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Abbas Kiarostami em retrospectiva

IMS Paulista, julho a dezembro de 2026

O Cinema do IMS apresenta uma retrospectiva da obra de Abbas Kiarostami (1940-2016), um dos grandes nomes do cinema mundial. Dos primeiros curtas realizados no Kanoon (Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Adolescentes), até os longas que o consagraram internacionalmente, a mostra percorre cinco décadas de atividade e de um inquieto pensamento cinematográfico.

De julho a dezembro de 2026, serão exibidos seus curtas, médias e longas-metragens, em cópias restauradas em 2K. Uma rara oportunidade para conhecer ou rever, em sua quase totalidade, a poética e prática de um artista que expandiu as possibilidades da imagem em movimento desde o Irã e para o mundo.

A programação inclui filmes como O pão e o beco (1970), primeiro curta do diretor, até seu último longa-metragem, 24 frames, lançado postumamente em 2017, passando por obras como a célebre trilogia Koker, que reúne Onde fica a casa do meu amigo, A vida e nada mais e Através das oliveiras; Close-Up, um dos responsáveis por lançar os holofotes do mundo para sua obra; e Gosto de cereja, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1997.

 

Blog do cinema:
Kiarostami nos levará - por Maria Chiaretti ►
Abbas Kiarostami em retrospectiva - por Kleber Mendonça Filho ►

Cena de O viajante, de Abbas Kiarostami

Teaser

Filmes


Como aproveitar o tempo livre: Pintando + O viajante

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

Como aproveitar o tempo livre: Pintando
Az Oghat-e Faraghat-e Khod Chegouneh Estefadeh Konim: Rang-zanie
Kurosh Afsharpanah, Abbas Kiarostami | Irã | 1977, 18’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

“Muitos trabalhos no mundo demandam especialização. Piloto de avião, por exemplo, juiz ou técnico de laboratório”, diz o narrador ao começo do filme. “Para exercer essas profissões, você tem que trabalhar duro para adquirir uma habilidade Para pilotar um avião, você precisa de conhecimento e experiência. Comparada a essa, outras atividades são mais fáceis e acessíveis a pessoas com pouca experiência. Vamos te ensinar uma delas: a pintura. O trabalho não é muito difícil, mas também não é tão fácil. Requer rigor, cuidado e experiência”.

O que se segue é um belo filme educativo que sugere que os jovens, em vez de passar o tempo livre à toa, se dediquem à pintura e à renovação de portas, janelas e outros itens domésticos. Ao longo de quase 18 minutos, um tutorial minucioso é apresentado, passando por todas as etapas necessárias para esse tipo de serviço.

Assim como As cores, Pintando respondia à demanda de que os filmes do Kanoon fossem de fato voltados a crianças e jovens, e não apenas os tivessem como personagens. “Fazia parte da série Como usar o tempo livre?, de cerca de cerca de 20 curtas-metragens que produzi pessoalmente. Havia muitos autores, ainda que nenhum realmente famoso. [...] Não me recordo quantos desses episódios nasceram de minhas ideias, lembro-me apenas de ter realizado Pintando e de haver produzido outros”.1

A despeito da declaração de Kiarostami, há alguma controvérsia sobre quem de fato teria dirigido o filme – o que soa natural dado o volume de produções levantado pelo Kanoon, que nem sempre distinguia as atribuições de cada envolvido nos créditos das obras. O curador, cineasta e escritor Ehsan Khoshbakht, publicou em seu blog Notes on Cinematograph suspeitas sobre a real autoria do filme: De fato, o nome de Kiarostami não aparece nos créditos iniciais, e Khoshbakht defende que o diretor seria outro cineasta ligado ao Kanoon, Kurosh Afsharpanah, com quem Kiarostami teria colaborado no roteiro do curta.2

Seja diretor ou roteirista, não parece impossível especular que o filme também se alimente de inspirações bastante pessoais. Ahmad, pai de Kiarostami, trabalhava com a pintura de afrescos e tetos. E o próprio Abbas já declarou que, desde criança, quando não tinha o que fazer, se dedicava a tarefas de reparo doméstico e que “ainda hoje, adulto, tenho necessidade de estar sempre ocupado. Quando estou em casa, sou incapaz de ficar sentado, vendo televisão. Começo a preparar minhas fotografias para uma exposição, a entalhar madeira ou a pintar.”³

1 e 3 Citações extraídas do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.
2 A investigação de Ehsan Khoshbakht em torno da autoria do filme está documentada, em inglês, em seu blog.

