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O Lírio: olhar feminino no início do século XX

24 de julho de 2026

A revista mensal pernambucana O Lírio, lançada em 5 de novembro de 1902 no Recife, é considerada um dos periódicos femininos mais expressivos da história da imprensa brasileira. Sob direção da escritora Amélia de Freitas Bevilácqua (1860-1946), a publicação contava com um corpo editorial composto exclusivamente por mulheres, e é a partir dessa perspectiva que são vistos temas como cultura, política, literatura, comportamento, educação e, principalmente, igualdade de direitos.

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Entendendo a importância de resgatar e preservar um material tão valioso, o IMS adquiriu um conjunto cuidadosamente encadernado com 13 exemplares da revista, que se pode dizer rara:  pelo que consta, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui apenas sete exemplares, armazenados na Divisão de Obras Raras e na Coordenadoria de Publicações Seriadas, enquanto a Biblioteca Estadual de Pernambuco, no Recife, guarda 11 em seu acervo de Obras Raras.

Esse conjunto singular pertenceu à poeta cearense Anna Nogueira Baptista (1870-1967). Natural de Icó e integrante da primeira geração de escritoras do Ceará, foi colaboradora de diversos jornais de Fortaleza. Embora tenha se mudado para outros estados, manteve-se ativa e ajudou a fundar a revista, na qual estão publicados alguns de seus poemas. Nos últimos 30 anos, a coleção esteve sob os cuidados de seu bisneto, Luiz Eduardo Lerina, a quem se deve o bom estado de conservação.

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Sendo um importante instrumento de emancipação feminina em meio a uma imprensa dominada por valores conservadores, O Lírio desafiava os preceitos tradicionais da sociedade vigente. O time do qual Anna Nogueira fazia parte era formado por mulheres progressistas e de vanguarda. Além de Amélia Bevilácqua como redatora-chefe e uma das fundadoras, faziam parte do periódico a escritora Adalgisa Duarte Ribeiro, a jornalista, educadora e poeta Edwiges de Sá Pereira (1884-1958) e a advogada e professora Maria Augusta Meira de Vasconcelos Freire (1872-1942), estas últimas consideradas precursoras na luta pelo voto feminino em Pernambuco.

Como pequena amostra, apresentamos o artigo “A instrução da mulher”, de Maria Augusta, publicado no segundo número da revista, em 10 de dezembro de 1902. O texto revela o pioneirismo e a qualidade da escrita dessas mulheres:

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A INSTRUÇÃO DA MULHER

Depois que a República foi proclamada, todas as instituições do país passaram por transformações radicais. Isso não é negado nem pelos mais fervorosos adeptos do regime decaído; entretanto, não me é dado apontar os grandes erros que a nova forma de governo tem tido, o que é muito natural em todos os países que, de um instante para outro, passam por mutações sensíveis, como o nosso.

Há um descuido, um erro que o governo tem praticado e que continua aferrado a ele. Quero me referir à instrução pública, principalmente à instrução da mulher.

Em verdade, o que tem feito o governo em prol da instrução? O ensino superior, em todas as nossas faculdades, vive entregue aos caprichos dos ministros. Os programas de ensino mudam-se sempre como os cenários teatrais. Não há muito tempo um ministro pretendeu reformar as escolas superiores do país; todos nós assistimos às celeumas levantadas em toda parte. Não há estabilidade no ensino. Isso quanto ao ensino superior. Agora, quanto ao ensino primário, a questão assume proporções assustadoras. Exemplifiquemos, principiando pelo nosso Estado, onde tão pequeno número de escolas existe para a população que o mesmo tem.

Quem se der ao trabalho de estudar calmamente o método de ensino das nossas escolas há de ver que ele não obedece a uma orientação sadia; há de ver programas enormes, cheios de mil e uma disciplinas; há de ver que se ensina muito e nada se aprende.

E, de fato, vê-se um aluno que é dado por pronto nas matérias do curso primário, ignorando rudimentos comezinhos e sabendo, de oitiva, altas questões de Direito Público!

Os poderes públicos não têm ligado importância ao ensino; é forçoso confessar.

Dura veritas!

As escolas, em pequeno número e desprovidas do necessário, funcionando em prédios sem as mais rudimentares exigências higiênicas, comportam 70, 80 e mais alunos!!

Como pode um professor, por mais hábil que seja, por melhor vontade que tenha, preparar tantos alunos?

Atenda bem o poder público para estas verdades: não é admissível economia quando se trata de instrução; precisamos mais de escolas do que de quartéis, de professores do que de soldados.

O Lírio foi publicada até junho de 1904.

Katya de Moraes

Katya de Moraes, bibliotecária e editora do Portal da Crônica Brasileira, trabalha na área de Literatura do Instituto Moreira Salles.