Só se fala em Oscar, mas vamos mudar de assunto por um momento. Hora do recreio, de Lúcia Murat, que entra hoje em cartaz, merece toda a atenção possível. É, em linhas gerais, um semidocumentário sobre (e com) adolescentes de escolas públicas de bairros periféricos do Rio de Janeiro. Sob essa descrição sumária, no entanto, encontra-se um filme de riqueza ímpar dos pontos de vista social, cultural, moral, político e artístico.
Dividido em quatro escolas – três de nível médio e uma de ensino fundamental –, Hora do recreio põe em cena meninos – e sobretudo meninas – falando sobre o seu dia a dia e elaborando artisticamente essa experiência, não raro brutal e traumática. Uns (os pequenos) fazem colagens, outros fazem teatro e dança.
Arte como salvação
A equação realidade bruta x sublimação artística está presente na estratégia expositiva desde a primeira sequência, ainda pré-créditos: planos curtos de crianças e adolescentes indo para a escola (a pé, de ônibus, de bicicleta) contrapostos a imagens de uma exposição de quadros que mostram... crianças e adolescentes indo para a escola, sob o rap incisivo A música da mãe, de Djonga. Vida e arte entrelaçadas intimamente.
Na primeira escola, meninas adolescentes, em sua maioria negras, falam sobre violências de gênero que presenciaram ou vivenciaram. São histórias terríveis, de agressões a mães, de pais alcoólatras ou drogados, abandono, medo, solidão. A certa altura aparece a diretora, Lúcia Murat, para agradecer a coragem e a franqueza das meninas. Ficamos sabendo então que aquela é uma sala de aula fake, recriada num outro ambiente, já que a secretaria de educação do Rio não autorizou a filmagem em escolas da rede pública.
Na conversa acalorada, emergem naturalmente outros temas, como racismo, homofobia, transfobia. O tom fica cada vez mais íntimo, confessional, como numa terapia de grupo. Um garoto trans, por exemplo, diz que chegou à beira do suicídio na sétima série porque era impedido de usar os banheiros da escola, tanto o masculino como o feminino. Segundo ele, só um professor o ouvia e acolhia.
Realidade e ficção
Expor desde o início o caráter parcial de encenação não enfraquece a contundência do que é dito e mostrado, muito pelo contrário. Parece até acentuar a veracidade e o frescor do que vemos e ouvimos, pela percepção de que é fruto de um pacto transparente entre filmadora e filmados.
Em outra escola, no complexo da Penha, adolescentes, outra vez quase todos negros, interpretam (eu quase dizia “exorcizam”) em um misto de dança, teatro e mímica seu cotidiano de violência e opressão. Máscaras com recortes de jornais e revistas sublinham o contexto histórico-social, deixando à mostra olhares duros, intensos, como poucas vezes vemos nos palcos ou nas telas.
Estudantes de outra escola transformam em peça de teatro o romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Em meio ao ensaio de trechos da peça, eles e elas discutem e atualizam os temas presentes na peça: racismo, machismo, opressão de classe. O personagem Cassi Jones, o branco sedutor da garota negra Clara, revela-se muito parecido com os jovens abusadores e estupradores de classe média que têm povoado o noticiário e as redes sociais.
A cidade e a história
Uma das sequências mais bonitas e reveladoras do filme é a que mostra a excursão de um grupo grande de alunos de uma escola de periferia ao centro do Rio. Na Candelária, o professor/guia negro explica os fatos contraditórios acontecidos ali: o comício das diretas e a “chacina da Candelária”. No cais do Valongo, ele lembra que o local era a principal porta de entrada no país dos africanos escravizados. No Centro Cultural Banco do Brasil a garotada se encanta e se diverte com a arquitetura majestosa e as obras de arte modernistas.
Resumido assim, pode-se ter a impressão de um filme sisudo, militante, professoral. Nada disso. Tudo – o horror, a denúncia, a carência – é permeado pelo humor, pela vitalidade e pelo frescor da adolescência. É de vida que se trata ali, afinal. Maltratada, marginalizada, tornada quase invisível, mas também pulsante e transbordante vida.
Realizadora tarimbada tanto no documentário como na ficção, Lúcia Murat atesta em Hora do recreio sua enorme generosidade, curiosidade e capacidade de escuta. Seu filme é, de fato, uma obra coletiva, de criação horizontal, que deve tanto a ela quanto a cada garota e garoto que entregou sua mente e seu corpo ao projeto. O Urso de Cristal conquistado na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim consagrou essa qualidade.
Oscarizáveis
Para não dizer que o blog não falou de Oscar, remeto aos textos publicados aqui sobre alguns dos principais concorrentes: O agente secreto, Pecadores, Uma batalha após a outra, Hamnet, Foi apenas um acidente, A voz de Hind Rajab e Frankenstein.
Desvendando Kubrick
Se existe um cineasta-esfinge, cuja obra segue desafiando cinéfilos e estudiosos, é o estadunidense Stanley Kubrick (1928-99). Sua filmografia relativamente pouco numerosa inclui marcos incontornáveis em vários gêneros, do policial (O grande golpe) à ficção científica (2001: Uma odisseia no espaço), do terror (O iluminado) à sátira militar (Dr. Fantástico), do épico antigo (Spartacus) ao drama de guerra (Glória feita de sangue, Nascido para matar), sem falar de suas incursões pela perversão erótica em Lolita e De olhos bem fechados.
Para desbravar o terreno complexo e acidentado dessa obra, o crítico Inácio Araujo, da Folha de S. Paulo, vai ministrar on line um curso compacto, em seis aulas semanais, a partir de 23 de março. Interessados devem escrever para o endereço [email protected]. Um bom complemento para o curso pode ser o livro Conversas com Kubrick, de Michel Ciment, editado no Brasil pela Cosac Naify, com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro.
