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Lugar e palavra

13 de maio de 2019

O cineasta alemão Heinz Emigholz e o argentino Jonathan Perel estão colaborando em um novo filme, que será parcialmente rodado em São Paulo, com direção de Emigholz e a participação de Perel como ator. Para a ocasião, a Sessão Mutual Films de maio traz os dois diretores – ambos dedicados a explorar a paisagem e a arquitetura como expressões da consciência humana – para apresentar seus filmes e discutir o novo projeto com o público. Na sessão serão projetados em diálogo os dois filmes mais recentes de Perel, ambos estudos documentais sobre o legado de violência da ditadura argentina, e uma ficção recente de Emigholz, na qual Perel faz o papel de um psicólogo especializado em trauma, que conversa com seu paciente ao redor de construções modernistas no Uruguai e na Alemanha. Dois dos três filmes são estreias brasileiras.

A conversa começa com o relato de uma experiência de despersonalização. O artista, saturado pelo trabalho, comenta sua obra e vida em um evento e, como se estivesse fora do próprio corpo, observa a si mesmo falando. Este é o início da reencenação da “maratona terapêutica” entre o cineasta alemão Heinz Emigholz e o analista israelense, especializado em trauma, Zohar Rubinstein, que resultou no filme Streetscapes [Dialogue] (2017), a terceira parte de um quarteto de longas-metragens de Emigholz chamado “Streetscapes” [Paisagens urbanas], realizado entre 2013 e 2017. O cineasta é interpretado pelo ator americano John Erdman, e o psicólogo, pelo documentarista argentino Jonathan Perel. Enquanto conversam sobre a vida e a carreira do diretor, se deslocam por diferentes espaços arquitetônicos no Uruguai e na Alemanha, projetados pelos arquitetos uruguaios Julio Vilamajó e Eladio Dieste e pelo alemão Arno Brandlhuber.

Emigholz (nascido em 1948) está trabalhando em um novo filme de ficção, chamado The Last City, que será rodado em diversas cidades ao redor do mundo, entre elas São Paulo. Ele virá em maio acompanhado de uma equipe que inclui Perel (nascido em 1976), novamente trabalhando como ator. Tendo em vista a nova colaboração, a Sessão Mutual Films deste mês trará para o IMS uma sessão dupla de Streetscapes [Dialogue] e os dois últimos filmes de Perel – Toponímia (2015) e 5-T-2 Ushuaia (2016), ambos documentários que lidam com a história recente da Argentina, relacionando política e paisagem. O evento também contará com a presença dos artistas em São Paulo e no Rio de Janeiro para apresentar e debater seus filmes.

The Last City utiliza o mesmo método de Streetscapes [Dialogue], no qual atores travam conversas filosóficas enquanto se deslocam por espaços arquitetônicos que esporadicamente protagonizam as cenas. Os dois filmes fazem parte de uma série em processo chamada Fotografia e além, com mais de 30 obras, concebida, nas palavras de Emigholz, como a “construção de uma expressão fílmica sobre a atividade artística e criativa”. O cineasta possui um olhar especialmente voltado para arquitetura modernista, o que deu forma a uma subsérie de Fotografia e além chamada Arquitetura como autobiografia, onde ele registra a obra de arquitetos modernistas (como Eladio Dieste) por meio de passeios pelos espaços arquitetônicos de cada projeto. O nome dessa subsérie é ambíguo, pois se refere tanto aos arquitetos como ao cineasta, que identifica em intertítulos a data de construção dos edifícios e a data de sua visitação, e que determina o ângulo da imagem a partir do ponto de vista de seu olhar (muitas vezes em diagonal).