 

O viajante
Mossafer
Abbas Kiarostami | Irã | 1974, 74’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

Um jovem e arteiro menino, morador de uma pequena cidade, prefere jogar e assistir a jogos de futebol do que despender energia com as tarefas escolares. Um dia, ele decide viajar para assistir a uma partida importante entre dois grandes times. Ele consegue o dinheiro com a ajuda de um amigo e parte para a capital, enganando os pais e os colegas.

Segundo Kiarostami, este, uma obra de baixíssimo orçamento, seria o primeiro filme iraniano realizado com som direto.1

"O interior do personagem vem de mim, mas eu não sei qual foi a motivação para criar tal personagem. Eu não gostava de futebol, por exemplo”, diz o diretor em entrevista ao crítico de cinema Godfrey Cheshire. “Mas o que esse filme está falando é sobre anseio [longing], não sobre futebol em si. O que é ainda mais importante é a ideia de não alcançar os objetivos: o sentido das nossas vidas é correr atrás de uma meta sem necessariamente alcançá-la. Você pode não acreditar, mas, para mim, atingir algo não vem necessariamente com uma sensação de realização."2

1 Declaração extraída do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.
2 Citação extraída e livremente traduzida do livro Conversations with Kiarostami (2019), do crítico e especialista em cinema iraniano Godfrey Cheshire, precioso volume que reúne uma série de entrevistas conduzidas com o cineasta ao longo dos anos 1990

 

Programação

IMS Paulista
21/7, terça, 19h30
1/8, sábado, 18h


O coro + O vento nos levará

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

O coro
Hamsorayan
Abbas Kiarostami | Irã | 1982, 18’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: Livre

Um senhor idoso está andando pelas ruas de Rasht, ligando e desligando seu aparelho auditivo sempre que o barulho fica muito alto para ele. Ao chegar em casa, ele espera sua neta voltar da escola mas, sem usar o aparelho, não ouve quando ela toca a campainha.

Apesar de ter sido muito apreciado pelos espectadores, Kiarostami relata não gostar deste filme, além de considerá-lo longo demais. Quanto às leituras políticas que o curta provocou, o diretor comenta1: “as meninas gritavam ‘papai, abre a porta! Avô, abre a porta!’ Quando foi projetado surgiram muitas interpretações políticas. Por outro lado, enquanto eu filmava não pensava diretamente em política. Mesmo assim, assistindo ao filme, os espectadores achavam que as crianças gritavam para Khomeini [líder supremo do irã recém chegado ao poder com a Revolução Iraniana de 1979]: ‘avô, abre a porta!’ Mas ele mantinha os ouvidos fechados e não escutava. São interpretações que nasciam do momento histórico que se estava vivendo”.

1 Extraído do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.

 

O vento nos levará
Bad ma-ra khahad bord
Abbas Kiarostami | Irã, França | 1999, 118’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

Um repórter chamado Behzad viaja para uma aldeia rural no Irã para testemunhar um ritual associado à morte de uma anciã. Enquanto isso, o filme acompanha seus esforços e sua inquietação para se integrar à comunidade local e como ele passa o tempo esperando pelo evento.

Kiarostami relata1 que, chegando ao povoado de Siah Darreh, no Curdistão, teria encontrado um povo distanciado do contato com outras populações e com uma relação bastante intensa com o trabalho, o que lhe dificultava mesmo escalar pessoas que pudessem lançar mão de tempo para trabalhar em um filme. Conta também ter percebido o constrangimento que seria propor a uma mulher idosa que interpretasse alguém à beira da morte. Diante disso, sentiu uma necessidade de mudar seu projeto original: “pouco a pouco, fui percebendo que a personagem principal do filme era eu mesmo. Flagrava-me observando uma região e uma população desconhecidas. Parecia-me claro que o argumento original e a ideia que eu tivera em Teerã tinham servido sobretudo para me levar até o Curdistão. Agora era necessário jogar tudo fora e empreender uma nova tentativa [...]”.

“Comecei a trabalhar sobre o tema da espera, sobre os espaços vazios. Sei que é preciso ter coragem para mostrar o nada, mas essa coragem era estimulada pela confiança que deposito no espectador, principalmente nestes tempos em que o cinema procura conquistar o público mostrando-lhe tudo. O fato de muitas personagens não serem vistas era algo decidido desde o início e satisfazia algumas questões que eu propunha a mim mesmo antes de começar a rodar: uma pessoa que se encontra em um poço e que jamais é vista poderá possuir uma identidade humana? Podemos ter pena dela quando a terra lhe cai por cima? [...] Creio que, afinal, o espectador não sente que as personagens sejam ausentes, aliás, acho que ele as percebe dotadas de um corpo próprio [...]”.

