O filme Mambembe, de Fabio Meira, está em cartaz nos cinemas do IMS Paulista e IMS Poços em maio.
Existem muitas maneiras de contar uma história, mas uma forma que vem se popularizando é transformar em certo o que deu errado. No documentário, especificamente, esse recurso não apenas contempla muitas maneiras de contornar o incontornável, como também, vez por outra, consegue amarrar algo que não teria salvação aparente, para costurar uma grande obra constituída do desastre. Como o recente Amanhã, de Marcos Pimentel, que nasce do desacontecimento inesperado para revelar angústias de um país, Mambembe contém o tanto de desespero intrínseco de quem acompanha um acidente irreversível e inevitável. O que é revelado de supetão não apenas mostra uma saída possível dentro do que poderia ser feito, como também ressignifica uma obra dada como perdida – e, assim, não apenas salva, como é recauchutada em sua gênese.
Fabio Meira dirigiu dois longas-metragens antes de Mambembe, e, em ambos, ele se debruçava sobre conceitos de família com alguma dose de naturalismo – até que um rasgo adentrava a narrativa, permitindo o risco e a suspensão do realismo. As duas Irenes tratava de um encontro familiar que não deveria ter acontecido por uma certa ordem tradicionalista das coisas. Tia Virgínia descortina uma festa igualmente tradicional, para desconstruir as aparentes normalidades de cada um, ou dos olhos de cada um, sobre si e sobre o outro. Em seu novo filme, Meira já parte do fim da certeza, do esquema que não apenas não se concretizou, mas ruiu toda a ideia de obra. Um filme construído a partir do que não funcionou, do erro esquecido e que agora pode ser reconstruído, sob nova encarnação.
O que deveria ser uma narrativa ficcional acompanhando integrantes de circos pelo interior do país, com foco específico em três protagonistas femininas, dá lugar (em parte) a um documentário sobre a tentativa de realizar esse mesmo filme, agora aparentemente do avesso. O Mambembe original teve suas filmagens realizadas há 15 anos, ou seja, seria na verdade o primeiro longa de Meira. Ao não revelar os motivos pelos quais seu projeto não foi concluído, e permitir-se criar um duo de situações fora do comum (a realidade da ficção e a ficção da realidade), o autor alcança uma textura que não é tão incomum assim, mas que ele organiza de maneira aí sim inédita. Porque, em tese, estamos diante de dois filmes em um: o que existe e está em tela, e o que não existe e será criado diante do espectador a partir do descaminho.

A partir daí, e conjecturando novas ideias, o fascínio é a porta de entrada para uma narrativa que, em suas curvas radicais, apresenta sempre tanto um dado novo como uma saída inesperada; a sedução está posta. No trio de protagonistas, Índia Morena, Madona Show e Jessica, e na interação que surge naturalmente entre as personagens, está a chave dessa conexão estabelecida entre as artistas e o que elas representam: a valorização da produção circense, em um momento que as novas gerações perderam o contato exatamente com o que intitula o filme. “Mambembe” é um termo comumente usado para descrever grupos teatrais ou circenses itinerantes, sem recursos ou infraestrutura, que viajam apresentando espetáculos simples. Na outra ponta de significação, algo imprestável, ordinário, medíocre ou de pouco valor. Em Mambembe, a arte não é tipificada ou subjugada, e sim exaltada no que ela tem de mais puro.
Ao falar do circo, Meira mais uma vez rememora seu compromisso com os laços familiares que formam a base de sua obra até aqui, investigando a união entre seus personagens e o que é questionado diante de tais modelos disfuncionais. O que o autor não previa era que estava também ele costurando uma nova família gestada pela arte, e que, mesmo separada pelas circunstâncias, não reluta em reencontrar-se diante do imprevisível. Para as respostas que o tempo cobra de cada relação apresentada, Meira retorna ao ponto de origem para revelar pessoas que nunca conhecemos o suficiente, que florescem a cada novo encontro. Com isso, o cineasta constrói uma espécie de Cabra marcado para morrer muito particular, sobre almas ciganas com as quais somos imbuídos pela expressão artística, tenha ela a moldura que tiver.
Conseguir sair de uma dificuldade que se impôs durante uma produção primeira da carreira e igualmente conseguir desfazê-la ao longo de mais de uma década já seria uma tarefa hercúlea. O que Meira faz em Mambembe, reconfigurando um percurso de narrativa para criar uma segunda faixa de entendimento para a obra, situando dados de fantasia na realidade e arroubos de realidade na dita ficção, é além de qualquer expectativa. Que ele consiga então emergir de uma pecha de fracasso pessoal diante de algo que poderia ter sido belo, para sagrar-se superior aos desfeitos e então se juntar aos personagens, para também ele compor, é um tratamento excepcional e uma prova de que, muitas vezes, a melhor psicologia que podemos fazer a nós mesmos será provida por uma tentativa de desconstrução do próprio trabalho.
Com um exercício de montagem arrebatador dele, de Juliano Castro e de Affonso Uchôa (o homem por trás de Arábia), Mambembe é uma obra mergulhada na família pelo tamanho do calor humano que Meira preenche acerca dos seus personagens e atores, na roupagem que for. Estejam no passado ou no presente, essa obra carrega uma dose de hibridismo que impressiona justamente por aproximar seu corpo de elenco até essa proposta-saída. Quando são espelhados os dois momentos da produção, a busca de Meira enfim parece cessar. Seja o que for, o que vemos hoje a respeito do que um dia foi Mambembe é o que teríamos de ver; não à toa, a criatividade narrativa de seu autor foi utilizada como motor para encontrar um novo filme dentro de algo que tinha tentado ser, e esperou por 15 anos para então sê-lo.
