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Caderno de Londres: Otto Lara Resende

03 de maio de 2021

Viajante concentrado, Otto Lara Resende abre o diário de bordo com o endereço em sua cidade de origem: rua Embaixador Carlos Taylor, 180 – Gávea, de onde, em 31 de março de 1982, ele partiu num Concorde da Air France. O destino principal era Londres, para visitar a filha Cristiana Lara Resende e o marido, Márcio Peixoto Siqueira, que ali moravam para que ele cursasse o doutorado. Mas antes, Otto e a mulher Helena passariam uns dias em Paris, como era de costume.

“A polidez francesa está nos vinhos, nos queijos, na sua cozinha exquise. Nas maneiras, quase sempre não” – registrava o visitante que, apesar de pensar assim, não deixava de incluir a capital francesa nos seus roteiros de viagens. E foram muitas. A conclusão a que chegara tinha por base os bons restaurantes que frequentava, onde atestava a excelência da comida, e em fatos do cotidiano que vivia como morador temporário da cidade. Não consta que se tenha decepcionado com algum prato, mas não deixou de se espantar quando, ao pedir sugestão de um tinto à garçonete, ela, metendo-lhe a carta de vinhos nas mãos, disse: “Os vinhos estão todos aí, senhor”. E retirou-se, brusca. Isso depois de, no banco, onde ele pedira um cartão pela segunda vez, e o funcionário, reconhecendo-o, lembrar-lhe: “Já dei um ao senhor outro dia” e, sem mais palavras, encaminhou-o ao gerente.

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Páginas do caderno em que Otto cita o episódio no restaurante francês e lista os participantes de um jantar. Acervo Otto Lara Resende/ IMS

 

Entre delícias, alguns foras e muitas idas ao teatro e ao cinema, deu por terminada a temporada francesa e no dia 13 de abril chegou a 15, Elsham Road, onde moravam a filha e o genro. O fato de estar em ambiente familiar talvez o levasse a ceder um tanto à rotina – não muito, porque registra diversos passeios –, e reservasse um pouco mais de tempo para ver televisão e ler jornais em casa. Foi-lhe possível, por exemplo, fazer comparações entre o jornalismo inglês e francês, ressaltando que “o telejornalismo inglês, iniciado em 1926, é melhor. Os ingleses são very proud de sua TV”.

Naquele mês de abril londrino havia expectativa no ar em relação à visita do papa João Paulo II à Inglaterra. Contrariando a organização inglesa, que tudo prevê com muita antecedência, ainda não se podia confirmar a data de chegada do pontífice por causa da situação política no país, à beira da guerra das Malvinas/Falklands. Otto ainda estava em Paris quando, em 2 de abril, uma operação militar argentina invadira as ilhas Malvinas, território que a Argentina reivindicava como seu. Dias depois, pela imprensa londrina ele acompanhava a preparação dos 28 mil soldados e 100 navios ingleses que compunham a força-tarefa enviada Atlântico abaixo pela então primeira-ministra Margaret Thatcher. Era a operação Corporate, contra os 12 mil soldados e 40 embarcações argentinas.

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Trecho em que o autor cita a guerra das Malvinas/Falklands. Acervo Otto Lara Resende/ IMS

 

O que terá feito com que ele, atento ao conflito em articulação, anotasse, na página anterior, uma curiosa reflexão sobre a fé? Sabe-se que Otto era um homem religioso, e certamente não terá ficado imune à visita ao Natural History Museum (Museu de História Natural), que visitou no dia seguinte à chegada, assim como a templos essencialmente religiosos. Mas o motivo da anotação pode ser tão íntimo, tão exclusivo do viajante que se deixou tocar pelo que viu, ou pelo que não viu, ou ainda pelo que leu, que não se sabe com certeza qual foi. O que se lê: “Tudo conspira contra a fé. A fé é uma vitória inesperada. Unexpected victory. Contra o óbvio. Teimosa, remanescente. De todas as explicações, contra todas as explicações, a fé permanece. A ciência desconhece o conhecimento da fé”.

Não é impossível que ele estivesse lendo, ou lembrando, o profeta Habacuc (aliás, um dos apelidos que Murilo Rubião lhe dera), profeta do Antigo Testamento de absoluta confiança na soberania de Deus e a quem se atribui a autoria do Livro de Habacuc. Em versos do livro, o autor se refere ao triunfo da fé, “vitória inesperada”. No caderno, o que importa, na verdade, é flagrar o momento de introspecção de Otto Lara Resende em viagem. Quem leu aqui, por exemplo, o Caderno da Noruega, viu que o Otto sociável, animado conversador que saía para jantar com amigos, era muito diferente do Otto que voltava para o quarto de hotel sozinho, viajando sem Helena.

Não era o caso dessa viagem a Londres, onde estava aconchegado a parte da família. Ainda assim, há espaço para reflexões, e esta, sobre a fé, transportou-me imediatamente a um caderno de Manuel Bandeira que encontrei no Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa (AMLB-FCRB), documento que Francisco de Assis Barbosa chamou de “caderno de celibatário”. Ali o poeta anota, desde remédios para matar barata, até uma definição de religião, em francês, de Einstein, que em tradução livre fica assim:

Minha religião consiste numa humilde admiração para com o espírito superior e sem limites que se revela nos mínimos detalhes perceptíveis com nossos espíritos fracos e frágeis. Essa profunda convicção sentimental da presença de uma razão poderosa e superior que se revela no incompreensível universo, aí está minha ideia de Deus.

Otto era um viajante que absorvia o entorno, mas não deixava de se manter conectado ao mundo interno. De fé, passa a anotar sonhos e tem lá a sua teoria a respeito: “Many dreams. Povoados pelos estímulos da viagem, a quebra da rotina. [...] O sonho exige certo descompromisso. A rotina sufoca, mata a capacidade de sonhar” – conclui. Ficou preocupadíssimo quando sonhou com Paulo Mendes Campos dirigindo uma moto em Londres. Viu sinal de perigo, mas Helena logo o fez deixar a preocupação que, felizmente, era mesmo infundada.

Já se constatou aqui, em outros cadernos de Otto, o quanto ele, imerso numa cultura, não esquecia os aniversários da família e de amigos, no Brasil. O que é curioso em seu método é que ele não só anota a quem deve mandar correspondência e por quê, como também registra depois de tê-la enviado.

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Parte final do caderno, em que é descrita a viagem de volta ao Rio. Acervo Otto Lara Resende/ IMS

 

Na volta, via Paris, ele escreve, transportado para o Nordeste brasileiro: “Em Paris, no aeroporto de paredes de vidro, havia um incômodo sol de Fortaleza”. O leitor pode estranhar a referência, mas logo entenderá se souber que, no ano anterior, ele estivera na capital cearense, onde recebeu a medalha “Cidade de Fortaleza”, concedida pela Câmara Municipal.

No dia 2 de maio, Otto e Helena estavam de volta ao Rio de Janeiro. Depois de passar na alfândega, recolher as malas, encerra o diário: “Estou na rua, no Rio”. Daqui ele acompanharia o desfecho da guerra das Malvinas/Falklands, em que morreram 255 britânicos e 649 argentinos até que em 14 de junho a Inglaterra fosse declarada vencedora e a cidade de Stanley libertada.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.

Os mais de cem cadernos de escritores guardados no acervo de Literatura do Instituto Moreira Salles mostram o quanto esses itens, cada vez mais raros nos nossos dias, serviram no passado de laboratório de criação literária. Esta série em construção revela a singularidade desses documentos e a natureza de seus autores. Confira a coleção de posts elaborados a partir deste material cuidado e catalogado pelo IMS.

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