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Adeus a Noll

29 de março de 2017

Nesta quinta, 29 de março, foi anunciada a morte aos 70 anos do escritor João Gilberto Noll. Nascido em Porto Alegre, autor de dezoito livros e ganhador de diversos prêmios, incluindo cinco Jabutis, Noll foi uma voz marcante na literatura brasileira contemporânea, com uma dicção única. Seu acervo, contendo manuscritos e datiloscritos, chegou ao Instituto Moreira Salles em 1998. No ano anterior, participou do projeto O escritor por ele mesmo do IMS, para o qual produziu o texto e as leituras abaixo. 

 

Por que escrevo

João Gilberto Noll

Escrevo porque não sei porque escrevo. Porque o mundo parece regido por um distúrbio secreto que, desconfio, não se dissolverá enquanto eu puder manter a fronte latejante. Escrevo quem sabe este texto agora por ser a forma mais eficaz de vislumbrar minhas possíveis razões para a escrita.

O fascínio da atividade literária vem para mim um pouco disso: da soma vertiginosa de golfadas, onde você pega quase sem querer alguns contornos do mistério detonador dos dramas e da comédia humana.

Escrevo, assim, para poder estar dizendo isto que se remexe por ainda não possuir a sua pronúncia exata, e que de tanto se remexer se atrita em suas partes, se exalta, e de repente enfim descansa, quase se esclarece…

No princípio escrevo apenas como exercício, como prática, como se eu estivesse a fustigar alguma matéria viva por si mesma, ainda a léguas de uma compreensão impávida, solar e retilínea.

Por isso, quando escrevo a palavra tem aos meus ouvidos uma vibração mais musical que semântica. Uma coisa prestes a materializar uma ideia mas que por enquanto ainda relampeja tão-só a sua verve física como se fosse pura melodia, para num segundo momento então se inserir numa ordem narrativa – podendo aí sim irromper o encontro cabal dessa espécie de veia túrgida e insone da escrita com a suculenta vigília do leitor.

Acreditem: por existir essa liturgia em tudo misturada à lascívia é que eu escrevo. Aliás, por existir a possibilidade da aventura, talvez aquela que Whitman esperava ao pedir ao leitor que tocasse no tecido do seu canto, que compartilhasse organicamente de sua poesia, construindo assim um instante raro de ardor e elevação.

Será esse um sentimento convulsivo, perdidamente utópico? Não sei, eu me debato. Literatura na minha mente é isso: lugar, digamos, do não-saber, da fúria, do debater-se em vão, em vão se arremessar em mais esta manhã – e, claro, com a baba desrítmica sujando o fio e o brio inerme das horas.

Escrever é ter pontaria. Em outras palavras: é pegar pelo rabo o lapso do bom senso e não soltá-lo enquanto perdurar com frescor e ânimo o anseio lúdico, ritualístico.

É isso, eu acho: escrever é alegria.

Portanto, mãos à obra, porque o trabalho salva, inoculando em nós (autores e leitores) o mesmo veneno que a vacina… é, pois que em sua potência letal traz a própria redenção (ou que nome se queira dar a um bocadinho a mais de humanidade).

É por aí, talvez, ou não… eu juro que não sei…

 

 

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