O “patriota do caminhão” é um personagem emblemático da nossa história recente, talvez o signo mais expressivo do fanatismo delirante que contaminou boa parte da população brasileira, levando-a a cantar hino para pneus, emitir sinais de celulares para alienígenas e beber detergente no gargalo.
Esse personagem singular é o protagonista/antagonista de um dos filmes mais ousados e originais da temporada, Eu não te ouço, dirigido por Caco Ciocler e estrelado por Marcio Vito, no duplo papel do caminhoneiro e do infeliz que se grudou na dianteira de seu caminhão.
A aposta radical do diretor é a de encenar, durante pouco mais de uma hora, o diálogo impossível entre esses dois homens separados por um para-brisa e por visões de mundo inconciliáveis.
Não, não se trata da surrada “polarização”, ou seja, de uma divisão ideológica entre direita e esquerda. O caminhoneiro anônimo não é um esquerdista, é apenas um cidadão medianamente informado e pouco politizado, que enxerga o mundo pela ótica pragmática de um trabalhador sofrido, que passa a maior parte do seu tempo longe da família, correndo perigos Brasil afora. Ao contrário de seu interlocutor impossível, ele tem mais dúvidas do que certezas.
Teatro do absurdo
São, na verdade, dois monólogos alternados, em que o cineasta atua como um instigador, um entrevistador oculto. Se a situação real é absurda, o acerto de Caco Ciocler foi de encená-la como uma peça de teatro do absurdo. Não por acaso, a epígrafe apresentada na tela no início é uma frase de Esperando Godot, de Samuel Beckett.
Das impressionantes imagens documentais do caos nas rodovias em novembro de 2022 passa-se bruscamente para esse outro universo, o da encenação, em que a conversa impossível se dá, ou não se dá, tendo como pano movente de fundo os campos e matas do interior do Brasil.
Nesse diálogo truncado, composto por falas comicamente verossímeis, forma-se aos poucos um mapa dos problemas crônicos do país e do imaginário, ou antes, dos imaginários que se desenvolvem em torno deles. O tom geral é de angústia, de incômodo, de impossibilidade. Uma tragicomédia em que não há resposta, não há catarse, não há “mensagem”, não há “última palavra” que sirva de alívio.
Pesadelo fabricado
O plano final – e não vai aqui nenhum spoiler – revela o set de filmagem, expondo as entranhas da máquina ilusionista: a cabine de um caminhão diante da tela onde são projetadas as imagens previamente filmadas da estrada. No fundo, é a velha e boa background projection, empregada pelo cinema pelo menos desde os anos 1930, só que agora com uma tecnologia muito mais avançada. Essa revelação do truque lembra o procedimento análogo no final de E la nave va, de Fellini. É sempre bom lembrar que o cinema é sonho (ou pesadelo) fabricado.
Nesse contexto, o verdadeiro tour de force é de Marcio Vito, ator extraordinário geralmente limitado a papeis coadjuvantes e que aqui se desdobra brilhantemente em duas personae opostas.
O filme talvez ganhasse ainda mais contundência se fosse um pouco mais enxuto. Como curta ou média-metragem poderia ser uma obra-prima. A extensão para perfazer um longa parece um pouco forçada, e a certa altura as falas passam a soar redundantes. Além disso, algumas imagens de fundo se repetem flagrantemente, o que pode distrair a atenção do espectador ou prejudicar a “suspensão da descrença”. Tudo somado, é uma obra admirável, que merece ser vista como contraponto imaginativo à corrente realista predominante em nosso cinema.
