De um cineasta como Jim Jarmusch, que já nos deu tantas belezas e surpresas, espera-se sempre mais, o que às vezes causa uma certa frustração nos críticos mais afoitos e nos cinéfilos mais ansiosos. Com seu novo filme, Pai mãe irmã irmão, ganhador controverso do Leão de Ouro do festival de Veneza, a história se repete.
Trata-se, porém, de um “legítimo Jarmusch”, isto é, de uma obra em que estão presentes várias das características que fazem dele um criador singular. A começar pelo puro prazer do lúdico, das rimas internas, dos jogos que a todo momento nos lembram que não estamos diante da “vida como ela é”, mas de uma criação do espírito e da imaginação.
Retratos de momento, tempo contínuo
Pai mãe irmã irmão abarca três histórias autônomas em que os quatro elementos do título são conjugados em diferentes equações. No primeiro segmento, “Pai”, dois irmãos na faixa dos quarenta anos (Adam Driver e Mayim Bialik), vão visitar o pai (Tom Waits) que vive recluso num velho chalé, nas proximidades de Nova Jersey. A segunda parte, “Mãe”, ambientada em Dublin, traz duas irmãs de personalidades opostas (Cate Blanchet e Vicky Krieps) em visita à mãe (Charlotte Rampling), uma autora de best-sellers aparentemente eróticos. E no último episódio, “Irmã Irmão”, dois jovens irmãos negros (Indya Moore e Luka Sabat) lidam juntos em Paris com o espólio – material e afetivo – dos pais mortos num acidente aéreo.
São, nos três casos, retratos de momento, que quase simulam o tempo real, contínuo, como acontece em vários dos filmes de Jarmusch. Ali estão a sutileza dos olhares, o peso do silêncio, dos tempos dilatados, do eventual constrangimento, da dificuldade de entendimento entre os personagens. Está presente também outra característica habitual do diretor, a observação de detalhes minúsculos: uma torneira que pinga sem parar, uma colcha cobrindo (ou escondendo) um sofá, um motor de carro empoeirado, um portão que é deixado aberto ou fechado.
Nessa atenção ao instante (“imagem-tempo”, para usar meio selvagemente a definição de Gilles Deleuze), Jarmusch se distancia do “imagem-movimento” da produção mainstream, em que cada plano é colocado a serviço do progresso da narração, sem manter um valor expressivo em si mesmo. Aproxima-se, assim, de um certo olhar oriental, cuja matriz principal talvez seja Yasujiro Ozu. Essa aproximação de Jarmusch com uma perspectiva poética oriental, de buscar o transcendente no imanente, como no haicai, ficou mais evidente em Paterson (2016), mas está presente desde seus primeiros filmes, embora quase sempre disfarçada sob o humor e a ironia.
Humor e ironia
O humor e a ironia aliviam a gravidade dos temas, introduzem uma leveza, uma sem-cerimônia que é outra das características do cineasta. No fundo, tudo é encenação, jogo, brincadeira. Em Pai mãe irmã irmão essa ideia se manifesta nas rimas internas mencionadas acima.
Nas três histórias há um relógio Rolex que pode ou não ser falso; nas três entram de repente na via pública jovens realizando manobras de skate; nas três usa-se jocosamente, com sentidos distintos, a expressão inglesa and Bob’s your uncle (“e pronto”, “é isso”, “ponto final”); nas duas primeiras há uma coincidência casual de cores nas roupas dos personagens. Há conexões mais sutis, essencialmente visuais, como o avançar do automóvel dos protagonistas por ruas estreitas de Dublin e de Paris, ou o enquadramento em câmera alta de uma mesa posta com xícaras de chá ou de café.
A despeito da aposta no lúdico, não são brincadeiras vazias, ou meros exercícios de estilo: são elementos que ajudam a criar atmosferas e que iluminam a questão central, qual seja, a relação muitas vezes espinhosa e muda entre filhos, pais, irmãos. Isso não invalida a diversão, as piscadelas de olho entre o cineasta e seus espectadores.
Pensando nessa perspectiva, é possível até suspeitar de uma piada interna de Jarmusch com o nome de seu ator Adam Driver, que em Paterson era um motorista de ônibus e que em Pai mãe irmã irmão surge em cena ao volante de um automóvel. Pode ser uma viagem minha, mas o papel do espectador ativo é esse mesmo: viajar.
Um lirismo divertido, um jeito de repudiar a sisudez sem deixar de ser sério, uma poesia do prosaico – é isso que faz de Jim Jarmusch um artista único, ao mesmo tempo antiamericano e profundamente americano, e de seu novo filme um programa encantador. E neste caso com um time excepcional de atrizes e atores de três gerações.
