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Campo e contracampo na fotografia de Limercy Forlin

15 de julho de 2026
Desfile de Carnaval, corso na praça Pedro Sanches. Foto de Limercy Forlin, década de 1960. Acervo Limercy Forlin / IMS

 

De fora, de dentro

O vilarejo que nasceu destinado aos de fora recebeu mais outro forasteiro em meados dos anos 1940. Dessa vez, um que se tornaria genuinamente de dentro. Era Limercy Forlin (1921-1986), vindo da pequenina Vargem Grande do Sul (SP), e que logo abriria em Poços de Caldas seu primeiro estúdio de fotografia, quando a cidade, oficialmente fundada em 1872, ainda mal contava 20 mil habitantes. Ele seguiu ininterrupto no ramo até a sua morte, mas a família deu continuidade por mais 30 anos à casa. O adeus a Limercy quase se confunde com o adeus à primeira era de popularização da fotografia. Do analógico ao digital, os retratos e as paisagens se massificaram, hoje à mão de todos. Também a técnica divisa o tempo e atua na instalação de um passado. Desde então, como aqui, memórias vão tomando forma e pedem passagem.

Vendo retrospectivamente, Limercy chegou no momento em que a cidade iniciava uma verdadeira virada de vocação. Antes estância balneária voltada ao deleite e revigoramento dos estrangeiros, frívolos ou combalidos, sobretudo para os patacudos de todo canto em busca de cura e vilegiatura, Poços de Caldas passava a aprender cada vez mais a viver por si mesma. Novas categorias sociais emergiriam no mesmo passo em que o mundo do trabalho se ramificava e paulatinamente se formalizava. Aos poucos, Poços se consolidaria como polo comercial da região e, no correr das décadas, atrairia algumas indústrias de médio e grande porte. Com isso, a taxa de crescimento populacional disparou a partir dos anos 1960, quando a cidade atingiu quase 40 mil habitantes. Ultrapassaria 90 mil ao longo dos anos 1980. A trajetória de Limercy vai bem a par dessa lenta transição: da decadência da estância de águas à ascensão da cidade que florescia em novos rumos. A cara de Poços mudava de figura. A três por quatro, suas feições iam estampar os retratos de família e as carteiras profissionais da crescente população trabalhadora local. As lentes de Limercy testemunhariam tal mudança de foco.

A cara de Poços

Limercy inaugurou sua casa de fotografia em 1945, um ano antes da proibição dos jogos de cassino no Brasil. A cidade das águas, plantada num contraforte da Mantiqueira, era chamada a se reinventar. Não seria esse o único acontecimento que claramente traçou um antes e um depois em Poços de Caldas. Nos mesmos anos de 1940, a penicilina de Fleming teve seu composto purificado e, a partir daí, antibióticos derivados foram sendo largamente utilizados para combater diversos males que, até então, a terapia de águas especiais, como a das sulfurosas termais caldenses, ajudava a mitigar. Também o isolamento da cortisona nos anos 1950, dando origem aos corticoides sintéticos, dispensaria, para muitos, aquela terapêutica lenta indicada nos 21 dias de estação de águas. Ainda outras ocorrências, como as novas opções de recreação e viagens, a expansão dos meios de transporte e a abertura de estradas pelo Brasil, muito contribuiriam para bifurcar a vocação de Poços. Desmanchava-se o consórcio entre Baco e Esculápio, lazer e medicina, que tinha sido determinante para o soerguimento e a pujança das vilas e cidades hidroterápicas.

O fim da tardia belle époque tropical, tal como transcorrida em Poços de Caldas, foi condição para o início de uma nova época na cidade. Se não mais bela, por certo foi socialmente mais virtuosa. O protagonismo dos garbosos banhistas de estação foi cedendo palco à entrada em cena daqueles que, antes, se moviam nos bastidores. A heterogeneidade dos rostos poços-caldenses, com suas diversas cores e origens, iria se tornar mais e mais presente na vida pública local. Pessoas e famílias da terra foram dando cara à paisagem social do lugar, bem ali onde as elites da monarquia e da república, com seus dramas e enredos próprios, sua rica indumentária e seus cavalos de raça, seus chalés e seus criados, suas cocotes e seus dândis, disputavam em elegância e prestígio nos concorridos footings de cada temporada. Veranistas e curistas de prol e cabedal que desembarcavam aos magotes em Poços de Caldas, esmerando-se em seus galicismos e anglicismos da moda, bateriam em retirada ano após ano. Sim, mas naquele pequeno burgo serrano permaneceu uma certa estética de elite, que, perniciosa ou não, pode ter se infundido no mais recôndito da alma caldense. Limercy também a registraria em seus retratos e retoques.

