A mostra Memórias negras: arquivos para o futuro está em cartaz nos cinemas do IMS Paulista e do IMS Poços em setembro
O Seminário Memórias Negras nasceu como uma iniciativa no escopo da pesquisa e do processamento do Arquivo Januário Garcia, fotógrafo que reuniu um grande conjunto de documentação das vivências afrodiaspóricas, no Brasil e em diversos países. Realizada em 2024, a primeira edição ocorreu em parceria com o Museu de Arte do Rio e teve como tema “As vozes de nossos ancestrais”. O evento trouxe debates em torno das memórias negras no âmbito dos arquivos, das religiosidades de matriz africana e das iniciativas com protagonismo negro. Além disso, celebrou os 80 anos de Januário, com a estreia do curta documentário Janu – A fotografia como movimento (2024), dirigido por Marcell Carrasco e Silvana Marcelina. O seminário se somou a outros esforços realizados pelo IMS com o intuito de rever seu acervo, ampliar diálogos e valorizar as múltiplas vozes que compõem a diversidade cultural brasileira.
Na ocasião, ficou evidente a importância do encontro, tanto pela significativa participação de público quanto pelas presenças e experiências que foram apresentadas. Em diversos formatos – de museus digitais e canais de vídeos a casas-museus, espaços culturais, páginas de redes sociais, murais de arte etc. – essas iniciativas promovem a valorização de uma memória ancestral e a afirmação da resistência no presente. É o gesto que materializa o ensinamento filosófico de Sankofa, olhar para o passado e dele adquirir sabedoria para seguir no presente e semear o futuro.
E foi nessa toada que, em 2025, planejamos o II Seminário Memórias Negras, com o tema “Arquivos para o futuro”. Voltada para as histórias, as práticas e as memórias que frutificam um afrodevir, a segunda edição ampliou a participação com chamadas nacionais de trabalhos e de filmes. O escopo das parcerias também foi expandido, contando agora com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), por meio da Superintendência de Equidade Étnico-Racial e de Gênero (Supeerg), da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PR-3), do Departamento Cultural (Decult) e do Núcleo de Memória Audiovisual (NuMA/CTE), além da Gerência de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação e do Centro de Documentação do CPDOC-FGV.
A entrada da produção audiovisual no escopo do evento se deu pelo reconhecimento do lugar fundamental que o cinema ocupa nesse movimento de disputa pela memória. As imagens produzidas por realizadores negros não apenas registram experiências, mas também criam outros modos de olhar para o passado, o presente e o futuro. Por isso, ampliamos a programação com uma mostra de filmes dedicada às relações entre cinema, memória e arquivos afrodiaspóricos. Convidamos realizadoras e realizadores negras e negros de todas as regiões do país a compartilharem obras que dialogassem com essas questões, entendendo o cinema como uma ferramenta de reinvenção das nossas histórias.
A seleção reuniu curtas-metragens de até 25 minutos, em diferentes formatos e linguagens, tendo como eixo comum as relações entre memória, arquivo e história da população negra no Brasil e na diáspora. Em 14 dias de chamada, foram 209 inscrições válidas, de 20 estados, com filmes de 2015 a 2025. Em relação aos formatos, a grande maioria era de documentários (cerca de 60%), além de obras experimentais e ficcionais. Para nós, tais números indicam a profusão de produção audiovisual voltada ao tema; a importância do cinema como uma ferramenta de enfrentamento ao apagamento histórico das narrativas negras; e a tomada dos meios de produção de discursos e poder por parte das novas gerações negras. Estamos disputando os espaços, os meios e retomando nossas histórias e referências.
Para a árdua tarefa de selecionar os filmes convidados a compor a programação do II SMN, formamos um time curatorial interno do IMS, com a presença de Márcia Vaz, supervisora de programação da área de Cinema, e Marcell Carrasco, cineasta e jornalista, que atua na área de Comunicação. Para somar nesse trabalho e trazer um olhar aguçado do circuito, convidamos a roteirista e pesquisadora de cinema Kariny Martins, que integra a curadoria de importantes festivais de cinema no Brasil. Ao longo das análises, percebemos que os filmes que mais nos interessavam não queriam, necessariamente, preservar a memória como um monumento, mas colocar aquelas imagens em movimento. Foi essa percepção que orientou a escolha dos oito filmes que compõem a mostra.
Embora partam de lugares muito distintos entre si em linguagem, duração e território, os filmes compartilham uma mesma urgência. Com realizadores do litoral maranhense ao Pantanal, passando por Marajó, Recife, Espírito Santo, Piauí e Rio de Janeiro, cada obra encontra uma forma própria de acessar aquilo que permanece vivo. Quando reunidos, esses filmes mostram que a memória negra não se organiza em torno de uma única forma de registro.
Assim, a mostra não funciona apenas como um complemento do seminário, ela é parte da própria discussão. Os filmes disputam, cada um à sua maneira, quais histórias continuam existindo e quais correm o risco de desaparecer.

Mostra de filmes II SMN
Em outubro de 2025, em meio ao seminário, a maior chacina já registrada no Rio de Janeiro, com 121 mortos, irrompeu na rotina carioca e impregnou de horror e pesar os dias seguintes. Enquanto pensávamos sobre como preservar histórias, trajetórias e experiências da população negra, a realidade nos lembrava, de forma brutal, das forças que historicamente tentam interromper essas mesmas vidas e apagar não só a memória, mas a existência do povo negro.
Diante daquele cenário, optamos por seguir com o evento de modo remoto, transmitindo via YouTube a programação de debates e as apresentações dos projetos que marcam a resistência negra ante o racismo estrutural. Para nós, ter mantido este espaço de diálogo foi um modo de nos acolhermos diante da violência e de pensarmos conjuntamente sobre como construir arquivos capazes de preservar histórias que tantas vezes foram interrompidas.
Acreditamos que uma das possibilidades de seguir está justamente em olhar para aqueles que vieram antes de nós, olhar para quem abriu caminhos e criou ferramentas para que pudéssemos reivindicar e narrar nossas próprias histórias. Como nos lembra Januário Garcia, “existe uma história do negro sem o Brasil, o que não existe é uma história do Brasil sem o negro”.
É por tudo isso que seguimos, e realizaremos a mostra de filmes do II SMN meses depois do planejado, num gesto de afirmação e valorização das memórias negras. Serão apresentados dois programas, que contarão também com a exibição de trechos das entrevistas gravadas com representantes dos filmes, que viajaram de diferentes cidades para participar do seminário e apresentar suas obras, mas foram impedidos pelas circunstâncias daquele dia. É uma alegria, enfim, compartilhar esse conjunto de filmes com o público do IMS Paulista e do IMS Poços, ampliando a circulação dessas produções e as reflexões que elas proporcionam.
Agradecemos também à equipe de Cinema do IMS, que tornou possível o encontro desses filmes com novos públicos e a conquista do espaço que merecem.
Marcell Carrasco é mestre em comunicação social pela PUC-Rio, pós-graduado em jornalismo cultural pela Uerj e graduado em comunicação social pela Universidade da Cidade (UniverCidade), desenvolve pesquisas sobre cinemas negros, além de atuar nas áreas de direção e roteiro. Integra a equipe de Comunicação do IMS.
Silvana Marcelina é graduada e mestra em serviço social pela UFRJ, é especialista em linguagens artísticas, cultura e educação pelo IFRJ, bacharel e licencianda em artes visuais pela Uerj e doutoranda no PPGMS/Unirio. Atua como pesquisadora, curadora, artista e educadora. Desde 2020, trabalha com o acervo do fotógrafo Januário Garcia.
