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Perdido na África

03 de novembro de 2020

Agora que a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega a seus últimos dias, alguns filmes não podem passar batidos. Um deles é Mosquito, surpreendente segundo longa-metragem do português João Nuno Pinto, ambientado em Moçambique em 1917.

É a saga suja de Zacarias (João Nunes Monteiro), um rapaz português de 17 anos que se alista no exército com a intenção de lutar no front francês na Primeira Guerra Mundial. Em vez disso, é mandado para Moçambique, então colônia de Portugal, para combater os alemães que tentavam conquistar a região.

A primeira sequência, extraordinária, já coloca o espectador no centro do drama e de certo modo sintetiza o que virá depois. O barco com uma companhia de soldados portugueses se aproxima da costa moçambicana. O sargento que comanda o grupo pergunta onde fica o ancoradouro. O oficial que o recepciona diz, apontando para uma fileira de homens negros que se aproximam com água pela cintura: “Aqui está o seu ancoradouro. Agarrem-se à carapinha”. Os soldados sobem então nos ombros dos moçambicanos, que os levam até a praia.

O adolescente Zacarias, que diz ter “a guerra no pensamento e a pátria no coração”, vai aos poucos penetrando no coração das trevas: negros escravizados, portugueses enlouquecidos no meio da selva, alemães que nunca dão as caras, malária, rugidos de leões, formigas devoradoras, um profeta ermitão, mosquitos. Não são poucas as cenas que fazem lembrar Apocalypse Now.

 

Estado febril

Pouco a pouco, tudo vai perdendo o estatuto de realidade: a guerra, a pátria, o pensamento, o coração. Graças a uma montagem descontínua e a uma direção de fotografia excepcional (sobretudo nas cenas noturnas, em que os corpos parecem esculpidos pela luz trêmula de fogueiras, lamparinas ou velas), cria-se um estado febril, em que já não sabemos o que é real, imaginação, sonho ou delírio.

Zacarias passa por um curso prático intensivo sobre o “desconcerto do mundo” de que falava Camões. Numa sequência particularmente inspirada, ele se torna prisioneiro numa aldeia habitada apenas por mulheres e crianças. Os homens, presume-se, estão na guerra, servindo aos portugueses ou aos alemães. O fato é que ali Zacarias aprende o que é ser escravizado, submetido inclusive à violência sexual.

Mosquito é, de certa forma, um romance de deformação. Mas uma deformação não apenas pessoal, do protagonista, mas de todo o mundo histórico, social e político em que ele está inserido, e com o qual temos muito mais a ver do que gostaríamos.

 

Outras escolhas

Não há mal algum (Mohammad Rasoulof, Irã). Quatro histórias independentes, unidas pelo tema da pena de morte. Diferentemente da maioria dos filmes que abordam o assunto, aqui o personagem principal não é o executado, mas o executor – ou aquele que recusa esse papel. Filme de construção precisa e extrema sensibilidade, que não por acaso ganhou o Urso de Ouro no festival de Berlim.

17 quadras (Davy Rothbart, EUA). Em 1999, o jornalista e cineasta Rothbart entregou câmeras para membros de uma família negra de um bairro pobre de Washington para que filmasse seu dia a dia. Vinte anos depois, a montagem desse material traça uma história vibrante e trágica de três gerações, revelando muito sobre as fraturas da sociedade norte-americana contemporânea.

Araña (Andrés Wood, Chile). Um militante do grupo de extrema-direita “Aranha”, que sequestrou, matou e torturou estudantes e sindicalistas às vésperas do golpe de Pinochet, reaparece inesperadamente, apavorando seus antigos parceiros que hoje estão em cargos importantes no governo ou na iniciativa privada. Thriller político envolvente do diretor de Machuca, com uma das sequências iniciais mais espetaculares e chocantes dos últimos tempos.

O ano da morte de Ricardo Reis (João Botelho, Portugal). Baseado no romance de Saramago, o filme dá vida a Ricardo Reis (o brasileiro Chico Diaz, excelente), heterônimo de Fernando Pessoa, que volta do Brasil a Lisboa em 1935, logo após a morte do poeta. O fantasma de Pessoa lhe aparece e os dois conversam sobre poesia, amor, vida e morte, enquanto a Europa assiste à ascensão do nazi-fascismo. Num preto e branco elegante, com uma iluminação “teatral”, que mantém na sombra as bordas do quadro, cria-se um universo próprio, entre a história concreta e o sonho, o real e a fantasia. O veterano Botelho é quase um especialista em grandes obras da literatura. Adaptou Diderot (O fatalista), Eça de Queirós (Os maias) e o próprio Pessoa (Filme do desassossego), entre outros.

Masters in short (Jia Zangke, Jafar Panahi, Guy Maddin, Evan Johnson, Galen Johnson e Sergei Loznitsa). Nessa reunião meio arbitrária de curtas de diretores importantes, destacam-se os dois últimos: Uma noite na ópera, de Loznitsa, que constrói com material de arquivo uma única e mítica noite na ópera de Paris, com apresentação de Maria Callas e, na plateia, Chaplin, Brigitte Bardot, Cocteau e a rainha Elizabeth; e Escondida, de Jafar Panahi, que mostra a procura, pelo diretor e sua filha, de uma jovem curda que canta divinamente, mas não pode ser vista.

Chico Rei entre nós (Joyce Prado, Brasil). A partir da figura meio histórica, meio mítica de Chico Rei, o nobre africano escravizado que teria comprado sua liberdade e a de um punhado de amigos na região das Minas Gerais, o documentário investiga o que resta dessa tradição, não apenas na periferia de Ouro Preto, mas também em São Paulo, e como essa história se articula com as lutas atuais da população negra por seus direitos e a afirmação de sua identidade cultural.

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