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Longa viagem Itália adentro

16 de janeiro de 2020

Um dos melhores filmes em cartaz não está na “corrida do Oscar”, foi feito há dezessete anos e tem seis horas de duração, divididas em duas partes de três horas cada. Seu nome é A melhor juventude e foi realizado na Itália em 2003 por Marco Tullio Giordana. Por enquanto é possível ver em algumas capitais a primeira parte. A segunda será lançada no próximo dia 23.

 

 

Duas sinopses são possíveis. Uma diria que é a história de dois irmãos romanos que se tornam adultos nos anos 1960 e seguem caminhos distintos na vida. A outra, que é um painel da história italiana nas últimas quatro décadas do século XX. Mais certo é dizer que se trata de uma mistura inextricável das duas coisas.

 

Humanismo italiano

Os irmãos são o extrovertido e empenhado Nicola (Luigi Lo Cascio) e o mais reservado e imprevisível Matteo (Alessio Boni). Um estuda medicina; o outro, literatura. As vidas de ambos têm um ponto de virada quando conhecem a jovem Giorgia (Jasmine Trinca), internada pela família num manicômio que segue métodos medievais. E mais não se pode dizer, sob o risco de entregar descobertas, surpresas e reviravoltas que mantêm o interesse do espectador do primeiro ao último minuto.

Amores, amizades, viagens, luta política, família, perdas, desencontros e reencontros compõem essa narrativa impregnada do humanismo e do impegno civile da melhor tradição do cinema italiano desde o neorrealismo.

Do micro ao macro, acompanhamos os grandes acontecimentos da vida política, social e cultural italiana do período: o fim do milagre econômico e a perda de força dos sindicatos, a catastrófica inundação de Florença em 1966, o terrorismo da década de 1970, a sangrenta luta contra a Máfia, o movimento antimanicomial liderado por Franco Basaglia, a ascensão de Berlusconi, copas do mundo vencidas e perdidas, etc. etc.

Por um lado, A melhor juventude é um painel histórico-social da estirpe de Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, e de Nós que nos amávamos tanto (1974), de Ettore Scola. Seria possível dizer que a história da Itália no século passado se conta nesses três filmes: o de Bertolucci começa em 1900 e vai até o final da Segunda Guerra, o de Scola cobre da Libertação a 1970 e o de Giordana dá conta das últimas quatro décadas dos novecentos.

Sem a exuberância barroca de Bertolucci nem o didatismo engajado de Scola, o filme de Marco Tullio Giordana tem, contudo, outro encanto. Aqui, os personagens não são “tipos”, não “representam” classes sociais ou tendências políticas que os definam de fora para dentro. São, ao contrário, indivíduos vivos, em construção permanente, não meras peças de um xadrez histórico-social, embora estejam inseridos profundamente nesse tabuleiro.

É como se o diretor conseguisse a alquimia de filtrar (ou matizar) a dimensão épica pelo olhar intimista de um Valerio Zurlini, não por acaso sua grande referência de mestre cinematográfico.

 

A história nos rostos

Também por isso, é um filme narrado em grande parte pelos rostos dos principais personagens, a expressar entusiasmo, dor, perplexidade, esperança. Quase todas as sequências são pontuadas por um rosto em primeiro plano, num canto do quadro, enquanto ao fundo se desenrola o drama familiar ou a tragédia social, ou tudo ao mesmo tempo.

Com uma decupagem ao mesmo tempo criativa e objetiva, sem ostentação estilística, e um uso preciso do som (que valoriza os silêncios, os rumores fora do quadro, os inúmeros sotaques e dialetos falados), Giordana conduz o espectador do humor ao espanto, da razão à emoção. E vice-versa, pois as vias são sempre de mão dupla, a história não está escrita na pedra, as vidas seguem abertas a múltiplas possibilidades.

É também, à sua maneira, um canto de amor à Itália, mostrada em suas inúmeras paisagens físicas e humanas, de Turim a Palermo, passando por Roma, Milão, Florença, a Toscana, os Apeninos, fábricas, praias, vulcões, universidades. Sem resvalar para o turístico, há no filme um visível (e contagiante) amor pelo país e seu povo.

Em consonância com as variações de tom do drama, a trilha sonora é eclética, utilizando um tanto vicariamente um tema de Georges Delerue para Jules e Jim ao longo de toda a narrativa, e incluindo de modo sagaz coisas tão díspares como The Animals, Bach, Astor Piazzola, Queen e Cesária Évora, além, claro, de canções românticas, como “A chi” (versão da americana “Hurt”) e “Amado mio”.

Uma última palavra sobre o elenco coeso, muito bem escalado e dirigido. Não há aqui o excesso histriônico que tantas vezes prejudica até mesmo os mais talentosos atores italianos. Mas há, sim, uma qualidade bastante italiana na caracterização dos personagens: nenhum deles, mesmo entre os mais trágicos, é desprovido de humor.

Em tempo: o filme foi produzido pela RAI e exibido na Itália como minissérie de grande sucesso em cinco capítulos. Vencedor da seção Un Certain Regard no festival de Cannes de 2003, conquistou em seguida inúmeros prêmios mundo afora. Só agora chega ao Brasil.

 

Oscar

Para não dizer que esnobamos o Oscar (longe disso, só não gostamos de vê-lo encarado como bolsa de apostas ou corrida de cavalos), comentamos aqui, em momentos distintos, vários dos principais concorrentes, entre eles Democracia em vertigem, Parasita, Dois papas, Coringa, O irlandês, Era uma vez em Hollywood e Dor e glória. Outros virão.

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