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A pasta azul de Ana C.

02 de junho de 2026

Dentro de uma pasta azul estão as aulas que Ana Cristina Cesar não pôde dar. Intitulado “Leitura de Poesia Moderna Traduzida”, o curso estava programado para acontecer na PUC-Rio, de 18 de agosto a 24 de novembro de 1983. Durante quinze quintas-feiras, Ana teria compromisso em sala de aula.

A capa da pasta se impõe como um mapa mental. Com diferentes tipos de canetas, há orientações, datas, desenhos dispostos simultaneamente, puro caos e premência: “decisões”, “tomar o título do curso”, “XEROX, XEROX, XEROX”. “2ª 20/6”. “todo poeta escreve sua ars poetica”. “Otto”. “Paulo Mendes Campos”. “poemas de Emily Dickinson”. Uma lista de poetas. Outra lista de tradutores. “Baudelaire acha em Poe o protótipo do poeta maldito”. Série de estrelas a lápis na lateral. “Que nem a sua”.

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Pasta azul aberta, lá estão cerca de 117 folhas relacionadas ao curso de extensão por Ana C. organizado, mas jamais levado a cabo. Em um bloco de folhas A4, ela rascunha o conteúdo que ocuparia os meses de agosto, setembro, outubro e novembro. No primeiro encontro, 18 de agosto, havia previsto a seguinte ordem: “apresentação geral. bibliografia. programa. minha experiência. propor traduções feitas por eles.  saber línguas que eles falam. Pequeno poema: Whitman – original, Geir Campos e Oswaldino Marques”. Na aula seguinte, avançaria com a leitura de poemas de Maiakovski, depois T.S.Eliot, passando por Wallace Stevens e finalizando com Charles Baudelaire.

A maior parte da bibliografia teórica selecionada por Ana C. havia sido lançada naquele mesmo ano de 1983 ou nos três anteriores, e incluía nomes como Paulo Rónai, Ivan Junqueira, Mário Faustino e Paulo Henriques Britto, passando pelos, na época, seus contemporâneos e hoje já canônicos José Paulo Paes, Aurélio Buarque de Hollanda e Augusto de Campos.

O material bibliográfico tinha o mesmo frescor da mulher de pouco mais de 30 anos que voltara da Inglaterra há alguns meses, onde concluiu o mestrado em Theory and Practice of Literary Translation – “with distinction”. Como trabalho final, Ana apresentou uma tradução anotada do conto “Bliss”, de Katherine Mansfield, e agora retornava com a mala cheia de teorias, práticas e vontade. No curriculum vitae que, obrigatoriamente, teve  de apresentar à CCE, pulsam listas com traduções, artigos, atividades editoriais e de pesquisa, além de passagens em colégios e cursos como professora. A sala de aula não seria exatamente sua primeira vez; uma sala de aula universitária, talvez sim.

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Ana se prepara para o curso. Estuda em profundidade a matéria que propôs, estrutura o que lê e o que pensa por escrito – daí o empilhamento confuso na capa da pasta azul. Faz não poucas folhas com esquemas argumentativos e roteiros textuais. O curso aparece até em um poema de 13 de junho de 1983: “Estou preparando o curso de tradução e Pound/Faz censuras. (...)”.

Ao comparar os trabalhos de tradução de Manuel Bandeira e Augusto de Campos, por exemplo, ela pergunta: “o que essas duas práticas diversas de tradução revelam sobre a questão geral da tradução de poesia”? De Las peras del olmo, de Octavio Paz, destaca dois tipos de poesia possíveis: as de “derramamento da forma”; as de “concisão e rigor”. Segundo suas anotações, o curso irá ancorar-se em três pontos: 1. “o literário em questão”; 2. a “dicção” (verso nobre, oralização e coloquialismos); 3. “os tipos de poesia (melopeia, fanopeia, logopeia)”.

No entanto, toda essa bem estruturada e robusta compreensão das possibilidades tradutórias foi simplificada. “Reduce the scope and the number of problems”, diz uma das anotações na parte de dentro da pasta azul. O núcleo de sua proposta pedagógica se encontra no próprio título do curso, como espécie de palavras-chaves: leitura, poesia, tradução, moderna. E é com este quarteto de conceitos que Ana construirá uma potente cadeia de pensamento, desconhecendo, naquele momento, que não haverá curso algum.

“Leitura, ler junto com atenção especial”, registra. “Poesia, o que é poesia, que tipo de discurso? Traduzida, o que é tradução, opções de quem traduziu, conceitos. Moderna, as definições de modernidade (como uma ruptura constante, como antimodernidade)”. Irmãos Campos, Pound, Paz.

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Ana professora esclarece: “não é um curso técnico, centrado no confronto entre original e a tradução para checar a 'correção' e a 'fidelidade' do tradutor", mas é, sobretudo, para discutir os tipos de leituras realizados no trabalho de tradução no contexto cultural brasileiro. “Traduzir poesia é um trabalho de leitura”, afirma ela, que faz o que diz, lê, relê e anota abundantemente as páginas de poemas xerocados, fazendo marcações a lápis, farejando o que soa mal no verso, evidenciando aspectos mais teóricos aqui e ali.

A intenção generosa da professora fica expressa ao definir seu público-alvo. Embora admita estudantes das áreas que, provavelmente, se interessariam (Letras, Comunicação, Filosofia, Artes), os certificados e diplomas poderiam continuar na gaveta, porque os pré-requisitos principais estavam em torno de dois verbos: ler e desejar. Diz: “é para aqueles que leem poesia e desejam participar dessa discussão”.

A estrutura estava toda montada. A parte burocrática, pronta.

Em 29 de julho e 3 de agosto – isto é, vinte e quinze dias antes do que seria o início das aulas – foi divulgado no Jornal do Brasil o curso com a Profª Ana Cristina Cesar. Depois desses dois tijolinhos, a próxima notícia que o periódico veiculará sobre Ana C. será a do seu sepultamento, em 30 de outubro, às 17h, no São João Batista.

“Leitura de Poesia Moderna Traduzida” não aconteceu. Por ser uma formação autofinanciada, o curso só poderia começar com a inscrição de, no mínimo, 12 alunos. Em 18 de agosto, data daquela que seria a primeira aula, Ana C. não foi à PUC. Não houve “traduções feitas por eles. saber línguas que eles falam”. Ana não apresentou o “programa”, a bibliografia, nem partilhou sua experiência.

Poucos dias antes da sua morte, em 16 de outubro, ACC registra: “joguei fora algumas coisas já escritas porque não é o testemunho que eu queria deixar”. Se a pasta azul, com um organizado e robusto curso de leitura de poesia moderna traduzida, sobreviveu à limpeza final, talvez seja porque esse é um dos testemunhos que ela quis deixar e que, agora, retiro do acervo para, quem sabe, ainda ser realizado. Certamente eu me inscreveria no curso que Ana Cristina não deu.

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Elizama Almeida, doutora em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra, trabalha na área de Literatura do Instituto Moreira Salles.