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Meninas do Brasil

12 de março de 2026

Só se fala em Oscar, mas vamos mudar de assunto por um momento. Hora do recreio, de Lúcia Murat, que entra hoje em cartaz, merece toda a atenção possível. É, em linhas gerais, um semidocumentário sobre (e com) adolescentes de escolas públicas de bairros periféricos do Rio de Janeiro. Sob essa descrição sumária, no entanto, encontra-se um filme de riqueza ímpar dos pontos de vista social, cultural, moral, político e artístico.

Dividido em quatro escolas – três de nível médio e uma de ensino fundamental –, Hora do recreio põe em cena meninos – e sobretudo meninas – falando sobre o seu dia a dia e elaborando artisticamente essa experiência, não raro brutal e traumática. Uns (os pequenos) fazem colagens, outros fazem teatro e dança.

 

Arte como salvação

A equação realidade bruta x sublimação artística está presente na estratégia expositiva desde a primeira sequência, ainda pré-créditos: planos curtos de crianças e adolescentes indo para a escola (a pé, de ônibus, de bicicleta) contrapostos a imagens de uma exposição de quadros que mostram... crianças e adolescentes indo para a escola, sob o rap incisivo A música da mãe, de Djonga. Vida e arte entrelaçadas intimamente.

Na primeira escola, meninas adolescentes, em sua maioria negras, falam sobre violências de gênero que presenciaram ou vivenciaram. São histórias terríveis, de agressões a mães, de pais alcoólatras ou drogados, abandono, medo, solidão. A certa altura aparece a diretora, Lúcia Murat, para agradecer a coragem e a franqueza das meninas. Ficamos sabendo então que aquela é uma sala de aula fake, recriada num outro ambiente, já que a secretaria de educação do Rio não autorizou a filmagem em escolas da rede pública.

Na conversa acalorada, emergem naturalmente outros temas, como racismo, homofobia, transfobia. O tom fica cada vez mais íntimo, confessional, como numa terapia de grupo. Um garoto trans, por exemplo, diz que chegou à beira do suicídio na sétima série porque era impedido de usar os banheiros da escola, tanto o masculino como o feminino. Segundo ele, só um professor o ouvia e acolhia.

 

Realidade e ficção

Expor desde o início o caráter parcial de encenação não enfraquece a contundência do que é dito e mostrado, muito pelo contrário. Parece até acentuar a veracidade e o frescor do que vemos e ouvimos, pela percepção de que é fruto de um pacto transparente entre filmadora e filmados.

Em outra escola, no complexo da Penha, adolescentes, outra vez quase todos negros, interpretam (eu quase dizia “exorcizam”) em um misto de dança, teatro e mímica seu cotidiano de violência e opressão. Máscaras com recortes de jornais e revistas sublinham o contexto histórico-social, deixando à mostra olhares duros, intensos, como poucas vezes vemos nos palcos ou nas telas.

Estudantes de outra escola transformam em peça de teatro o romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Em meio ao ensaio de trechos da peça, eles e elas discutem e atualizam os temas presentes na peça: racismo, machismo, opressão de classe. O personagem Cassi Jones, o branco sedutor da garota negra Clara, revela-se muito parecido com os jovens abusadores e estupradores de classe média que têm povoado o noticiário e as redes sociais.

 

A cidade e a história

Uma das sequências mais bonitas e reveladoras do filme é a que mostra a excursão de um grupo grande de alunos de uma escola de periferia ao centro do Rio. Na Candelária, o professor/guia negro explica os fatos contraditórios acontecidos ali: o comício das diretas e a “chacina da Candelária”. No cais do Valongo, ele lembra que o local era a principal porta de entrada no país dos africanos escravizados. No Centro Cultural Banco do Brasil a garotada se encanta e se diverte com a arquitetura majestosa e as obras de arte modernistas.

Resumido assim, pode-se ter a impressão de um filme sisudo, militante, professoral. Nada disso. Tudo – o horror, a denúncia, a carência – é permeado pelo humor, pela vitalidade e pelo frescor da adolescência. É de vida que se trata ali, afinal. Maltratada, marginalizada, tornada quase invisível, mas também pulsante e transbordante vida.

Realizadora tarimbada tanto no documentário como na ficção, Lúcia Murat atesta em Hora do recreio sua enorme generosidade, curiosidade e capacidade de escuta. Seu filme é, de fato, uma obra coletiva, de criação horizontal, que deve tanto a ela quanto a cada garota e garoto que entregou sua mente e seu corpo ao projeto. O Urso de Cristal conquistado na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim consagrou essa qualidade.

 

Oscarizáveis

Para não dizer que o blog não falou de Oscar, remeto aos textos publicados aqui sobre alguns dos principais concorrentes: O agente secretoPecadoresUma batalha após a outraHamnetFoi apenas um acidenteA voz de Hind RajabFrankenstein.

 

Desvendando Kubrick

Se existe um cineasta-esfinge, cuja obra segue desafiando cinéfilos e estudiosos, é o estadunidense Stanley Kubrick (1928-99). Sua filmografia relativamente pouco numerosa inclui marcos incontornáveis em vários gêneros, do policial (O grande golpe) à ficção científica (2001: Uma odisseia no espaço), do terror (O iluminado) à sátira militar (Dr. Fantástico), do épico antigo (Spartacus) ao drama de guerra (Glória feita de sangueNascido para matar), sem falar de suas incursões pela perversão erótica em Lolita e De olhos bem fechados.

Para desbravar o terreno complexo e acidentado dessa obra, o crítico Inácio Araujo, da Folha de S. Paulo, vai ministrar on line um curso compacto, em seis aulas semanais, a partir de 23 de março. Interessados devem escrever para o endereço [email protected]. Um bom complemento para o curso pode ser o livro Conversas com Kubrick, de Michel Ciment, editado no Brasil pela Cosac Naify, com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro.