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Carrière, o conversador

11 de fevereiro de 2021

Morreram nesta semana dois gigantes da arte do cinema: o roteirista francês Jean-Claude Carrière e o diretor de fotografia italiano Giuseppe Rotunno. Sobre Rotunno, basta dizer que foi o responsável pelas imagens de obras tão díspares como O leopardo, de Visconti, Amarcord, de Fellini, Ânsia de amar, de Mike Nichols, e All that jazz, de Bob Fosse, pelo qual foi indicado ao Oscar.

Carrière, com seus múltiplos talentos de escritor, dramaturgo, ensaísta, ator e diretor, foi sobretudo um grande narrador, que ajudou a dar forma a criações de cineastas de primeira grandeza, como Buñuel, Godard, Wajda, Malle, Forman, Schlöndorff, Peter Brook e Hector Babenco. É dele que eu quero falar um pouco aqui, pois suas ideias e sua produção iluminam o cinema e suas relações com a literatura e os outros campos da expressão humana.

 

O músculo da imaginação

Dono de uma erudição admirável, jamais exibida com ostentação, Carrière encarava as artes e a vida como vasos comunicantes. Estabelecia entre elas uma relação de diálogo permanente, sem barreiras ou hierarquias. Eu disse que foi um grande narrador, mas talvez devesse dizer conversador. Seus livros, palestras, entrevistas e mesmo roteiros se assemelham sempre a agradáveis conversas, ocasionalmente divertidas, quase sempre brilhantes.

Duas ideias básicas norteavam sua relação com o cinema, e ele as enunciava sempre que possível. A primeira, aprendida com Buñuel, é a de que a imaginação é um músculo que precisa de exercício constante e que “pode ser treinada, como a memória, ou como o pianista que treina os dedos, o ouvido”. A segunda ideia é a de que o roteiro cinematográfico não existe como peça literária autônoma, mas é uma produção provisória, um esboço destinado a desaparecer ao se transformar em imagem e som. A metáfora que ele gostava de usar para definir o roteiro era a do casulo que, depois da metamorfose em borboleta, torna-se uma casca seca e sem serventia.

 

Jean-Claude Carrière, morto no último dia 8 de fevereiro

 

Essas duas ideias, aliadas a seu talento para a conversa, tornaram-no o interlocutor e parceiro ideal de Buñuel, que também gostava de deixar a imaginação voar em liberdade. Sentados a uma mesa de bar, entre um drinque e outro (dry martini, de preferência), inventavam histórias e situações. Um imaginava uma cena, o outro dava continuidade, acrescentava detalhes. Desafiavam um ao outro, numa troca em que a liberdade era o único valor absoluto.

Não foi por acaso que, desde sua primeira parceria, em O diário de uma camareira (1964), o cineasta espanhol não mais abriu mão da colaboração de Carrière. Juntos criaram obras-primas como A bela da tarde, A Via-láctea, O discreto charme da burguesia, O fantasma da liberdade e Esse obscuro objeto do desejo.

O fantasma da liberdade (1974) talvez não seja o melhor nem o mais perfeito desses filmes, mas é o que revela de modo mais claro a liberdade de imaginação e de construção narrativa da dupla. Começa com uma cena histórica: os fuzilamentos de rebeldes espanhóis pelas tropas napoleônicas em Toledo, em 1808, episódio análogo e contemporâneo ao que inspirou o célebre quadro de Goya Os fuzilamentos de três de maio. Corta para a Paris atual, em que uma babá lê num banco de jardim o relato do fato histórico em questão.

 

Acaso e liberdade

Daí em diante, a estrutura narrativa é a mais solta e, ao mesmo tempo, a mais engenhosa possível. Um personagem secundário em uma cena torna-se protagonista da cena seguinte, e os episódios vão se enganchando uns aos outros por sucessivos acasos. O acaso, vale lembrar, era cultivado pelos surrealistas quase como um sortilégio, uma força secreta e misteriosa.

Há, entretanto, um eixo temático a unir todas essas histórias que cobrem um vasto território espacial e temporal: os paradoxos da liberdade. Um dos rebeldes espanhóis fuzilados brada, antes de morrer: “Vivan las cadenas” (vivam as correntes, os grilhões). Segundo os livros de história, essa foi, de fato, uma palavra de ordem dos que resistiam ao exército napoleônico, que supostamente vinha trazer a “liberdade” na ponta das baionetas. A liberdade, sugere o filme, é uma construção histórico-social, como as leis e a moral.

Em outra sequência inesquecível, um franco atirador escondido no alto de um edifício dispara a esmo contra pedestres no centro de Paris. Preso e condenado à morte, ele é imediatamente libertado das algemas e sai leve e solto pelas ruas da cidade. É condenado à liberdade, por assim dizer. “O mais simples ato surrealista consiste em ir para a rua, empunhando revólveres, e atirar ao acaso na multidão”, escreveu André Breton, no Segundo Manifesto Surrealista. O afável pacifista Buñuel certamente não subscrevia isso ao pé da letra, mas sua arte era perpassada por essa pulsão anárquica e antissocial.

Estão presentes nesse filme as obsessões permanentes de Buñuel: a sátira anticlerical, as perversões sexuais, a hipocrisia burguesa, a violência engravatada do poder. Mas o que permanece de mais encantador nele, em contraste com as fórmulas batidas do cinema atual, é essa liberdade de fabulação e de exposição, em que os acontecimentos parecem obedecer à lógica absurda dos sonhos.

 

Fluência e versatilidade

Se O fantasma da liberdade é um mostruário da fluência e da audácia criativa da dupla Carrière-Buñuel, essas características aparecem também em outras obras bem diversas roteirizadas pelo francês, seja num drama histórico-político como Danton (1983), de Andrzej Wajda, seja num épico mitológico como O Mahabharata (1990), de Peter Brook, seja num filme-ensaio como Salve-se quem puder (a vida) (1980), de Jean-Luc Godard, tradicionalmente um cineasta avesso aos roteiros “profissionais” – e aos roteiros em geral.

Falando de Danton, Carrière deu um depoimento interessante sobre uma das cenas mais emocionantes do filme, aquela em que o personagem-título toma a mão de seu ex-amigo e atual algoz Robespierre e a leva ao próprio pescoço, dizendo: “É esta carne que você quer cortar?”. Segundo o escritor, a solução foi uma sugestão de Gérard Depardieu, que encarna Danton. “Isso mostra que um ator imaginativo pode ser coautor de um filme, tanto quanto o diretor e o roteirista.”

Dos numerosos livros de Carrière traduzidos no Brasil, recomendo especialmente três. Prática do roteiro cinematográfico (JSN Editora, tradução de Teresa de Almeida), assinado em parceria com Pascal Bonitzer, é um antimanual, sustentando que as regras narrativas existem para ser subvertidas. É o oposto das famigeradas fórmulas à la Syd Field, que padronizam a ficção cinematográfica e televisiva.

A linguagem secreta do cinema (Nova Fronteira, tradução de Fernando e Benjamin Albagli) é uma mistura singular de ensaio, reflexão e relato de casos, atestando sua visão sagaz e generosa da arte cinematográfica.

Por fim, Contos filosóficos do mundo inteiro (Ediouro, tradução de Cordélia Magalhães) é uma deliciosa compilação de histórias transmitidas oralmente em várias épocas e culturas, um manancial do qual o próprio Carrière se alimentou ao longo de sua carreira.

Para quem se interessar, O fantasma da liberdade está disponível gratuitamente no YouTube, numa cópia bastante boa, com legendas em inglês. Bom divertimento:

 

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