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Nova textura do passado

02 de abril de 2018

 

Em nome da América está em cartaz nos cinemas do IMS Paulista e do IMS Rio.

 

Cena do filme

 

O projeto de Em nome da América nasceu há alguns anos, mais exatamente em 2012. Na época, eu tinha escutado relatos de moradores de uma cidade no interior de Pernambuco que davam conta da presença de jovens hippies americanos vivendo entre eles nos anos 1960 e 1970. A história era curiosa para mim, já que ninguém sabia muito bem dizer o que eles faziam aqui. Havia uma série de lendas sobre isso. Algumas engraçadas até, que diziam que Steven Spielberg teria vivido clandestino no sertão para fugir do Vietnã. Outras histórias envolvendo a prospecção de recursos minerais, rumores sobre a presença da CIA etc. O que eu percebi foi uma grande desconfiança em relação aos americanos e, ao mesmo tempo, uma memória afetuosa em torno dessa presença estrangeira, que é algo típico de uma cordialidade das pessoas no interior do Brasil. Então, o que me moveu inicialmente foi essa curiosidade para saber o contexto da vinda dessas pessoas. O projeto inicial partiu desse mito sobre a presença de Steven Spielberg no Nordeste, mas pouco a pouco, quando avancei na pesquisa em torno do tema, percebi que o filme tinha um potencial que ia além dos boatos no sertão e que precisava encontrar uma narrativa mais sóbria para dar conta da complexidade do contexto histórico no qual eu estava metido.

Basicamente, no início dos anos 1960, os americanos acreditaram (ou fingiram acreditar) que o Nordeste brasileiro estava prestes a se tornar uma “nova Cuba”. Havia filmes, reportagens televisivas e impressas… Um importante artigo no New York Times escrito por um correspondente chamado Tad Szulc alardeava uma situação pré-revolucionária no campo em Pernambuco por causa das Ligas Camponesas de Francisco Julião. Esse contexto um tanto histérico coincidiu com uma ação do governo Kennedy que investiu grandes recursos em um projeto para a América Latina chamada Aliança para o Progresso. Em paralelo a isso, Kennedy havia criado uma agência chamada Peace Corps (ou Voluntários da Paz, como ficou conhecida aqui no Brasil), que pretendia enviar jovens norte-americanos para diversos países do mundo para atuar em trabalhos comunitários. Era uma forma de aglutinar um espírito ativista da juventude liberal americana dos anos 1960, que lutava internamente por bandeiras dos direitos civis e que se sentia representada pela figura de Kennedy. Fazia parte também de um grande projeto de construção de uma imagem mundial mais amigável dos EUA e seus cidadãos. Havia uma expressão célebre na época, “the ugly american”, o americano feio, título de uma fotografia feita em Cuba que mostrava um turista americano de cuecas carregando uma garrafa de rum às vésperas da Revolução de 1959. Kennedy se empenhou em mudar esse estereótipo, visando à disputa simbólica que travava na América Latina contra a ameaça comunista. Na virada dos anos 1960 para os anos 1970, a Guerra do Vietnã acabou se tornando um fator que levou parte da juventude norte-americana para o voluntariado civil, o que gerou uma situação bastante confusa: milhares de jovens americanos atuando em países pobres em nome do governo americano. Jovens que pretendiam, justamente, fugir da mais nefasta ação de seu governo na época, que era a presença militar no Vietnã.

Fizemos uma intensa pesquisa em arquivos norte-americanos e brasileiros. Recolhi um material imenso de pessoas e de arquivos. Passei um bom tempo nos Arquivos Nacionais, em Washington, e na Biblioteca JFK, em Boston, assistindo a filmes da época e consultando documentos. Dos materiais mais importantes que trouxemos para o documentário, estão imagens de dois filmes, considerados perdidos, que encontramos em coleções norte-americanas: os documentários Brazil: The Troubled Land, dirigido em 1961 por Helen Rogers para a TV americana, e The Foreigners, realizado por Mark Jonathan Harris em 1968, sobre os Peace Corps na América Latina. O filme de Rogers traz importantes registros, como imagens de Francisco Julião e de figuras controversas, como o padre Melo. Ele foi exibido na TV americana e influenciou a opinião pública e o governo americano da época. É uma clara propaganda anticomunista que procura situar o movimento no campo em Pernambuco como uma ameaça continental. O segundo filme, de Harris, é uma encomenda dos Peace Corps na Colômbia. Por muito tempo, esse filme desapareceu do catálogo da agência, porque o que deveria ser uma propaganda institucional do programa, se tornou, no filme, uma dura autocrítica da presença americana no país. Encontramos ainda imagens feitas pela agência no Brasil, com a atuação dos voluntários em diversas localidades. São imagens coloridas, filmadas em 16 mm e muito bem preservadas. Nada disso existia no Brasil. No caso de The Foreigners, nem o próprio diretor tinha mais o filme, e recuperamos com a sua ajuda uma cópia em 16 mm que estava nos Arquivos Nacionais em Washington. Outro achado que vale destacar são imagens em cores do encontro de João Goulart com John Kennedy nos EUA, realizadas pela Marinha americana em 35 mm e que nunca circularam fora dos arquivos. Eu só conhecia um registro em preto e branco feito pela Agência Nacional[1] e, mesmo assim, tive dificuldades em encontrá-lo no Brasil. É emocionante poder dar visibilidade a essas imagens. Elas nos apresentam uma nova textura do passado. Seu valor não é apenas histórico, mas estético.

[1] A Agência Nacional foi uma agência federal de notícias criada em março de 1937 por Getúlio Vargas, cuja função principal era difundir notícias de interesse público e ações do governo federal. Ela existiu sob esta alcunha até 1979, quando foi substituída pela Empresa Brasileira de Notícias.    

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