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Contraste

Maíra Oliveira (RJ)

Escritora, dramaturga e roteirista. Coautora de Vértice: escritas negras (Ed. Malê), Favela em mim (Ed Oriki) e Narrativas negras (Ed.Voo). Assina a dramaturgia dos espetáculos teatrais Yabá: mulheres negras e Duas Fridas. Educadora pela UERJ, contadora de histórias e coordenadora do Grupo Ujima – Contadores de Histórias Negras e Literatura Infantojuvenil. Atualmente é autora roteirista da Rede Globo, além de colaborar no desenvolvimento de longa-metragem para Amazon Prime.

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(Foto de Diana Mejido)

Expressando o sentimento

A saudade é um sentimento que faz parte da vida de adultos e crianças, e se em alguns momentos nos incomoda - ao trazer consigo sentimentos doloridos, como angústia e tristeza -, em outros faz bem, pois nos lembra do que vivemos de bom, de quem amamos... É comum tentarmos mascarar esse sentimento por não sabermos lidar muito bem com ele, mas quando estamos como cuidadores de crianças é preciso compreender que a expressão de tais sentimentos são importantes, e suprimi-los afeta o desenvolvimento sociobiopolítico dos pequenos. Expressar a saudade de formas diversas faz parte do processo de assimilação da mensagem “é normal que pessoas que se amam fiquem distantes por um tempo e tá tudo bem!”, principalmente quando o contexto demanda o isolamento social como única forma segura de protegermos a nós mesmos e aos outros, tendo impacto ainda maior nas relações com nossos mais velhos.

Partindo do convite para integrar e criar um projeto para segunda edição do IMS Convida - em diálogo com os artistas participantes da primeira chamada -, mas principalmente para contribuir com o entendimento e sensibilização deste sentimento tão profundo quanto belo, que é a saudade, elaboramos o livro Que saudade da minha vó, em diálogo com a intervenção do artista MULAMBÖ (RJ).

"Saudade que quebra tanto a gente é também o que nos faz ter força pra passar por isso. Porque ao mesmo tempo que ficamos pra baixo lembrando das coisas, são essas mesmas coisas que nos fazem seguir” - MULAMBÖ

MULAMBÖ é multiartista que se divide entre as cidades de Saquarema e São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Suas obras expressam através de materiais do cotidiano como papelão, tijolo etc a força e a beleza da(s) existência(s) periférica(s). De maneira ainda mais tocante carrega os laços do nascido João, crescido MULAMBÖ, filho, padrinho e neto da Vovó Carlota. Na primeira edição do IMS Convida, MULAMBÖ nos presenteou com uma mostra daquilo de que mais sente falta, e que ao mesmo tempo o permite seguir.

E assim como MULAMBÖ faz com sua arte, procuramos com o livro Que saudade da minha vó! encurtar distâncias entre quem somos (pais, mães, filhos, netos…) e nosso fazer artístico para afirmar que “não tem museu no mundo como a casa da nossa vó”, ainda que essa casa seja o Orun e o Aiye inteiros.

No livro, "saudade", esse substantivo abstrato que exprime o sentimento universal - de definição existente apenas na língua portuguesa -, materializa-se em gestos de afeto da Vó com seu netinho, que habitam a memória do menino. Dando nomes e formas a saudade que explodem nos desenhos dele. Com uma linguagem poética, a leitura revela como este sentimento aparece e como pode incomodar até os adultos.

Com o intuito de contribuir para cuidadores e educadores - que nesse contexto de pandemia têm sido verdadeiros heróis ao seguir descobrindo nosso processos educacionais -, o livro Que saudade da minha vó! é um recurso pedagógico que possibilita o trabalho dos seis direitos de aprendizagem presentes na Base Nacional Comum Curricular da Educação Infantil: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Para que cada pequeno leitor, como sujeito dialógico, criativo e sensível, possa expressar suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas e opiniões sobre esse momento, a partir da leitura do livro. Ainda nesse sentindo, duas atividades são propostas em formato para download/impressão. Que tal marcar uma ligação com avó ou avô para ouvir essa história?

Boa leitura!

Publicado em 2/10/20

Mais sobre o Programa Convida
Artistas e coletivos convidados pelo IMS desenvolvem projetos durante a quarentena. Conheça os participantes:

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