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Monstro Clarice

04 de setembro de 2026

Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.

Em A legião estrangeira, 1964

 

No arquivo de Clarice Lispector guardado pelo Instituto Moreira Salles, há, identificado com o número 001 500, o título A bela e a fera. Composto por dois itens – um datiloscrito de cem páginas e uma única folha manuscrita –, o documento se refere ao livro de mesmo nome, publicado postumamente em 1979 pela editora Nova Fronteira.

 

Primeira edição do livro A bela e a fera, publicado postumamente em 1979 a partir da ideia do filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente, sob organização de Olga Borelli (Arquivo Clarice Lispector/Acervo IMS)

 

Clarice faleceu em dezembro de 1977, mas desde o início da década de 1970 contava com o serviço de secretariado da amiga Olga Borelli. Em 1966, a escritora havia adormecido com o cigarro aceso e causado um incêndio em seu apartamento no Leme. Em decorrência teve sequelas motoras nas articulações da mão e dos dedos, o que prejudicara sua escrita. Olga foi importante sobretudo depois do acidente, pois auxiliava a autora organizando manuscritos, anotando trechos ditados e datilografando; o último livro publicado por Clarice em vida, A hora da estrela, teve intensa participação dela. Em alguns originais é possível identificar a letra firme de Olga em contraste com a grafia irregular de Clarice.

 

Manuscrito de A hora da estrela (Arquivo Clarice Lispector/Acervo IMS)

 

Foi Olga Borelli quem, em 1978, já sem a presença de Clarice (contudo, segundo seu depoimento, seguindo orientações prévias da autora), encadeou os manuscritos de Um sopro de vida, primeira publicação póstuma da escritora. E foi ela também que no ano seguinte, atendendo ao pedido do filho mais novo da autora, Paulo Gurgel Valente, organizou a edição de A bela e a fera.

Qual a ideia do livro, segundo explicação de Paulo, em nota à primeira edição? Dividido em duas partes, une as pontas da vida da escritora. A primeira traz seis contos ainda inéditos da jovem Clarice, escritos quando tinha em torno de 20 anos e antes da publicação de seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, em 1943; a segunda é composta por dois contos escritos no fim da vida, intitulados “Um dia a menos” e “A bela e a fera ou A ferida grande demais”.

Esse intervalo temporal que estrutura a edição é visível no documento. O primeiro item, uma brochura em papel pardo de cem páginas, contém, sob título riscado, seis contos datiloscritos. No sumário, porém, constam títulos de 11.

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Percebe-se que os quatro primeiros foram arrancados, assim como o último. Segundo conta Teresa Montero, biógrafa de Clarice, no livro Outros escritos, as folhas teriam sido rasgadas na ocasião em que a escritora, na década de 1970, acalentando a edição desses primeiros contos, teria passado o original para o amigo Affonso Romano de Sant’Anna a fim de que este lhe desse um parecer crítico sobre os textos.

Marca de páginas arrancadas por Clarice Lispector da brochura datiloscrita de A bela e a fera (Arquivo Clarice Lispector/Acervo IMS)

 

Provavelmente, e ainda conforme informações do filho Paulo por e-mail, datam dessa ocasião as inúmeras observações e alterações de passagens do texto feitas por Clarice com caneta esferográfica. Por exemplo, na primeira página, ela esclarece: “Este livro de contos foi escrito em 1940, 1941, nunca publicado (os contos foram arrancados em 1941 mesmo)”.

Diz também na folha do sumário que o conto “Mocinha”, retirado do original, havia sido ligeiramente transformado anos depois e publicado em Laços de família (1960). Aqui a autora parece ter se enganado, pois a personagem aparece no conto chamado “Viagem a Petrópolis”, do livro A legião estrangeira, publicado em 1964.

As alterações à caneta ao longo do texto estão de acordo com a última edição de A bela e a fera publicada pela editora Rocco, com manuscritos e ensaios inéditos, em 2024. Para citar uma apenas, que revela certa heterodoxia do processo criativo de Clarice, há o final do último conto da primeira parte, intitulado “Mais dois bêbedos”. Está escrito assim:

“De repente, ele tirou o palito da boca, os olhos piscando, os lábios trêmulos como se fôsse (sic) chorar, disse:

– Pois eu me preocupo tanto com a morte que vivo apenas para me distrair…

Zanguei-me.

