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Carolina é cânone

02 de maio de 2017

Ao lado de Machado de Assis, Clarice Lispector, José Saramago, Camões e alguns outros pesos-pesados das letras lusófonas, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) integra a lista de leituras exigida pelo Vestibular 2019 da Unicamp.

Palmas para a Unicamp.

E – ainda que atrasadas – palmas também para a UFMG, que em 2001 incluiu a escritora entre os autores que os vestibulandos deveriam ler.

Quarto de despejo, o livro indicado em Campinas, relata, em forma de diário, o dia a dia de uma mulher negra, favelada, que ganha a vida recolhendo e vendendo papéis pelas ruas de São Paulo. Na estante dos vestibulandos Unicamp/2019, Quarto de despejo vai ficar ao lado dos Sonetos (Camões), de A hora e a vez de Augusto Matraga (Guimarães Rosa), Caminhos cruzados (Erico Verissimo), e mais oito obras da tradição luso-brasileira.

Excelentes leituras.

Em 2017, mais de setenta mil alunos inscreveram-se para o vestibular da Universidade Estadual de Campinas.

Um bocado de gente.

Para muitos dos milhares de vestibulandos que baterem às portas da Unicamp em 2019, a preparação para o exame talvez seja a primeira vez que ouvem falar desta sensacional escritora mineira, nascida em Sacramento. Carolina foi best seller no Brasil dos anos 1960 e, além disso, foi traduzida para dezenas de línguas e continua integrando bibliografias de cursos universitários do exterior.

Não é pouco. Mais palmas para a Unicamp, que empresta sua grife de universidade de excelência para uma escritora – digamos –  gauche. Pois Carolina – como o Carlos – foi, literalmente, uma gauche na literatura. E talvez também na vida.

O Brasil leitor dos anos 1960 que a viu surgir não estava habituado a encontrar favelas nem na literatura, nem perto de casa. Há pouco mais de meio século, favelas ficavam longe e, quando figuravam na música – como na bela “Ave Maria no morro de Herivelto Martins –, além de terem alvorada e passarada ficavam pertinho do céu.

Já a favela que o leitor percorre nas páginas de Quarto de despejo tem um  perfil muito diferente. As metáforas com que a voz da narradora o traça são de violência e degradação:

Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.

Ouvi uns buatos que os fiscaes vieram requerer que os favelados desocupem o terreno do Estado onde eles fizeram barracões sem ordem. Várias pessoas que tinham barracões aqui na favela transferiram para o terreno do Estado, porque lá quando chove não há lama.

Voltei para o meu barraco imundo. Olhava o meu barraco envelhecido. As tábuas negras e podres. Pensei: está igual à minha vida.

Como universidades – sobretudo as de excelência, como a Federal de Minas Gerais e a Unicamp – são fiadoras do cânone literário, a presença de Quarto de despejo na lista de leituras de seu vestibular renova esperanças. O que ilumina horizontes num abril sombrio como este de 2017 em que traço estas maltraçadas.

A universidade de hoje – e aqui penso sobretudo na universidade pública –  tem em seu corpo discente moças e moços que há meio  século nem pensavam em frequentá-la. As cotas alteraram o panorama, e é bem possível que hoje muitas Carolinas e seus filhos a frequentem. Neste novo cenário, a inclusão de Quarto de despejo nas leituras para o vestibular talvez expresse, no âmbito bibliográfico, o que as cotas representam no âmbito social.

Não é, no entanto, apenas no Brasil do século XXI que se amplia a noção de literatura, pressuposto implícito na inclusão de Carolina Maria de Jesus na lista de livros para vestibulares de grandes universidades: no ano passado, Bob Dylan não ganhou o Prêmio Nobel de literatura?

Ganhou, e foi muito bom que ganhasse… e desencadeasse as polêmicas que desencadeou.

Em outro contexto, porém com o mesmo efeito de legitimar como literatura certas produções culturais, desde as décadas finais do século passado, mestrados e doutorados de Literatura debruçam-se sobre compositores (Chico Buarque e Caetano Veloso talvez tenham sido os primeiros), e livros didáticos incluem letras de música e histórias em quadrinhos entre os textos com os quais trabalham.

Ou seja, o conceito de literatura – felizmente! – alarga-se.

Se nos adjetivos que definem certos gêneros (como, por exemplo, ocorre nas designações “literatura marginal” e “literatura infantil), há ainda traços de um certo resguardo para a literatura desadjetivada, um longo caminho já foi percorrido.  E, neste percurso, a definição do que é ou do que não é literatura relativiza-se. E, relativizando-se, esfrega no nariz dos interessados na questão o contágio do  literário  pelo social, econômico, étnico, etc…

Contágio que Carolina Maria de Jesus, com sabedoria, intuiu e tematizou em um poema, com que encerro este comentário:

Eu disse: o meu sonho é escrever
Responde o branco: ela é louca
O que as negras devem fazer …
É ir pro tanque lavar roupa

 

* Marisa Lajolo é professora da pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie e crítica literária, autora de, dentre outros, Como e por que ler o romance brasileiro (2004) e Do mundo da leitura para a leitura do mundo (1994). Integra a Academia Paulista de Educação.

***

O Acervo Carolina Maria de Jesus chegou ao IMS em 2006. É formado apenas de arquivo com produção intelectual, contendo dois cadernos manuscritos. Em 2014, o Instituto comemorou o centenário de nascimento da escritora com o evento Carolina é 100. Dentre as homenagens, esta conversa entre Marisa Lajolo e Audálio Dantas, descobridor da escritora:

 

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