Segundo a Enciclopédia de Literatura Brasileira, cordel é uma ”produção literária, sobretudo em versos, de cunho popular e dirigida a um público popular, impressa em folhetos, frequentemente ilustrados com xilogravuras, e de assuntos ‘infinitos’”, na definição de Luís da Câmara Cascudo.
Presentes em diversas instituições públicas e bibliotecas particulares, não surpreende encontrar alguns exemplares do gênero nas bibliotecas que compõem a área de Literatura do Instituto Moreira Salles. Um exemplo é Zé Bico Doce (1960), escrito por Paulo Nunes Baptista, que conta a história de um golpista que viajou pelo Brasil e por outros países realizando trapaças e enganando até mesmo o próprio diabo.

No arquivo do crítico Decio de Almeida Prado existem notas de uma possível pesquisa sobre teatro de cordel, além de publicações sobre o tema e exemplares de cordéis brasileiros e portugueses. Entre eles destacam-se Entremez intitulado: O moço esperto: logrado, de autoria desconhecida, e Eugênia Infante da Câmara: a bem amada de Castro Alves, de Rodolfo Coelho Cavalcante.
A biblioteca da poeta Ana Cristina Cesar também reúne alguns títulos da literatura de cordel, como A velha que vendia tabaco e o matuto do balaio de maxixe e O sanfoneiro que foi tocar no inferno, ambos de José Costa Leite.
Em sua pequena biblioteca, Paulo Mendes Campos guardou O que se passa no Hotel Dorival Caymi em Itapoã, escrito por Cuíca de Santo Amaro. A história apresenta um pouco da vida política e social da população de Salvador entre as décadas de 1930 e 1950. Em versos recheados de denúncia e pornografia, Cuica traduzia em palavras a voz e os ouvidos da população.

Outro destaque do acervo é Estória de João-Joana, único texto de cordel, até onde se sabe, escrito por Carlos Drummond de Andrade. Publicado em 1967 no livro Versiprosa, posteriormente foi musicado por Sérgio Ricardo.

A escritora Maria Julieta Drummond de Andrade, filha do poeta, também possui em sua coleção títulos de cordéis e publicações sobre o tema. Entre eles destaca-se O testamento da cigana Esmeralda, de Leandro Gomes de Barros, considerado o pai da literatura de cordel no Brasil e chamado por Drummond de “príncipe dos poetas”.

Publicado em 1941, com orientações e ensinamentos populares para se ter sorte e proteção na vida, em 2024 o texto virou enredo da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense, e conquistou o segundo lugar do campeonato do Rio de Janeiro. No trecho a seguir, “a cigana” ensina que a sorte do ano dependerá do que for feito no dia primeiro de janeiro:
Quem quiser fazer negócio
no primeiro de Janeiro
não queira vender fiado
receba logo o dinheiro
se não venderá fiado
No correr do ano inteiroGoze o dia de ano
em festejos e brincando
quem trabalha nesse dia
passa o ano trabalhando
e quem nele viajar
passa o ano viajando

Repleto de conselhos e crenças populares, o texto pode ser visto tanto como um guia simbólico para os que acreditam quanto como uma leitura leve e divertida para todos os públicos.
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que a literatura de cordel deseja conhecer
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Jane Leite é mãe, formada em biblioteconomia pela UNIRIO e pós-graduada em Gestão Eletrônica de Documentos em Organizações Privadas (Unileya). Trabalha na área de Literatura do IMS como responsável pelo atendimento aos pesquisadores, bibliotecária e gestora do site Carolina Maria de Jesus.
