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Do pó ao pó

02 de maio de 2019

Por uma dessas coincidências que devem ter um significado maior, estão chegando às telas dois filmes brasileiros de terror dirigidos por mulheres. Vamos comentar um deles, A sombra do pai, de Gabriela Almeida, que entra em cartaz hoje (2 de maio). O outro, Mormaço, de Marina Meliande, estreia na semana que vem, e falaremos sobre ele oportunamente. Não convém misturar os dois porque, apesar dos vários pontos em comum, são olhares diferentes e marcadamente pessoais sobre o gênero, sobre o cinema e sobre o mundo. 

 

 

O longa de estreia de Gabriela Almeida, o ultraviolento O animal cordial, chamava a atenção pela extrema concentração: toda a ação se passava numa única noite, no interior de um restaurante paulistano de classe média alta. Agora, os desafios são de outra ordem: trata-se de narrar, basicamente pelos olhos de uma menina sensível e sensitiva, a filha única Dalva (Nina Medeiros), o esfacelamento de uma família operária.

A mãe de Dalva morreu há alguns anos; o pai, o pedreiro Jorge (Julio Machado), ainda desnorteado, vive e trabalha como um sonâmbulo, ou melhor, como um zumbi. Para piorar, a tia (Luciana Paes), que cuida da menina em substituição à mãe, arranja um marido e vai morar em outra cidade.

 

A presença dos mortos

A partir dessa situação básica, com poucos personagens e dois ambientes principais – a casa da família, na periferia, e um grande prédio em construção –, a diretora constrói uma narrativa tensa sobre a presença dos mortos no mundo dos vivos e, mais que isso, sobre a presença da morte num corpo vivo.

Já as primeiras cenas, aparentemente banais, são eloquentes e antecipatórias do que virá depois: no quintal da casa, Dalva desenterra uma boneca. A cena é filmada de muito perto, com a câmera revelando pormenores: a terra nas mãos da menina, uma saúva passeando por seu pé descalço. Em seguida um túmulo é destruído a marretadas, para a exumação de restos mortais que serão transferidos para outro lugar. De certo modo tudo está condensado nesses primeiros minutos: vida, morte, ressurreição. Do pó ao pó.

A predominância dos planos aproximados, enquadrados a partir da altura dos olhos da menina (a exceção, obviamente, são as cenas em que ela não está presente), intensifica ao mesmo tempo a subjetividade do olhar e o sufocamento da atmosfera.

A montagem ousada e precisa, feita de cortes secos contrapondo drasticamente planos abertos e fechados, claros e escuros, sem transições, mantém a tensão do início ao fim.

Mas o que há de mais notável em A sombra do pai, a meu ver, é o modo como se apropria de um repertório universal do cinema de terror para inseri-lo organicamente numa situação social e num imaginário fantástico profundamente brasileiros.

Para além da citação direta de filmes como o primeiro Cemitério maldito (Mary Lambert, 1989) e A noite dos mortos-vivos (George Romero, 1968), vistos na televisão por Dalva, há a influência visível do terror italiano de Mario Bava (inclusive na trilha sonora), dos filmes de Frankenstein e, em mais de um aspecto, de O iluminado (1980), de Kubrick.

 

Mitologia brasileira

Mas toda essa tradição e todo esse instrumental expressivo estão, por assim dizer, a serviço de uma brasileiríssima mitologia feita de sincretismo religioso, de “simpatias” e crenças populares que roçam o fetichismo e o animismo. Do Santo Antonio colocado de ponta-cabeça ao pacto de amigas feito com sangue, da “brincadeira do copo” para a invocação de espíritos ao enterro de dentes dos mortos, tudo é arraigada e profundamente brasileiro.

Para construir esse seu universo altamente pessoal, Gabriela contou com uma equipe afiada e coesa, majoritariamente feminina, incluindo a diretora de fotografia uruguaia Barbara Alvarez, a montadora Karen Akerman e duas atrizes excepcionais: Luciana Paes (já presente em O animal cordial) e a pequena Nina Medeiros, uma das presenças mais fortes das telas nos últimos tempos. A atuação ensimesmada de Julio Machado (o Tiradentes do filme Joaquim, de Marcelo Gomes) é igualmente digna de nota: lacônico, tenso, soturno, é um homem na fronteira imprecisa entre a vida e a morte. Em todos os sentidos da palavra, uma figura sombria.