O vento nos levará mostra o quanto de mim existe nos filmes que dirijo. Embora seja difícil e até inútil fornecer um percentual exato, não posso negar que em cada um desses personagens existe um pouco de mim: um habitante de Teerã, certa fase de minha vida, eu como cineasta e as perguntas que me faço”.

1 Extraído do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.

 

Programação

IMS Paulista
8/8, sábado, 17h30*
19/8, quarta, 19h30*

*Sessão gratuita


Tributo aos professores + Os alunos do primeiro ano

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

Tributo aos professores
Bozorgdasht-e mo’allem
Abbas Kiarostami | Irã | 1977, 17’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: Livre

Produzido a pedido do Ministério da Educação e realizado nos últimos anos da dinastia Pahlavi, este documentário inclui entrevistas com autoridades que, como era de se esperar, elogiam o magistério como uma profissão sagrada, nobre e honrosa. Os professores entrevistados, por sua vez, nem sempre se mostram tão otimistas: um deles fala de alunos ingratos e da baixa remuneração da profissão.

O filme originalmente seria projetado no estádio de Teerã no dia do professor, na presença do rei e da família real. Segundo Kiarostami, ao visitar a sala de montagem o ministro da educação se queixou de uma cena com muitas mulheres usando o xador, veste tradicional que cobre o corpo todo, à exceção do rosto. O ministro pediu que a cena fosse cortada, ao que Kiarostami1 teria respondido: “este é um filme encomendado, e em relação a esse tipo de filme, costumamos dizer que o cliente tem sempre razão. Mas como isto é um documento, e não uma reconstituição do real feita por mim, ou seja, aconteceu de fato, não tenho o direito de modificá-lo. Contudo, se o senhor quiser fazê-lo, esteja à vontade, porque nesse caso, ‘o cliente tem sempre razão’.” O diretor ensinou como se cortava um trecho de filme na moviola e deixou a decisão nas mãos do ministro. Este, por fim, decidiu que o ideal era mesmo que o filme não fosse exibido.

1 Extraído do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.

 

Os alunos do primeiro ano
Avvaliha
Abbas Kiarostami | Irã | 1985, 83’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

Kiarostami acompanha um grupo de alunos da primeira série durante um dia na escola. Sempre que surge um conflito, os alunos envolvidos são enviados à sala do diretor, que os interroga a fim de fazer com que cada um reconheça sua parcela de responsabilidade.

Em entrevista1 ao crítico de cinema Godfrey Cheshire, o cineasta afirmou que este filme é “um documento importante, porque mostra como a violência pode mudar drasticamente o comportamento de crianças enquanto ainda estão em um estado de inocência. E isso é ainda mais intenso em um país como o nosso do que em outros lugares. Um dia você acorda e eles dizem que você tem que ser responsável e que é um homem agora. Neste filme é mencionado várias vezes ‘você é um homem agora, não pode chorar’”.

“Em vários níveis, essas crianças estão sendo punidas por quebrarem promessas. Mas tem um ditado em inglês que diz: ‘promessas são feitas para serem quebradas’. Os adultos não sabem que uma promessa existe para ser quebrada. Se você não quebra uma promessa, você não cresce. [...] Os adultos desse filme esperam muito das crianças. Mas você sequer pode esperar muito de adultos”.

1 Citação extraída e livremente traduzida do livro Conversations with Kiarostami (2019), do crítico e especialista em cinema iraniano Godfrey Cheshire, precioso volume que reúne uma série de entrevistas conduzidas com o cineasta ao longo dos anos 1990

 

Programação

IMS Paulista
12/8, quarta, 19h40*
30/8, domingo, 19h30*

*Sessão gratuita


As cores + A experiência

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

As cores
Rangha
Abbas Kiarostami | Irã | 1976, 16’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

Este curta-metragem estimula a percepção das crianças em relação às cores: vermelho, verde, amarelo, azul, laranja, branco, roxo e preto. Cada cor dá origem a uma lista de objetos do cotidiano a elas associados. A enumeração termina com o preto, a cor do aprendizado (a cor da tinta e dos quadros-negros).