 

Cena de Streetscapes [Dialogue], de Heinz Emigholz

 

Os trabalhos de Emigholz (objeto de uma retrospectiva no IMS Rio em 2015) carregam ambiguidades que se manifestam nos relatos históricos, nas reflexões sobre estética e nas estruturas dos filmes. Em Streetscapes [Dialogue] a conversa diante da câmera evolui de memórias de uma infância melancólica na Alemanha pós-guerra até a elaboração do próprio filme do qual os dois personagens fazem parte. Gestos iniciais, como ligar o gravador para registrar a conversa, são posteriormente comentados quando o tema de “Streetscapes” toma forma. Um jogo entre múltiplas temporalidades é explicitado no filme, algo que reside naturalmente, porém de forma mais sutil, em cada construção registrada.

Esse jogo temporal também se manifesta na obra de Perel, cujos filmes contam a história da ditadura argentina a partir da observação em primeira mão de lugares e objetos construídos e ocupados pelos militares para cometer atos de tortura e assassinato. Ao longo de sua breve filmografia (sete filmes de durações variadas), Perel mostra consistentemente locais que carregam atualmente significados diferentes daqueles do período da Guerra Suja. Os centros clandestinos e oficiais de detenção, tortura e extermínio são relembrados em intervenções que não apenas rememoram um momento trágico, mas, assim como o próprio registro audiovisual, contextualizam sua percepção pela sociedade argentina atual.

Los murales (2011) registra detalhadamente um mural em Buenos Aires que homenageia as vítimas assassinadas no local, e sua vandalização com pichações de apoio à ditadura. 17 monumentos (2012) percorre diferentes regiões da Argentina onde foram construídos monumentos irmãos com as palavras “Justiça, verdade, memória”, em locais que abrigaram centros de detenção durante a ditadura. Tabula rasa (2013) acompanha a demolição de um centro de detenção onde será construído um museu sobre a história do edifício demolido. Perel aplica a mesma metodologia de simetria em todos os seus filmes. As cenas possuem a mesma duração, a mesma distância entre a câmera e o objeto filmado, o mesmo trajeto. A monotonia do registro (filmado com som direto e sem comentários falados) ressalta o objeto registrado, que pode ser uma vila, um monumento, uma ação. A insistente permanência nos locais estimula a reflexão do espectador, para quem é dada a tarefa de reconstruir a história que está sendo evocada.

 

Cena de Toponímia, de Jonathan Perel

 

Toponímia é o filme mais elaborado de Perel. Quatro aldeias idênticas, construídas pelos militares para combater a guerrilha que crescia em uma região rural isolada de Tucumã, no noroeste argentino, são retratadas a partir da planta baixa original de 1976 e de imagens filmadas no local pelo próprio cineasta em 2014. O percurso, que se repete nas quatro vilas, começa no portal de entrada e segue, em planos fixos de 15 segundos cada, pelos espaços coletivos locais, como praça, igreja, centro comercial, escola, centro desportivo e a estrada de saída. O filme é organizado em quatro capítulos silenciosos, um prólogo sobre o projeto militar, com imagens de arquivo e documentos oficiais, e um epílogo, filmado pelas ruínas das antigas casas dos camponeses que foram realocados. As vilas são bem arborizadas e repletas de referências militares, desgastadas pela passagem do tempo e pela perda do valor simbólico do que representam.

A passagem do tempo proporciona outro significado para os objetos retratados no último filme de Perel, o curta-metragem 5-T-2 Ushuaia, que examina restos de aviões militares usados nos chamados “voos da morte” – nos quais prisioneiros políticos eram arremessados vivos em alto-mar –, e que se transformaram em provas no processo de investigação de crimes contra a humanidade. O filme testemunha o julgamento de um momento histórico que poderá ser revisto e contestado posteriormente, e, diante disso, adquire um valor documental crucial.

Os filmes de Emigholz e Perel são tanto registros documentais quanto encenações de jornadas de exumação e catarse. Eles encapsulam camadas temporais ao adotarem uma perspectiva subjetiva que coloca os diretores como testemunhas da história recente. Ao assistir aos filmes, cada espectador também entra em diálogo com essa história, a partir de seu próprio lugar e momento.

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