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Jenyffer Nascimento

Poeta e escritora, atua na articulação de redes de mulheres negras e periféricas e está ligada ao movimento cultural e social das periferias de São Paulo há 15 anos. É autora do livro de poesia Terra Fértil, publicado pela Editora MJIBA.

Ângela

sentir o azul. capturar o som do azul. absorver suas partículas. dançava e sorria em tom anil. cantava como se a vibração azulada do seu timbre tocasse o céu. puramente blues. no instante em que descobriu o azul, o mundo não parou. ela, completamente. estado de excitação permanente − incorporar o azul − em arte, em vida. fosse o amarelo, acontecesse diferente.

Do lado de cá das fronteiras invisíveis, a expansão do metrô encurtou as distâncias, mas não o suficiente para chegar até o mar. Lamentável não ir ao encontro do mais profundo azul. Seguimos por outra linha, embarcando no incômodo de Berenice, que nunca fora tão grande, ou quase.

Sendo seu primeiro emprego, ia de ônibus para o trabalho e exercitava a sensibilidade gingando na imensidão dos poros acinzentados da cidade, peles pálidas, luzes avermelhadas e tão pouco azul. Devorou tudo ao seu redor com a fome do mundo que tinha. Engoliu e vomitou os signos da violência impregnados na paisagem cosmopolita até onde pôde alcançar, mas algo ficou entalado em seus pensamentos, como espinha de peixe.

Todo dia, descia no mesmo ponto de ônibus para ir à faculdade e deparava-se com o incômodo monumento de treze metros de altura, com cara de otário e arma na mão, sadicamente irônico de cinto e botas, aterrorizando os transeuntes que andavam rápido pelas calçadas da av. Santa Mara. Para Berê era um tortura contínua lidar com aquela estátua, a materialização da barbárie, do colonialismo, do genocídio do seu povo. Encontrar a dor do azul, escorrendo em vermelho.

Perdia horas pensando “como podiam as pessoas se acostumar”? Será que entendiam? Berenice tinha a soberba e a vivacidade da juventude. Ainda assim, entendia que ver, notar, indignar-se era privilégio de parte da sua geração, que dispunha de casa, comida, roupa lavada, acesso a emprego, estudo e pertencimento racial. [Levaria algum tempo ainda para que entendesse que se revoltar não é privilégio, é sobretudo a falta de. Faltava-lhe ouvir os nego veio, a velha guarda, porém, cada geração tem seu devir histórico, é preciso respeitar as escolhas da personagem].

A indignação de Berê foi crescendo e o sentimento de raiva era insuficiente para definir o sentimento que se avolumava em seu peito-bomba. Tão destemida e corajosa. Assim, como tudo que começa de repente e arde, deu início a pesquisas, registros, leituras, consultas, encontros, ligações clandestinas, montando táticas e estratégias para execução de seu planejamento de ver Barba Loira, aquele homenzarrão decadente, assassino e antiquado, no chão.

a vela da reza da velha acaba, mas não apaga. a velha nunca dorme. tem que enxergar além do que se vê. eu vi uma menina preta, mochila nas costas, livro na mão, coração batendo, olhar atento. era amanhã e hoje ainda vai ser. a vela branca, a preta velha, a menina continuação

Pega na curva da imprevisibilidade, Berenice titubeou, não por covardia; seria arriscado demais agir na emoção. Aviso da cabocla velha da casa de Mãe Biu que mandou o recado. Para bom entendedor, meio pingo é letra inteira. A ideia de ser detida a aterrorizava. Já tinha ouvido muitas histórias de cadeia no bairro onde morava, não queria cair nesse abismo, teria que abandonar a missão.

No caminho de volta para casa, chorou longamente.
Para ser blues, é preciso entender que o azul tem nuances inesperadas.

***

A loucura silenciosa de Berenice precisava de vazão. Já tinha superado a frustração do último episódio e tinha certeza de que um dia os heroicos monumentos viriam ao chão, nem que fosse por um abalo sísmico vindo do fundo da terra. Sua inquietação agora era outra.

Não conseguia parar de pensar em Ângela.
No tom marrom escuro de sua pele, nos seus cabelos crespos presos com grampos, envoltos no lenço amarrado. Ângela não parava de trabalhar, quase nunca estava em casa. Mas onde era sua casa, senão em todo lugar? Aos sábados soltava os cabelos longos quando ia aos festejos. Ângela tão viva, mãos construtoras, pariu ou adotou todos esses filhos? Ângela gostava de pirão de peixe e cerveja. Como será que veio parar aqui? Quem pariu Ângela? Nome de menina moça e alma de velha. Carregava tantas vidas. Não teve tempo de chorar todos os seus mortos. Terra come, terra dá. Uniu famílias, bairros, culturas, povos. Ângela, deixa eu cuidar de você? Posso? Sozinha é mais difícil. Tantos filhos pretos, pequena África nesta cidade segregada.

Herança indígena. Ângela das velhas rezadeiras, macumbeiras, feiticeiras, curandeiras, beatas de terço na mão e irmãs de glórias e aleluias, que fé aqui nunca faltou. Ângela, seus filhos abandonados, esquecidos, não vou julgar. Agradecer por ter parido o futuro, de onde brotam amanhãs. As coisas estão mudando e você também, Ângela. Quantas você foi? Quantas ainda é? Quanto tempo ainda se demora?

no rastro da memória, um mosaico. refazimento. cautela. o tempo linear não pode importar mais que o tempo cíclico. de quando aprendeu a ler poemas, tirar cartas com a cigana, a bordar e a cantar. sobraram retalhos de cetim.

Não conseguia parar de pensar em Ângela. Era quase um chamado espiritual. Precisava expressar a grandeza, a riqueza e também as dores e contradições materializadas na figura mulher capaz de representar tudo isso simbolicamente. Mas como? Se os signos da cidade a violentavam tanto, Berê precisava criar algo que fosse lúdico, artístico, político e que passasse a mensagem. Mas também desejava que fosse exuberante, impactante e grandioso!

Responder ao desafio de conectar o ontem, o hoje e o amanhã. Tinha que convocar sua comunidade, ouvir as pessoas, colher o máximo de ideias e apoio que pudesse. Não tinha tempo a perder e precisava começar pra ontem!

***
Ângela não virou monumento, Ângela virou movimento. Espalhou-se.

“O metrô encurtou as distâncias, mas ainda não chegou no jd. Ângela.
Um dia nos roubaram a história, a memória, o direito à vida. Amanhecemos porque em nosso horizonte o céu é ainda mais azul. A arte de existir para inventar a arte de reinventar a vida.” (Berenice)

derrubaram tudo. só sobrou ruína. inesquecível, recomeçar para que entendam que o futuro é preto.
celebrar o incômodo de Berenice, e a revolta de todas as Marias.
Há manhãs.

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Ilustração de Silvana Martins
A vela da reza da velha. Foto de Uberê Guelé.

Publicado em 26/11/20

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