O filme O riso e a faca está em cartaz no cinema do IMS Paulista.
Pelo menos desde a novela seminal Coração das trevas (1899), de Joseph Conrad, a África é o lugar onde o branco europeu entra em crise, questionando seus valores morais, sua posição no mundo e às vezes sua própria identidade e sanidade mental.
O cinema sondou esse abismo existencial em filmes como O passageiro – Profissão: repórter (Antonioni, 1975), O céu que nos protege (Bertolucci, 1990) e na melhor parte da filmografia de Claire Denis e Raymond Depardon. A coprodução luso-franco-brasileira O riso e a faca, do português Paulo Pinho, faz parte dessa linhagem. Tem três horas e meia, mas cada minuto da viagem vale a pena.
A história se passa na Guiné-Bissau, onde o jovem engenheiro ambiental português Sérgio (Sérgio Coragem), que trabalha para uma ONG, vai fazer um estudo sobre o impacto de uma nova rodovia para a população local, que depende sobretudo do cultivo do arroz. A empresa que vai construir a estrada é chinesa e seus funcionários são portugueses, brasileiros, italianos, franceses, árabes, guineenses... É nessa Babel que Sérgio terá que se encaixar.
Comunidade alternativa
Em Bissau, a capital, há uma outra comunidade, igualmente multicultural e multiétnica, que se move mais ou menos à margem da sociedade. É um grupo alegre e ruidoso, que aparentemente vive de subempregos, pequenos furtos e tráfico de substâncias lícitas e ilícitas. Nesse grupo alternativo Sérgio vai se encontrar e se perder, explorando meio aos sustos sua própria ambiguidade sexual.
Ambiguidade é a palavra que define as pessoas de quem o protagonista se torna mais íntimo, o brasileiro Gui (Jonathan Guilherme) e a guineense Diára (Cleo Diára). Gui é um negro alto de pele clara (seria chamado de “mulato” em tempos de incorreção política) que se veste de mulher, mas mantém um vistoso bigode. Não é trans, não é travesti, não é drag queen: é o que é. Num diálogo significativo, um guineense retinto lhe diz: “Você é branco como esse tuga [português] aí”. Gui contesta: “Eu sou preto e brasileiro. Ele é o colonizador, e eu o colonizado”. Tudo muda de perspectiva de acordo com quem olha – e de onde olha.
A narrativa de O riso e a faca é episódica, em que cada sequência começa com a ação já em andamento, criando um efeito de surpresa e instabilidade que impede o filme de cair na monotonia e no já-visto. O uso ocasional da câmera na mão acentua a sensação de terreno movediço. Tanto para o protagonista como para o espectador, cada sequência é uma descoberta, uma surpresa, um aprendizado – ou antes, um “desaprendizado”, pois acaba por solapar certezas e abalar crenças estabelecidas.
Descanso na tempestade
Dois diálogos de Sérgio com mulheres guineenses são cruciais nesse sentido: o primeiro, com uma prostituta que o enquadra em sua condição de macho branco europeu; o segundo, com Diára, que desnuda a fragilidade e o paternalismo de suas boas intenções (ou de sua má consciência).
Mas é numa extraordinária cena de sexo a três – que não convém antecipar aqui – que o protagonista é levado a descobrir e explorar seus próprios medos e desejos. Assim como em vários outros momentos, mesmo hesitante, Sérgio se lança. Como na canção de Tom Zé que dá título ao filme (e que é cantada coletivamente a certa altura), ele parece dizer: “Eu só descanso na tempestade,/ só adormeço no furacão”. O título internacional do filme, a propósito, é I only rest in the storm.
Nas últimas sequências, Sérgio se embrenha pelas áreas rurais do país, interagindo com populações nativas que falam línguas diversas (o kriol é uma espécie de língua franca, misturando o português com idiomas e dialetos locais) e vivem à margem da vida urbana moderna. É uma nova viagem, a descoberta de outro mundo, de outro tempo, de outra vida.
Uma última palavra sobre o método de encenação de Pedro Pinho. Godard disse famosamente que o melhor documentário é o que parece ficção e que a melhor ficção é a que parece documentário. Este filme é a prova: tem uma construção dramática precisa, mas simula o frescor e a espontaneidade do registro documental. O diretor diz que montou uma “versão completa”, com duas horas a mais. Seria interessante conhecê-la. Quem sabe algum festival brasileiro tenha a coragem de exibi-la.
