Todo pesquisador tem suas preferências, inclusive, ou melhor, sobretudo, aquele responsável por organizar o arquivo ou a biblioteca de alguém. Tais preferências não implicam falta de interesse pelos outros itens do acervo, mas um olhar especial para os que suscitam tais paixões, seja a afinidade ou a repulsa.
Isso aconteceu quando, ao trabalhar na biblioteca de Décio Pignatari, recém-chegada ao IMS, encontrei um exemplar da primeira edição de O balanço da bossa, de 1968, com uma sobrecapa atualmente rara e fora de circulação editorial. Esse livro é um fio vermelho que acompanha, ora em concordância, ora em discordância, toda a minha trajetória como pesquisador da cultura brasileira. Deixei as demais obras da biblioteca de Décio em banho-maria e me dediquei a folhear o exemplar em busca de pistas ou do que mais pudesse surgir.
A primeira coisa que me saltou aos olhos foi um apenso logo na primeira página, convidando para o lançamento das primeiras obras da coleção “Debates”. Na ocasião seriam apresentados os volumes A personagem de ficção, Informação, linguagem e comunicação, de autoria de Décio Pignatari, e o próprio O balanço da bossa. Ao fim do convite, a enumeração dos convidados para o lançamento é curiosa, estilizada sem espaços e toda em minúscula: “décio pignatari augusto de campos anatol rosenfeld, e tantos quantos queiram participar inclusive você”.
O balanço da bossa foi um livro pioneiro ao propor teses como a do tropicalismo como um “passo adiante” em relação ao fenômeno da bossa nova, além de compreender a figura de Roberto Carlos a partir da de João Gilberto, entre outros postulados que mantêm o vigor da polêmica, questão cara a Augusto de Campos, seu organizador, até os dias de hoje.
Independentemente da validade de seus pontos de vista, o livro permanece como um ponto chave para a interpretação do notável momento musical vivido pelo Brasil, que passa pela bossa nova, por João Gilberto, Roberto Carlos e pelos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, personagens do livro.
Só que tudo isso já era conhecido. Além disso, o exemplar que chegou à biblioteca não possui nenhuma anotação, grifo, marginália ou marcas de leitura propriamente ditas. Apenas uma dedicatória de Augusto de Campos ao detentor do livro, Décio Pignatari, criador da sobrecapa que acompanhou a primeira edição.
Tudo em minúsculas, lê-se: “ao décio, com a nossa supercontracapa rádiopsicografada e o abraço do Augusto. presente de agosto 1968”. A novidade tão procurada surgia, assim, gêmea de uma lacuna habitual aos arquivos: afinal, o que o autor concretista dos poemas verbivocovisuais quis dizer com “rádiopsicografada”?
O livro faz parte de uma coleção da editora paulista Perspectiva, intitulada “Debates”. Todos os volumes possuem o mesmo projeto gráfico de capa: uma cor que indica a área temática do livro (música, cinema, filosofia, ciência etc.), com a palavra “debates” repetida três vezes no alto e o título do livro ao pé da capa, junto à marca da editora.
Contudo, a primeira edição de O balanço da bossa vinha envolvida em uma sobrecapa branca com uma imagem em close de João Gilberto e outra de Caetano Veloso desdobrada em três; com o título no alto, o subtítulo “antologia crítica da moderna música popular brasileira” e o nome do organizador, tudo em minúsculas. A impressão semiótica é a de que João Gilberto está olhando para seu discípulo. Mas deixemos a semiologia de lado e voltemos à metafísica: o que Augusto de Campos quis dizer com “rádiopsicografada” ao tratar da feitura dessa sobrecapa?
Quando tratamos de arquivos de pessoas falecidas, as dúvidas se amontoam pelo simples fato de não termos a quem recorrer quando surgem. Seus contemporâneos em geral também já se foram. Só que felizmente este não é o caso: Augusto de Campos goza de plena saúde aos 95 anos. Como bom pesquisador, fui direto à fonte. Perguntei ao poeta concretista qual a história por trás da dedicatória.
Com a palavra, Augusto de Campos:
“A minha dedicatória diz respeito a uma ocorrência muito significativa para mim, um evento jungsincrônico. Antes de viajar para os EUA, eu tinha pedido ao Décio para me ajudar na feitura da capa do BALANÇO DA BOSSA. Eu tinha uma imagem em close do João que ocupava uma página inteira da revista O CRUZEIRO. E outra, do Caetano, sentado no palco numa apresentação de Alegria Alegria. E queria combiná-las numa montagem. O Décio sugeriu que colocasse as imagens em perspectiva, com inversão na 4a capa. Quando visitei João em NY, ele, no próprio telefone, ao ouvir que eu trazia uns cassetes com músicas de Caetano e Gil, disse, desde logo, num repente, a propósito de Caetano: DIGA QUE EU VOU FICAR OLHANDO PARA ELE. Uma frase muito invulgar para uma saudação, mas que correspondia perfeitamente à capa que já tínhamos feito. Quando eu voltei, foi só pedir para colocarem a ‘legenda’ de João junto à capa. Daí eu ter falado em ‘psicografia’...”.
O mistério foi revelado. E a metafísica imperou mais uma vez: João Gilberto intuiu o que a dupla Augusto-Décio já estava preparada para fazer. A capa ficou do jeito que os quatro queriam, mas apenas os dois poetas sabiam. A arte tem esses momentos.
Um dos prazeres do arquivo está em ajudar a recontar os bastidores de momentos incontáveis. Augusto de Campos, ao fim do e-mail com a resposta acima, diz que, anos depois, Décio faria um Oswald psicografado e ele, Augusto, faria um Décio psicografado. Aí já é outra história, mas sabemos para onde vamos olhar quando ela surgir.

Sociólogo e mestrando em Literatura na UFRJ, Danilo Bresciani integra a área de Literatura do IMS. É editor do Correio IMS e pesquisador do Portal da Crônica Brasileira.
