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O carnaval do fim do mundo

23 de abril de 2026

Deve haver no mundo poucas manifestações culturais tão vibrantes e envolventes quanto o carnaval de rua de Olinda e Recife. Quem ainda tiver dúvidas a esse respeito pode tirá-las vendo o documentário O ano em que o frevo não foi para a rua, de Bruno Mazzoco e Mariana Soares, que entra em cartaz nesta quinta-feira em cinemas do Rio e de São Paulo.

O título se refere ao ano de 2021, em que, depois de mais de um século de tradição, as cidades de Recife e Olinda – assim como todo o país – foram privadas de seu carnaval de rua, por conta da pandemia de covid.

Na verdade, foram dois anos os anos de abstinência (2021 e 2022), mas o filme se concentra no primeiro deles e depois no de 2023, quando os blocos, cordões, troças e orquestras voltaram triunfalmente às ruas e ladeiras, numa apoteose catártica.

 

Artífices da folia

Ao contrário das grandes reportagens sobre o carnaval, que observam o espetáculo “de fora”, contando com a muleta de comentadores, “especialistas” e sabichões, aqui esse universo é desvendado “por dentro”, com as palavras e gestos de seus artífices: músicos, cantores, passistas, bonequeiros, porta-estandartes, foliões. É por meio deles que percebemos o sentido profundo do carnaval e de sua inserção orgânica na vida do povo.

Toda a primeira parte do filme – o ano de 2021 – é filmada em preto-e-branco e tem um tom entre o melancólico e o esperançoso (“No ano que vem a gente volta”), alternando os vívidos depoimentos com imagens das ruas e ladeiras quase desertas. Algumas dessas imagens são belíssimas e expressivas ao extremo, como a do Homem da Meia-Noite desfilando solitário sob a chuva noturna em Olinda, essa cidade tão plena de história e beleza.

Ficamos conhecendo então as entranhas de um carnaval ao mesmo tempo grandioso e caseiro, que extravasa dos dias de festa para o cotidiano e o imaginário de recifenses e olindenses. Todos têm alguma história (ou muitas) para contar sobre os grandes personagens dessa mitologia: o Galo da Madrugada, o Homem da Meia-Noite, a Mulher do Dia, o Velho do Cariri (que desfila montado num jegue), o Menino da Tarde...

E não é só o frevo, claro. Há também o maracatu, o caboclinho, o samba etc. Mas o frevo é uma espécie de ápice dionisíaco, uma expressão de alegria física indomada. Atrás do seu ritmo contagiante só não vai quem já morreu, como cantou Caetano Veloso num frevo célebre.

 

Vocação para a mistura

Um dos temas mais interessantes explorados pelo filme é o caráter de sincretismo cultural e religioso da festa. Quem aborda muito bem o fenômeno é o padre André Canuto, que divide seus afazeres na paróquia com os de diretor de Preservação e Memória do Cariri Olindense: “A estrutura das procissões, no fundo, é a mesma dos cortejos carnavalescos. Os que carregam os andores dos santos também carregam os estandartes”.

Essa vocação para a mistura, para a inclusão, é uma das características mais marcantes do carnaval pernambucano, em que músicos, passistas e foliões se amalgamam, sem cordões de isolamento, sem separação entre palco e arquibancada, num organismo único, pulsante e plural. Atestando o pendor para a carnavalização de tudo, um dos bonecos mais populares de Olinda é o de John Travolta, criado em 1979.

O documentário consegue captar, a meu ver, a força e a singularidade desse fenômeno. Suas últimas imagens são expressivas. Depois de tudo, na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, quatro ou cinco músicos do “Orquestrão” caminham trôpegos, exauridos e extasiados, pelas ruas desertas do Recife antigo. Há ali um ar de missão cumprida: o carnaval recife-olindense resistiu bravamente à pandemia de covid, agravada pela estupidez abissal do governo Bolsonaro.

Quem não se interessa pela cultura popular brasileira está dispensado.