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O refúgio do faz-de-conta

16 de maio de 2019

Quem gosta de repetir o clichê de que “o cinema argentino é melhor que o nosso porque tem bons roteiros” encontra em Juan José Campanella sua justificativa mais à mão. Ganhador do Oscar com O segredo dos seus olhos (2009), Campanella dirigiu também sucessos como O filho da noiva e Clube da lua e passou a simbolizar uma espécie de cinema argentino genérico, feito de narrativas consistentes de interesse universal.

Em seu novo filme, A grande dama do cinema, o diretor sai um pouco de seu registro habitual, de dramas realistas temperados pelo humor e pela crítica social, e penetra no reino da farsa, construindo uma comédia de fundos falsos, em que o mundo é visto como um confronto de encenações, de burlas, à maneira de Jogo de emoções, de David Mamet, ou do também argentino Nove rainhas, de Fabián Bielinsky.

 

 

Sua protagonista é Mara Ordaz (Graciela Borges), uma atriz aposentada que viveu sua glória cinco décadas atrás e que hoje mora num palacete no campo com seu marido cadeirante e dois velhos amigos, todos envolvidos em seu passado de estrela: o marido (Luis Brandoni) foi ator, os outros dois foram roteirista (Marcos Mundstock) e diretor (Oscar Martínez) de seus sucessos.

O filme a pinta desde as primeiras imagens como uma versão argentina de Norma Desmond, a estrela decaída de Crepúsculo dos deuses que, como ela, vive de recordar narcisisticamente o passado. A casa onde ela vive está repleta de mementos de seus anos dourados, incluindo, no centro da sala, o Oscar conquistado há meio século. Seu quarto é um suntuoso e cafona bricabraque de peças de cenários de filmes diversos.

Esse mundo fora do tempo, encerrado em si mesmo, em que os próprios diálogos evocam filmes pretéritos, é abalado pela chegada aparentemente fortuita de um jovem casal, que se diz perdido e pede para usar um telefone. Com essa intromissão inesperada, instaura-se um embate entre presente e passado, realidade e fantasia, mas ao longo da narrativa esses termos da equação vão se embaralhar e trocar de sinal.

 

Voltas do parafuso

Não é o caso de contar aqui os episódios desse embate, simbolizado no filme em jogos de xadrez e de sinuca, além da caça de doninhas. O importante é notar que, nas inúmeras voltas do parafuso operadas por Campanella, as referências à realidade atual (o mundo das corporações, a voracidade do capital globalizado, a arquitetura clean e impessoal dos prédios de aço e vidro) acabam quase submersas na rede de alusões cinematográficas e na arbitrariedade das soluções narrativas, como se o diretor tomasse partido pela fantasia contra o real – o que não deixa de ser uma postura política.

Tudo parece girar em torno de representações já existente. Para começar, trata-se de uma refilmagem modificada de um longa-metragem de 1976, Los muchachos de antes no usaban arsénico, de José Martínez Suárez. O arsênico desse título original, e seu uso no filme de agora, remetem ao clássico de Frank Capra Este mundo é um hospício (Arsenic and old lace, 1944).

E a certa altura de A grande dama o velho diretor se apresenta numa recepção de empresa sob o falso nome de Mario Soffici, referência cifrada ao diretor e ator ítalo-argentino que estava no elenco de Los muchachos de antes... Em sua sala de projeção particular, Mara Ordaz revê trechos dos melodramas que estrelou no passado, como Pobres mariposas (Raúl de la Torre), Los viciosos (Enrique Carreras) e Circe (Manuel Antin), todos com a própria Graciela Borges que encarna Mara Ordaz, assim como Norma Desmond (Gloria Swanson) revia filmes mudos reais protagonizados por Gloria Swanson.

O título original de A grande dama... é El cuento de las comadrejas (O conto das doninhas). Em espanhol, cuento significa narrativa, fábula, mas também embuste, mentira. Nessa identificação entre narrar e mentir reside a graça, e talvez também a limitação, do novo filme de Campanella.

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