“Houve um momento particular em que o Kanoon foi criticado, porque, em vez de produzir filmes para crianças, realizava filmes sobre crianças, nos quais frequentemente o público-alvo não era o infantil, mas o adulto”, relata o cineasta. Foi a partir daí que pensamos que talvez fosse melhor produzir filmes didáticos com uma linguagem expressamente para crianças e para um público infantil. As cores foi um desses trabalhos”.1

“Se você quer que crianças vejam um filme, você precisa ter ritmo nele”, Kiarostami disse em entrevista ao crítico de cinema e jornalista Godfrey Cheshire. “Os melhores filmes para crianças são comerciais. Quando Ahmad e Bahman eram pequenos, mesmo quando tinham só seis meses ou um ano de idade, eles paravam de comer quando os comerciais começavam. Eles não desviavam a cabeça até o comercial terminar. Eles não entendiam a mensagem, não compravam o produto, mas curtiam o ritmo. E, neste filme, eu incorporei mensagens para eles usando cores. Por exemplo, eles têm que parar no sinal vermelho e atravessar a rua na faixa de pedestres listrada. E outras coisas assim. Mas o que parece mais importante são ritmo e cores”.2

1 Citação extraída do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.
2 Citação extraída e livremente traduzida do livro Conversations with Kiarostami (2019), do crítico e especialista em cinema iraniano Godfrey Cheshire, precioso volume que reúne uma série de entrevistas conduzidas com o cineasta ao longo dos anos 1990.

 

A experiência
Tadjrebeh
Abbas Kiarostami | Irã | 1973, 56’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

Mohammad, de 14 anos, trabalha para um chefe exigente em uma loja de fotografia, onde tem permissão para dormir. Ele passa a desejar um futuro melhor quando se apaixona por uma jovem de classe média de um bairro abastado. Um dia, ele se oferece para trabalhar na casa dela.

Depois de filmar O pão e o beco, Kiarostami faria outro curta, O recreio, que também integra a programação desta mostra e é reputado pelo diretor como um de seus trabalhos mais experimentais. “A reação da crítica não foi positiva; pelo contrário, foi tão incisiva e amarga que me obrigou a trilhar – com o filme seguinte, A experiência [a partir de um argumento do cineasta Amir Naderi] – uma direção completamente diversa: o filme sentimental”.

“Lembro-me de que queria aprimorar minhas qualidades técnicas, que muitos consideravam insuficientes, e então, para mostrar do que era capaz, fazia acrobacias com a câmera. Usei a câmera no ombro e alguns movimentos de maquinário: se, de um ponto de vista meramente técnico, era uma coisa positiva, por outro lado, desviava a atenção do espectador. Era um procedimento anticinematográfico. Os enquadramentos complexos são interessantes, mas obrigam o espectador a se interessar por virtuosismos técnicos mais do que se concentrar na história”.1

1 Citação extraída do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.

 

Programação

IMS Paulista
17/7, sexta, 19h30
25/7, sábado, 18h


O pão e o beco + Lição de casa

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

O pão e o beco
Nan va Koutcheh
Abbas Kiarostami | Irã | 1970, 12’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

Uma criança carregando um pão está a caminho de casa, mas a caminho de casa há um cão assustador, e ela não consegue passar sozinha.

De 1960 a 1969, Kiarostami relata ter dirigido mais de 150 anúncios publicitários, em funções diversas, mas raramente como diretor. No fim da década de 1969, foi convidado pelo Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Adolescentes, o Kanoon, a abrir um departamento cinematográfico. O presidente da instituição iraniana gostara de um anúncio feito por Kiarostami para uma marca de aquecedores.

Nas palavras de Kiarostami, “os primeiros dez anos de atividade do departamento de cinema foram um período irrepetível. Até o início de 1979, o instituto havia produzido, entre curtas e longas-metragens, quase 140 filmes, entre os quais muitos desenhos animados. Acho que a principal ruptura no cinema iraniano aconteceu precisamente com as primeiras pesquisas cinematográficas feitas no interior do instituto.” Ele diria ainda: “O elemento decisivo foi o nosso público: era composto de crianças. Contávamos histórias de crianças, e nossos filme não falavam nem de sexo nem de violência, que nesses anos imperavam. Insisto nesse ponto porque acho que a ausência da psicose da bilheteria foi minha sorte: enquanto realizava as primeiras experiências cinematográficas, meu único problema era fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Hoje, já não falaria de cinema de vanguarda, diria ‘filmes do Kanoon’”.1

Foi nesse contexto que dirigiu seu primeiro filme, o curta O pão e o beco, a partir de uma experiência vivida por seu irmão. Em entrevista ao jornalista e crítico de cinema Godfrey Cheshire, o cineasta diria: “Tem coisas em O pão e o beco que se repetem nos meus outros filmes. É a mãe dos meus outros filmes”.2

Entre os relatos do diretor em torno do filme, está a dificuldade em convencer o diretor de fotografia, Mehrdad Fakhimi, um profissional experiente, de que a cena final, em que o menino finalmente chega em casa e o cachorro é deixado do lado de fora e se deita à porta, fosse filmada em um só plano. Foram necessários mais de 40 dias para filmá-la, e ela traz aquilo que Kiarostami chama de uma de suas “principais características: filmar uma cena inteira num único enquadramento”.

