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Crepúsculo: “a hora esquerda e torta” 

04 de junho de 2020

O tema do crepúsculo na obra de Paulo Mendes Campos merece estudo abrangente, dadas as fartas menções ao fenômeno, não só em versos, como na prosa autobiográfica desse cronista de superior refinamento. O que se faz aqui é apenas uma abordagem curta, em que se pinçam, aqui e ali, trechos que denunciam o impacto do pôr do sol sobre o poeta e prosador mineiro.

Mestre Houaiss diz que o crepúsculo se dá entre o ocaso e a noite, ou entre a noite e o nascer do Sol. Portanto, se antecede o final de algo, sentido mais comum do termo, também indica o surgimento de alguma coisa nova. Palavra de sentido duplo que, na obra de Paulo Mendes Campos, não deixa dúvida quanto à prevalência do primeiro significado.

Em 2 de junho de 1959, o cronista ainda acreditava necessário mencionar o duplo sentido, como escreveu na crônica “Meditações imaginárias”, publicada no Diário Carioca, portanto quando ele já morava no Rio de Janeiro, para onde se mudara em 1945. Ao listar suas dívidas de formação moral ou intelectual, nomeando as pessoas que o ensinaram ou lhe influenciaram o gosto, afirma dever à mãe “o manejo do revólver, o gosto do claustro, o recolhimento na hora dos crepúsculos matutino ou vespertino, o entendimento da passarela entre o efêmero e o símbolo”. Mas nas versões incluídas em O cego de Ipanema e Cisne de feltro, ele eliminou as palavras “matutino ou vespertino”. Ao se referir apenas ao “recolhimento na hora do crepúsculo”, sem justificar qual, deixou claro que adotaria sempre o sentido usual do termo.

Paulo Mendes Campos. "Meditações imaginárias", crônica publicada em 2 de junho de 1959 no Diário Carioca. Acervo Paulo Mendes Campos/IMS

 

Esse era o que o interessava, na verdade. Foi esse que o marcou e que mereceu destaque em “Fragmentos em prosa”, incluído em O domingo azul do mar, livro de poemas com que estreou em 1951, lançado no mesmo dia em que se casou com Joan Mendes Campos: “A saudade à hora do crepúsculo estragou-me todos os outros crepúsculos”, escreve o poeta dos “Fragmentos”. A partir daí, fica-se sabendo da impossibilidade de alegria, felicidade ou paz em um final de tarde, ainda que nos melhores cenários das praias de Copacabana e Ipanema que ele tão assiduamente frequentou na década de 1950.

Mais adiante, em 21 de novembro de 1959, em “As horas antigas”, ele divulga a melancolia crepuscular que cobria Belo Horizonte. A crônica é uma espécie de pintura em que ele apreende o desalento, a luz, os sons, a temperatura e os hábitos da cidade. Foi publicada inicialmente na revista Manchete e depois incluída em O mais estranho dos países.

Quem era de ir para casa, ia para casa; quem era de beber ia beber. Ah, como era repousante o chope ou a cachacinha depois da vagarosa fadiga burocrática! Como os passarinhos do crepúsculo cantavam dentro dos peitos montanheses! Como ficava doce e enigmático o ar, entre a cálida lembrança do sol deixada nas pedras e as aragens da boca da noite! Como era bom ser mineiro e melancólico às seis horas da tarde!

"As horas antigas", crônica publicada em 21 de novembro de 1959 na revista Manchete. Acervo Paulo Mendes Campos/ IMS

 

Se não é explicitamente sobre tristeza, melancolia, dor ou saudade, ainda é ao crepúsculo que ele associa o que há de negativo, como na magnífica “O amor acaba”, ao descrever as circunstâncias diversas em que o amor pode findar, entre as quais na “poeira que vertem os crepúsculos”:

e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; [...] e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir.