– Mas como podemos ser iguais, – consegui dizer ainda, antes de adormecer, – se meu queixo é forte e se o seu é sumido… asquerosamente… fugitivo…”

No original, o fragmento que inicia com “Pois eu me preocupo…” é riscado por Clarice, indicando a supressão do trecho final. Assim, na publicação, o conto termina com um inconclusivo e eloquente dois pontos: “De repente, ele tirou o palito da boca, os olhos piscando, os lábios trêmulos como se fosse chorar, disse:”.

Tal procedimento de disrupção formal e sintática é bastante utilizado por Clarice em outras obras, como Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, em que a história começa com uma vírgula e termina também com dois pontos; ou A paixão segundo GH, em que cada novo capítulo inicia com a frase que termina o capítulo anterior.

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Por sua vez, o segundo item do documento 001 500, composto apenas por uma folha manuscrita, se refere justamente ao conto que dá parcialmente nome ao livro, escrito no fim da vida de Clarice, provavelmente na mesma época em que trabalhava em A hora da estrela e em Um sopro de vida. E por que razão há no acervo do IMS, sob o título A bela e a fera, um conjunto tão insólito, que reúne uma brochura datiloscrita com inúmeros contos do início de carreira e uma folha manuscrita avulsa da década de 1970?

O arquivo de Clarice Lispector está guardado em parte pelo Instituto Moreira Salles e em parte pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Logo após a morte da escritora, alguns documentos foram doados para a FCRB, como o datiloscrito da versão preliminar de Água viva, recortes de jornal e os manuscritos do conto “A bela e a fera ou a ferida grande demais”. No IMS estão guardados, além do documento sobre o qual nos detemos agora, fotografias de família, cadernos, os manuscritos de A hora da estrela e de Um sopro de vida. A folha manuscrita em questão foi encontrada, deslocada, junto aos originais de Um sopro de vida, reiterando a tese de que os textos estavam sendo escritos mais ou menos na mesma época e já com a assistência de Olga Borelli.

Folha manuscrita com trecho referente ao conto “A bela e a fera ou A ferida grande demais" (Arquivo Clarice Lispector/Acervo IMS)

 

A reunião em edição única dos textos do início e do fim da produção literária de Clarice permite ver a coesão que marca sua obra desde a juventude, entre 18 e 20 anos, até a morte aos 56: o solilóquio interrogativo das personagens, a cisão entre corpo hermético e a simbolização, o pensamento (ou o “atrás do pensamento”) e a alteridade.

O título do livro, A bela e a fera, traz em feliz coincidência a marca de uma diferença estilística flagrante entre a primeira e a última Clarice. Conforme hipótese da ensaísta Sônia Roncador, a partir da experiência como cronista no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973, e de uma autoconsciência vertiginosa da impotência de sua literatura diante da “coisa” social, a escritora teria empobrecido sua escrita, a fim de aproximar-se eticamente do que está em baixo, seja no estrato sócio-econômico, estético ou cultural.

Sendo assim, a (controversa) “bela” Clarice do início, com maior preocupação de acabamento formal, se encontra, em progressão monstruosa, com a “fera” do final, que escreve feio e acolhe os erros, fazendo a personagem do conto que dá nome ao livro, a madame Carla de Sousa e Santos, exclamar, afinal, desesperada, frente à “ferida grande demais” na perna do mendigo em Copacabana, “o pensamento feito de duas palavras apenas: ‘Justiça Social’”.


Pesquisadores interessados neste documento ou em outros itens do arquivo de Clarice Lispector, podem agendar consultas presenciais no IMS do Rio de Janeiro.

Bruno Cosentino, integrante da área de Literatura do Instituto Moreira Salles, é doutor em literatura brasileira pela UFRJ, cantor e compositor. É também um dos editores da revista de crítica musical Polivox.