“O fotógrafo da elite”

Uma passagem de época não é sempre nem apenas ruptura. O slogan de Limercy, “o fotógrafo da elite”, bem o diz. Se, na Poços da metade do século XX em diante, não mais predominariam os lustrosos visitantes a posar para os retratos e pincéis de artistas e fotógrafos de plantão, seu espírito elitista de distinção, contudo, parece ter legado herança entre os locais. O tempo dos elegantes, com seus usos e costumes, seguiria ali, a seu modo, carreira certa. A gente da terra também quis exibir galhardia com seus ternos e vestidos, seus penteados e bigodes, numa mescla de maneirismos aristocráticos e burgueses campeando livremente naquela matuta província sulmineira. De sua parte, Limercy quebrava ângulos, criava atmosferas de luz e sombra, oferecia paletós aos desprevenidos, montava fundos de paisagens pitorescas, como uns trenós correndo na neve. Fotos feitas, o estúdio ainda se dedicava a retocá-las. Removia-se aqui uma cicatriz, ali uma verruga. Quem recusaria a imagem modelar do sujeito bem-apessoado na cidade criada para afirmar a distinção de pessoas?

Fotos em preto e branco poderiam ganhar cor, e assim conferir ainda maior aura de prestígio aos fotografados, pelas mãos artífices de Limercy e de sua esposa, Conceição Aparecida Vieira Forlin (1930), a Zizi. Mesmo com o advento da fotografia colorida, que se difundiria desde os anos 1970 sociedade afora, Zizi, sobretudo ela, foi quem seguiu, por encomendas, dando cor a fotografias de figuras que assim queriam se destacar. Tais retratos fotográficos pincelados à mão estabeleciam uma espécie de continuidade ao que tanto se praticou nas já antigas estações de cura e veraneio, quando artistas pintores prestavam-se a reproduzir na tela as damas e os cavalheiros de relevo da temporada. Mas o decisivo papel de Zizi em toda essa história não parou por aí.

Acidental documentação

Não se pode dizer que o extrato do acervo de retratos mostrado na exposição Retratos de Limercy Forlin (estimado em menos de 2% do total de negativos) seja fielmente representativo da variada composição populacional de Poços de Caldas durante as décadas de atuação do Foto Limercy. É que não era essa a intenção ou o compromisso que esteve na origem desse material que, hoje doado ao IMS, se converte em coleção. O interesse de partida respondia, antes, a uma estratégia comercial. Zizi quis organizar os negativos de modo a torná-los identificáveis e facilmente acessíveis para cópias. Mas eis que a finalidade comercial veio acidentalmente dar numa finalidade documental. Decerto Zizi não o poderia prever, ela que, contudo, e para a nossa sorte, parece ter tomado gosto de arquivista, e nunca mais abandonaria a prática.

Que o destino de um tal material possa divergir de suas origens e finalidades, aí pois todo o trabalho curatorial e institucional do IMS. Bem se sabe que desviar a função das coisas é vereda por onde as artes costumeiramente gostam de se experimentar. Pois também assim se deu neste caso: um arquivo de cunho comercial converteu-se em documental pelo encantamento estético, que também soube valer-se de esforços técnicos e científicos, não menos feiticeiros.

 

Igreja não identificada. Foto de Limercy Forlin, década de 1940. Acervo Limercy Forlin / IMS

Stelio Marras
Mestre e doutor pela FFLCH/USP, é professor e pesquisador em antropologia do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Na mesma universidade, é coordenador do Laboratório Pós-Disciplinar de Estudos e pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios. Foi um dos fundadores e coeditou, entre 1997 e 2007, a revista Sexta-Feira – Antropologia, Artes e Humanidades. (Foto: Eric Brochu)