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Canto triste

26 de fevereiro de 2026

A história do som, do sul-africano Oliver Hermanus, é daqueles filmes que parecem prometer uma coisa e acabam entregando outra, não necessariamente pior. O filme, dito resumidamente, conta a história do relacionamento entre dois homens, Lionel Worthing (Paul Mescal) e David White (Josh O’Connor), unidos pelo amor à música. A história se passa, predominantemente, nos Estados Unidos, entre 1917 e 1980, com largas elipses entre uma data e outra.

No prólogo, Lionel recorda sua ligação com a música e com os sons ambientes desde a infância na roça, em que cada ruído ou nota musical aparecia associado a uma cor, a um cheiro, a um sabor. Esse início dá a impressão de que o filme explorará, em sua própria forma, uma percepção sinestésica dos sons, uma experimentação à la Hermeto Pascoal. Mas não. Em vez disso, o que vem em seguida é uma dupla história de amor – amor entre dois homens, amor à música – em que as duas vertentes ocasionalmente se fundem.

Lionel e David – o primeiro vindo do Kentucky, o segundo criado por um tio no interior da Inglaterra – conhecem-se no conservatório em Boston e se aproximam imediatamente, movidos por uma paixão comum pela música. Brota entre eles uma relação homoerótica, interrompida pela convocação de David para lutar na Primeira Guerra Mundial. Passam-se alguns anos até que se reencontram e partem juntos para uma pesquisa de campo na Nova Inglaterra, gravando em cilindros de cera canções anônimas populares de várias procedências sociais e culturais (de afro-americanos, irlandeses, caipiras do sul etc.).

 

Elipse e melancolia

Não dá para falar muito mais sobre o enredo, que basicamente é a história desse amor intermitente, feito de longas ausências e pautado pela música. A narrativa elíptica, lacunar, se desloca pelo espaço (Kentucky, Nova Inglaterra, Roma, Londres...) e salta as décadas, incitando o espectador a preencher os vazios e imaginar o que se passou nos intervalos.

O tom predominante é melancólico, evocando “a vida que poderia ter sido e que não foi”, como escreveu Manuel Bandeira. Em consonância com essa atmosfera, tudo na fotografia, na mise-en-scène e na interpretação dos atores parece amortecido, a sotto voce, sem estridência e sem ênfase.

É curioso que um drama conduzido pela música consiga ficar tão distante do melodrama rasgado, e isso no seio de um cinema industrial que habituou o espectador a ser induzido a emoções (medo, piedade, revolta) mediante o uso de música enfática e efeitos sonoros bombásticos. Ponto para A história do som, que, mal comparando, prometeu (no prólogo) Hermeto Pascoal e entregou um canto triste à capela.

Faltou dizer que os dois protagonistas estão excelentes, plenamente integrados no espírito da obra, que se inspirou num conto de Ben Shattuck, também autor do roteiro.