passando um tempo no Japão e escrevendo seu novo livro. A segunda se prepara para fazer a longa travessia a nado do Leme ao Pontal da Barra. As duas se entreviram de longe apenas uma vez, quando Hannah estava com o marido e amigos num terraço à beira-mar.

Impossível não pensar imediatamente em A dupla vida de Veronique, de Kieslowski, ainda que aqui a conexão entre as duas personagens seja de outra ordem. Ana pode ou não ser uma criação de Hannah – uma ideia que o final da última cena colocará sutilmente em xeque e que não vou adiantar aqui.

 

O mar como ligação

O fato é que essas duas mulheres, ambas num momento de transformação pessoal, estão ligadas pelo mar, e não por acaso uma das passagens mais tocantes é aquela em que Hannah conhece as legendárias “amas” – pescadoras/mergulhadoras japonesas que descem sem equipamento a até trinta metros de profundidade no oceano em busca de abalones.

O travelling é o recurso básico de Mulher oceano. As duas personagens estão sempre em movimento – de metrô, trem, ônibus, barco ou, principalmente, a pé (Hannah) ou a nado (Ana). Uma figura recorrente de estilo é Hannah com o rosto junto à janela do metrô ou trem e o mundo passando ao fundo.

Se a arte turbulenta de Rogério Sganzerla e Helena Ignez extrai quase sempre a poesia da própria feiura caótica do mundo, Djin parece ter o sentimento inato da beleza e da harmonia, buscando-as com infinita curiosidade nos seres, gestos e lugares. A orla do Rio de Janeiro, por exemplo, é mostrada de maneira surpreendente. Vista do mar em movimento, foge dos surrados cartões postais da cidade.

O filme de Djin lembra mais o Wenders de Tokyo-Ga e o citado Kieslowski do que o cinema de seus pais. A referência/reverência a estes se dá de modo sutil. De uma TV ligada ouvimos a voz de Helena Ignez em Sem essa, aranha (de Sganzerla) vociferando contra o “planetazinho vagabundo”, ao som de Luiz Gonzaga. E o treinador de natação de Ana se chama Rogério. O resto é o mar, “que nos precede em tudo e que nos vigia”, como diz Hannah.

 

Outras mulheres

Mães de verdade (Naomi Kawase, Japão). Dois dramas entrelaçados, o de uma adolescente que engravida e doa seu filho para adoção, e o do casal que adota a criança. A “mãe que cria” e a mãe biológica, cada uma com suas razões e suas dores. No estilo suave e algo meloso da diretora, com suas névoas e contraluzes, desvelam-se problemas agudos da sociedade japonesa em sua relação com a moral, o casamento, o trabalho, a eficiência, etc.

Miss Marx (Susanna Nicchiarelli, Itália/Bélgica). A atribulada (e por fim trágica) trajetória da pensadora e militante Eleanor “Tussy” Marx (Romola Garai), filha e herdeira intelectual de Karl Marx. Com uma apurada reconstituição de época – rasgada ocasionalmente por um anacronismo ostensivo e deliberado, como a protagonista dançando punk rock –, o filme entrelaça o movimento proletário com a luta pela emancipação da mulher, mostrando arraigados preconceitos de gênero mesmo entre os homens de esquerda.

Mamãe, mamãe, mamãe (Sol Berruezo Pichon-Riviére, Argentina). Duas irmãs adultas e suas várias filhas com idades entre 5 e 15 anos passam seus dias numa casa de campo, em cuja piscina morreu afogada há pouco tempo a caçula de uma delas. A tragédia reverbera de inúmeras maneiras sobre as meninas, cada uma elaborando a perda à sua maneira. Um olhar perspicaz e delicado sobre o imaginário feminino em formação, com momentos surpreendentes de leveza e humor.

Mar de dentro (Dainara Toffoli, Brasil). Uma publicitária de sucesso (Monica Iozzi, ótima) fica inesperadamente grávida e tem que lidar com tragédias pessoais e contratempos sociais enquanto gera e cria seu filho. Narrativa eficiente, ainda que um tanto convencional, que faz aflorar questões sobre o lugar da mulher numa sociedade machista. Como em O livro dos prazeres, a protagonista tem medo do mar.

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