A Sessão INDETERMINAÇÕES: Ruínas de sangue está em cartaz no cinema do IMS Paulista em setembro
Um vigilante noturno percebe ter cometido um crime. À luz do dia, a tragédia fica exposta no jardim de um casarão colonial. O corpo de uma mulher branca sangra, enquanto a banda sonora ainda reverbera o urro de um homem negro com o olhar carregado de desespero. Intrusiva, a força sorrateira que habita a arquitetura faz ver outro sangue: aquele herdado das paredes, dos artefatos barrocos e, como não, das hierarquias de poder. De um passado delirante, pois vívido, de sombras impregnadas por todos os lugares.
Tal energia possessiva presente no longa-metragem O anjo da noite (Walter Hugo Khouri, 1974) compõe a imaginação de RUÍNAS DE SANGUE. No programa, caminhamos por um conjunto de curtas-metragens, realizados entre as décadas de 1970 e 2020, a fim de investigar formas de habitação, rasura e cocriação de espaços instaurados, construídos e marcados pela colonialidade.
A persistência na espacialidade, não só como estrutura de algo, mas em figurações, significações e modos de ocupação, nos direcionou a obras em que as superfícies coloniais passam a ser esgarçadas, remexidas, preenchidas, deslocadas e remodeladas a partir do contato entre as diferentes imagens e experimentações sonoras. Instaura-se, por assim dizer, um jogo contínuo de luz e sombra, em que trauma, cura, esquecimento, rememoração, erotismo e violência deformam o cotidiano e renegociam as interpretações sobre um país edificado sob contínuo sangue.
O olho na rua e o ouvido na cozinha (Joélia Santos, Luis “Lula” Lourenço, Mª Helena Rabadan, Flora Lamour, Fernanda Cursino, PV Zé e Lena, 1978) nos convida a um exercício de abertura da nossa sensibilidade. O ritmo lento e as mudanças de perspectiva da câmera nos fazem adentrar em uma casa fincada no Alto do Moura, município de Caruaru, localizado no Agreste pernambucano. Livremente inspirado num conto homônimo de Hermilo Borba Filho, o curta-metragem abriga uma fantasmagoria singular, herdada do solo, e o lirismo de uma certa tradição cinematográfica, com tons maurianos.
Morde & assopra (Stanley Albano, 2020) pode ser um deboche, uma revanche ou uma retomada – ou tudo ao mesmo tempo. Do interior do casarão em que o avô trabalhou, a bicha preta que desejava o ócio criativo e um encontro consigo mesma, uma rehab descrita como “programa de redução de danos da burguesia”, acaba sendo banhada de dúvidas, obrigada a lidar com a lembrança latente de uma reparação histórica que nunca chega.
Se a restituição pode vir como maldição no curta de Albano, a reforma estrutural da Igreja dos Reis Magos, no filme de Orlando Bomfim Netto, Dos Reis Magos dos Tupiniquins (1985), é estranhamente desmontada, rasurada e questionada pela vivacidade dos movimentos culturais populares de Vila de Nova Almeida, no Espírito Santo. O som inquieto de um país, em pleno processo de redemocratização, também perturba o projeto de restauração do empreendimento colonial.
Por outro lado, as imagens dos letreiros e fachadas de um bairro da zona norte do Recife nos conduzem, em Casa Forte (Rodrigo Almeida, 2013), a um relato falsamente banal. A cada nova palavra, a experiência de refletir sobre o próprio prazer cria uma massa estranha de sentimentos: da ingenuidade ao escárnio, do tesão à ternura, da vingança à fossa. Enquanto as ruínas de um casarão colonial e um abraço inconciliável dão forma aos fantasmas de um relacionamento, a casa da protagonista de Dona Beatriz Ñsîmba Vita (Catapreta, 2024) funciona como laboratório para a replicação de uma vida possível diante da iminência do fim, do início e do recomeço. Na animação, ambientada em uma Belo Horizonte distópica, observamos, quase que sensorialmente, o cumprimento de uma missão sagrada incumbida a uma mulher. Entre braços, pernas, vísceras e sangue, ela garante o princípio de continuidade. Multiplica-se. E projeta a destruição como possibilidade.
A sessão conta com o comentário crítico do curador e pesquisador Heitor Augusto, que participa de uma conversa com o público mediada pelos cofundadores da plataforma INDETERMINAÇÕES. A vinheta é assinada pelo cineasta e escritor alagoano Lucas Litrento. Já o ensaio “Já era, já é: o desejo pela casa ainda é grande”, da artista da dança e escritora Alana Falcão, mergulha nas reminiscências onipresentes do trauma histórico, não para negá-las ou reprimi-las, mas para tateá-las e encará-las como combustível e fertilizante na criação cinematográfica, do mundo. Nesta edição, o sangue, elemento vermelho, quente, assombroso, retorna, derrama-se e torna-se, por assim dizer, substância de reinvenção.

Lorenna Rocha é historiadora, crítica e programadora de mostras e festivais de cinema. Mestre em Comunicação (UFPE). Cofundadora da Plataforma INDETERMINAÇÕES. Editora-chefe da revista câmarescura. Fez parte da curadoria de festivais como Janela Internacional de Cinema do Recife e FestCurtasBH. Desde 2024, integra a equipe de programação de curtas da Mostra de Cinema de Tiradentes.
Gabriel Araújo é jornalista graduado em Comunicação Social pela UFMG e atua como crítico e programador de cinema, com passagem por mostras e festivais como FestCurtasBH, forumdoc.bh e LONA. É cofundador da plataforma INDETERMINAÇÕES e do Cineclube Mocambo, e correspondente da Folha de S.Paulo em BH.
