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Mack/Makino

14 de janeiro de 2020

Mais informações sobre os artistas da Sessão Mutual Films de janeiro de 2020, inclusive filmografias completas, podem ser encontradas em seus sitesjodiemack.com e makinotakashi.net. A sessão é dedicada à memória dos grandes artistas e pesquisadores do cinema que faleceram em 2019, entre eles, Doris Day, Gustav Deutsch, Stanley Donen, Thomas Elsaesser, Machiko Kyo, Suzan Pitt, Phil Solomon e Peter Whitehead.

 

O Grande Bizarro + O retrato da escuridão

 

Me interessa criar uma experiência única… Eu também procuro combater a noção de cinema como objeto reprodutível… Me oponho à necessidade de algo ser lucrativo para poder acontecer e procuro existir no mundo em favor de uma abordagem artesanal.

Jodie Mack, em entrevista para o site Desistfilm

 

No início da década de 1950, quando a televisão se popularizava nos Estados Unidos, causando um declínio no fluxo de espectadores nas salas de cinema, a Twentieth Century Fox criou um novo formato de projeção chamado CinemaScope para se distinguir do “cinema em casa”. Na primeira década do século XX, quando o cinema começou a dominar o mercado do entretenimento, acreditou-se que uma nova era surgia e que colocaria um ponto-final nas apresentações teatrais. Hoje, o streaming e as grandes empresas do ramo sugerem que a experiência da sala de cinema tornou-se algo do passado. Aos poucos, entra em decadência o cinema de entretenimento de grandes massas e se consolida o cinema cuja finalidade é artística e educativa – uma ferramenta cultural, independente do ramo industrial. À frente desta transformação despontam artistas experimentais e preservacionistas que valorizam a experiência coletiva da sala de cinema e retomam o uso da película cinematográfica como material de criação e preservação, impulsionando a volta da produção e da comercialização desse suporte.

Dois fortes expoentes do cinema experimental contemporâneo, a inglesa Jodie Mack (nascida em 1983 e radicada nos Estados Unidos) e o japonês Takashi Makino (nascido em 1978), se apropriam de técnicas e práticas dos primórdios do cinema – exploradas pelos surrealistas na França e os formalistas na Rússia – como a animação quadro a quadro, a sobreposição de imagens e a sonorização ao vivo, participando de um movimento que é em essência estético e coletivo. De maneiras distintas, Mack e Makino trabalham com a saturação de informação resultante do acúmulo de imagens (em um único quadro ou numa sequência), produzindo abstrações nas quais o esvaziamento do significado de cada objeto é consequência da abundância de um mundo artificial. Ambos os artistas propõem imersões em universos muito particulares que se abrem ao espectador para que este incorpore seu próprio contexto e receba as obras também de uma forma pessoal.

Mack recicla uma infinidade de objetos do cotidiano, que adquirem um espírito próprio ao se transformarem em protagonistas de suas animações. Estes incluem papéis de presente em New Fancy Foils (2013), circuitos eletrônicos de computadores em Wasteland No. 1: Ardent, Verdant (2017); cartazes em Dusty Stacks of Mom: The Poster Project (2013), tecidos metálicos em Razzle Dazzle (2014) e tricô em Blanket Statement #2: It’s All or Nothing (2013). A artista também cria instalações e performances com monitores velhos e variações de zootrópios com bicicletas, discos de vinil e miniaturas, comentando o excesso da produção de lixo a partir do excesso de estímulos, atirado aos olhos (e às vezes aos ouvidos) em repetições obsessivas.

Cena de O Grande Bizarro, de Jodie Mack

 

Seu primeiro longa-metragem, O Grande Bizarro (The Grand Bizarre, 2018), remete a sinfonias da cidade e a musicais hollywoodianos clássicos, em especial Um pijama para dois (Tha Pajama Game, 1957), de Stanley Donen e George Abbott – sobre conflitos entre funcionários e supervisores em uma fábrica de pijamas. Tecidos coloridos e dançantes são animados quadro a quadro ao ritmo de uma trilha sonora original, criada a partir da reciclagem de sons. Os tecidos proliferam ao redor do mundo, chamando a atenção para um processo de produção industrial que ainda depende das mãos do trabalhador, tratadas pela sociedade com o mesmo desprezo dispensado a uma peça de roupa barata. O título do filme brinca com o Grande Bazar, em Istambul – um enorme mercado coberto que fez parte das filmagens –, enquanto estabelece um modus operandi artesanal fascinado em ver e ouvir o potencial infinito do trabalho humano.

Em seus filmes, videoinstalações e trabalhos de cinema expandido Takashi Makino recorre a uma lembrança de infância – uma experiência sensorial de quase-morte após um acidente de carro – para criar universos paralelos, ao mesmo tempo expansivos, como galáxias, e introspectivos, como sonhos, descritos nos títulos de obras como Gerador (Generator, 2011), Memento Stella (2018) e A origem dos sonhos (Origin of the Dreams, 2016). O artista faz isso através de um processo rigoroso no qual utiliza milhares de fotografias (em película ou digitais) sobrepostas e manipuladas digitalmente com técnicas aprendidas durante seus anos de trabalho como colorista. O espectador é então convidado a dar forma às novas configurações produzidas pelo artista, ou simplesmente se deixar levar pelo fluxo sensorial, acompanhado de trilhas sonoras minimalistas realizadas por compositores como Jim O’Rourke, Machinefabriek e o próprio Makino.

O retrato da escuridão (The Picture from Darkness, 2016) parte de outro encontro sensorial com a morte, o processo de cegueira enfrentado no final da vida por Derek Jarman – cuja obra foi uma importante referência na formação do cineasta japonês. A convite de Simon Fisher Turner (compositor de vários filmes de Jarman), Makino colide sua experiência passada com a do cineasta inglês, retratada no filme Azul (1994) e em seu estudo sobre a cor, Chroma (1995). A partir de sobreposições de imagens capturadas em seu jardim por meio de câmeras Super 8, 16 mm e 4K, Makino cria gradualmente uma efusão de luzes e cores. Assim como em todos os seus filmes, o movimento na imagem evoca o fluxo de vida em um corpo humano, estabelecendo um paralelo entre micro e macrocosmos.

 

Cena de O retrato da escuridão, de Takashi Makino

 

Outras influências cinematográficas citadas por Mack e Makino incluem os trabalhos do norte-americano Tony Conrad – cujo filme estroboscópico The Flicker (1966) consiste em alternações entre quadros pretos e brancos – e animadores como Oskar Fischinger, Len Lye e Norman McLaren, que desenvolveram métodos lúdicos de representação do som em imagens. O diálogo dos cineastas com seus materiais e referências estende-se às suas relações com o público e com artistas contemporâneos. Além de trabalharem como professores, ajudam jovens artistas a se firmarem no meio – Mack leciona na Faculdade de Dartmouth e fundou o Florida Experimental Film Festival, e Makino leciona na universidade EQZ, na Espanha, e conduz um projeto chamado [+] (Plus), que promove a obra de cineastas experimentais no Japão. Em uma entrevista recente, Makino comentou: “Eu sou um artista, então não consigo me imaginar em qualquer outra posição que não seja ajudando outros artistas. Não importa se eu tivesse nascido em outra vida: isso seria igual, e assim continuaria sendo.”

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