
Em 1960, a publicação de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, foi um momento marcante na literatura brasileira: pela primeira vez uma mulher negra, com menos de dois anos de escolaridade formal, mãe solteira de três filhos, moradora de uma favela em situação de extrema pobreza, tinha acesso aos círculos da elite literária do país. Isso porque a repercussão do lançamento do livro foi enorme e as vendas atingiram patamares altíssimos, jamais sonhados pelos escritores mais bem sucedidos da época.
Uma matéria jornalística assinada por Audálio Dantas no jornal Folha de S. Paulo contribuiu para dar a conhecer ao mundo a vida sacrificada de parte da população da cidade e, mais importante, a existência ali de uma pessoa capaz de descrevê-la com acuidade e espírito crítico. A matéria caiu como uma bomba. Se Carolina era uma desconhecida para o grande público, nas redações de diversos jornais já se tinha notícia de sua atividade de escritora. Consciente de sua importância e de sua escrita, ela costumava visitar as redações de jornais e ali deixar parte de seus escritos. Sabia onde queria chegar e via no trabalho árduo e nas privações uma etapa a ser vencida. Chegou lá: a tradicional Francisco Alves aceitou o desafio de publicar o diário e em agosto de 1960 o livro chegava às livrarias, causando espanto e muita polêmica.
A repercussão do lançamento foi enorme. Lamentavelmente, a tônica nesse momento não foi o valor literário da obra nem sua importância por documentar a pobreza e a desumanização da favela, mas sim o fato, visto como “pitoresco”, de uma mulher negra favelada ter escrito um livro. Não faltou, é claro, quem pusesse em dúvida a autenticidade da autoria...
Como era de esperar, a imprensa brasileira explorou o assunto abundantemente. Jornais e revistas ilustradas, muito em voga na época, deram espaço para que se conhecesse um pouco mais a vida dessa escritora tão diferente do que normalmente se tinha como tal. Além disso, o livro foi traduzido em vários idiomas e ganhou o mundo, certamente influenciando outras mulheres a se permitirem dar asas à sua capacidade e ao seu talento para que suas vozes fossem ouvidas.
Uma dessas mulheres, Françoise Ega (1920-1976), nascida na Martinica e tendo vivido em Marselha, na França, reconhece a influência que Quarto de despejo representou para sua vida na obra Lettres à une noire, publicada em 1978, dois anos após sua morte. Ega revela de forma surpreendente que tomou conhecimento da existência de sua fonte de inspiração numa matéria publicada em 5 de maio de 1962 na revista francesa Paris Match, de autoria de Robert Collin. Foi a leitura daquelas páginas que lhe aguçou a curiosidade de ler a obra e lhe apontou novos horizontes de vida.
Passados mais de 60 anos da publicação de Quarto de despejo, é possível entender a grande importância que tal fato teve, e não só para a literatura, mas principalmente para a sociedade brasileira. Se ainda hoje a inclusão de escritoras negras no cânone da literatura ainda é um desafio, grandes nomes femininos têm provado que a luta está surtindo efeito. E é sempre bom lembrar que Carolina, presente no acervo de Literatura do Instituto Moreira Salles, abriu esse caminho com coragem e determinação.
Em 2025, entre os dias 27 e 29 de agosto, o IMS Paulista abrigou o seminário internacional “Expressão artística, discurso midiático: trajetórias e performances políticas no Brasil e na França”. Na mesa de debates dedicada à comparação da obra das escritoras Carolina Maria de Jesus e Françoise Ega, um dos organizador, Jaércio da Silva, entregou ao diretor geral do IMS, Marcelo Araujo, um exemplar do número 682 da revista Paris Match, de 5 de maio de 1962, que estampa entre as páginas 22 e 43 a matéria assinada por Robert Collin, fonte de inspiração de Françoise Ega, e quem sabe de tantas outras mundo afora, para seguir os passos da escritora brasileira.
O conteúdo da matéria, traduzido para o português, estará em breve disponível no site dedicado a Carolina Maria de Jesus, e seus admiradores e estudiosos terão acesso a mais esse item que enriquece nosso acervo de Literatura.

Rachel Valença é coordenadora da área de Literatura do IMS. Formada em Letras pela UnB, com mestrado em Língua Portuguesa na UFF, foi pesquisadora do Setor de Filologia da Casa de Rui Barbosa e diretora do Centro de Pesquisa da mesma instituição por 12 anos.