Por sinal, essa “mãe de todos os outros filmes” inicia justamente ao instrumental de uma famosa canção dos Beatles que diz: “Ob-la-di, ob-la-da, life goes on”. Nestes versos, que nunca chegam a ser cantados no filme, estaria o título de um dos célebres filmes que Kiarostami faria mais tarde: E a vida continua.

1 Citação extraída do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.
2 Citação extraída e livremente traduzida do livro Conversations with Kiarostami (2019), do crítico e especialista em cinema iraniano Godfrey Cheshire, precioso volume que reúne uma série de entrevistas conduzidas com o cineasta ao longo dos anos 1990.

 

Lição de casa
Mashg-e shab
Abbas Kiarostami | Irã | 1989, 78’, DCP (mk2 Films), restauração 2K | Classificação indicativa: 14 anos

De acordo com Kiarostami, Lição de casa não é um filme, mas uma investigação filmada sobre os problemas do sistema educativo iraniano, que se tornam evidentes em conversas com os filhos do cineasta todas as noites, depois da escola. Em entrevistas realizadas na escola pelo próprio diretor, os alunos são filmados em closes, com as costas voltadas para a parede. Eles falam sobre a quantidade excessiva de lição de casa, que compete com os desenhos animados da TV, e sobre as punições que isso acarreta.
Lição de casa é o menos convencional de meus trabalhos”, declarou Kiarostami. “Àquela altura não considerava este trabalho um verdadeiro filme, mas uma pesquisa de caráter pessoal. [...] Não se tratava de rodar um documentário, mas de ir à escola de meu filho para ver o que se passava. Por isso filmei em 16 mm, sem recriar nenhuma cena, mas, fazendo apenas certas perguntas simples, consegui mostrar o modo como as crianças estudam, as relações com os pais, se estes os ajudam ou não”.

“Quando Lição de casa foi lançado nas salas de cinema, e, depois, na televisão, teve uma influência positiva em nossa sociedade, nos professores e nos pais, muitos dos quais admitiram ter alterado seus comportamentos em relação às crianças; eu mesmo, graças a esse filme, passei a conhecer melhor os meus filhos. Se há filmes capazes de exercer uma ação benéfica sobre os espectadores, acho que Lição de casa é um deles”.1

1 Citação extraída do texto Duas ou três coisas que sei de mim, de Abbas Kiarostami, com tradução de Álvaro Machado, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify.

 

Programação

IMS Paulista
26/7, domingo, 18h
30/7, quinta, 19h30


Programação

IMS PAULISTA

17/7/2026, sexta
19h30 - As cores + A experiência

21/7/2026, terça
19h30 - Como aproveitar o tempo livre: Pintando + O viajante

25/7/2026, sábado
18h - As cores + A experiência

26/7/2026, domingo
18h - O pão e o beco + Lição de casa

30/7/2026, quinta
19h30 - O pão e o beco + Lição de casa

1/8/2026, sábado
18h - Como aproveitar o tempo livre: Pintando + O viajante

8/8/2026, sábado
17h30 - O coro + O vento nos levará*

12/8/2026, quarta
19h40 - Tributo aos professores + Os alunos do primeiro ano*

19/8/2026, quarta
19h30 - O coro + O vento nos levará*

30/8/2026, domingo
19h30 - Tributo aos professores + Os alunos do primeiro ano*

*Sessão gratuita


Ingressos

Vendas
Os ingressos do cinema podem ser adquiridos online ou na bilheteria do centro cultural, mais informações abaixo.

Meia-entrada
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem e maiores de 60 anos.

Cliente Itaú
Desconto de 50% para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

Devolução de ingressos
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.


IMS Paulista

Sessões até 1/8/2026
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Bilheteria: de terça a domingo, das 12h até o início da última sessão de cinema do dia, na Praça, no 5º andar.

Os ingressos para as sessões são vendidos na recepção do IMS Paulista e pelo site ingresso.com. A venda é mensal e os ingressos são liberados no primeiro dia de cada mês.

Sessões a partir de 8/8/2026
Entrada gratuita. Sujeita à lotação da sala.
Distribuição de senhas 60 minutos antes de cada sessão. Limite de uma senha por pessoa.
Não é permitido o consumo de bebidas e alimentos na sala de cinema.