Certamente a ideia da solidão ao crepúsculo não era menor para Paulo Mendes Campos do que o foi para Tchekhov em A estepe, no trecho assustador que transcrevo em seguida. A bela imagem onírica que a personagem Iegóruchka vê no crepúsculo, com anjos de asas douradas se preparando para dormir, seria inconcebível para Paulo. A percepção do rapaz contrasta com a segunda parte da descrição, quando o narrador mostra temor, sentimento mais próximo ao do nosso cronista:

Iegóruchka estava deitado de costas e, com as mãos cruzadas embaixo da cabeça, mirava o céu. Via o crepúsculo do anoitecer se arder em chamas e depois se apagar; os anjos da guarda, toldando o horizonte com suas asas douradas, se preparavam para dormir; [...] As estrelas, que miram do céu há milhares de anos, o próprio céu insondável e a escuridão se mostram indiferentes à vida breve dos homens e oprimem nossa alma com seu silêncio, quando acontece de ficarmos cara a cara com eles e tentamos alcançar seu sentido; então, nos vem ao pensamento a solidão que aguarda cada um nós na sepultura e a essência da vida parece misteriosa, assustadora...

As crônicas "Recife"e "Fim de semana em Cabo Frio", de Paulo Mendes Campos. Acervo Paulo Mendes Campos/ IMS

 

O que Paulo Mendes Campos via em seus fins de tarde era aquele “momento coagulado entre dia e noite” – note-se a finura na escolha do adjetivo –, como definiu o crepúsculo na crônica “Recife”, no momento em que a hora lhe trazia sempre a angústia necessária. Sim, necessária, porque dela ele precisava para se reconhecer por inteiro, ainda que conservasse amor à vida. Nesse ponto, compartilhava a perplexidade existencial de outro mineiro, Guimarães Rosa, que em “Sobre a escova e a dúvida”, um dos prefácios de Tutameia, disse: “Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o bocejo e o pôr do sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre”. Entende-se, do mesmo modo, que a perfeição do dia que o cronista viveu, aproveitou e contou em “Fim de semana em Cabo Frio” não o satisfazia. “Que tinha eu com tudo aquilo? Que tem o ser humano com o bem-estar?”, perguntava-se, no poente, quando, enfim, chegou-lhe o velho companheiro com as costumeiras “fúrias e penas”:

Afortunadamente, domingo ao crepúsculo fiel crepúsculo, no restaurante apenumbrado, antes do regresso, as fúrias e as penas voltaram ao meu coração. Eu as deixei entrar com alívio, e elas se assentaram todas em torno de mim. E prosseguiram, graças ao bom Deus, em assembleia permanente.

Não terá sido sem profunda sintonia que Paulo Mendes Campos traduziu o pavor do crepúsculo no poema “Domination of Black”, de Wallace Stevens, publicado em Diário da Tarde com o título de “A dominação do negro”. “A cor dos abetos espessos” que chega em “largas passadas” e evoca o “clamor dos pavões”, cujas caudas ganham a cor sombria dos abetos, é imagem que prepara o leitor para a devastação da “ventania crepuscular” que tudo varre e faz a noite descer trazendo escuridão e medo. O poema, embora não seja da predileção dos críticos americanos, era um dos favoritos de Stevens, que o selecionou para a America’s 93 Greatest Living Authors Present This is My Best. Com que identificação e prazer deve o tradutor ter trabalhado nessa pequena peça, ele, para quem “traduzir é descansar carregando pedras”.

O mesmo tradutor, na encarnação do cronista de “Amanhecer e anoitecer”, não deixou por menos quando caracterizou o ocaso com seu “céu cor de ratazana, a hora esquerda e torta, não ousando dizer o seu nome”. Esse céu cor de ratazana tem uma carga de assombro nada inferior às caudas cor de abeto dos pavões de Wallace Stevens, além de “hora esquerda e torta”, em crônica, ser verso ou parte de verso de alta qualidade.

"Amanhecer e anoitecer": "céu cor de ratazana". Acervo Paulo Mendes Campos/IMS

 

Na mesma “Amanhecer...”, em tom baixo, mas não menos desesperado, ele confessa “a inveja dos que sabem aonde ir na hora do crepúsculo”. Evidentemente o título da crônica indica que aí se achará a concentração do pensamento do autor sobre o tema, o que, de fato, acontece, sem que com isso ele, nem de longe, esgote o assunto. Para que não haja perda na expressão, foi necessário não só ter reproduzido trechos de Paulo Mendes Campos como terminar com suas palavras, na mesma “Amanhecer e anoitecer”:

O sol é viril, a noite é feminina, e eu não sei de onde me chega tanta incompetência de viver a hora do crepúsculo. [...] Eu, que, a despeito de mim, aprendi a amar a vida, a respeitar as criaturas que se sentem à vontade no mundo, nunca aprendi a amar o crepúsculo.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.


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