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Manual de instruções para a escrita de um texto ficcional a partir de uma fotografia

05 de março de 2020

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, elaborados a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Em março de 2020, o escritor Tiago Ferro ganhou inspiração em uma imagem de Peter Scheier (1908-1979), fotógrafo em cartaz no IMS Paulista com a exposição Arquivo Peter Scheier. O IMS possui cerca de 35 mil imagens do fotógrafo, a maioria negativos fotográficos de sua trajetória profissional no Brasil. O acervo inclui também um vasto conjunto de documentos – certificados, contratos, cadernos, cartões de visita, carimbos, portfólios, álbuns de família, livros, revistas e jornais – que, com as fotos, contam sobre a atuação diversificada em seu estúdio.

 Eilat, Israel, 1959 (Foto de Peter Scheier/Acervo IMS)
  1. Uma fotografia representa o congelamento de uma determinada ação. Não importa se a festa de aniversário da sua sobrinha ou a explosão de uma bomba no Irã. Adivinhar o que aconteceu antes ou depois dela, é trair sua natureza. Portanto não narre o filme que você imagina a partir da fotografia.
  2. Um poema tampouco funciona. A forma de arte que é reelaboração da linguagem, criação de novos sentidos, estaria sendo reduzida a algo por demais concreto. A traição seria com a poesia.
  3. O único caminho para que um texto ficcional seja fiel ao momento de uma fotografia é usar um texto ficcional instantâneo. Ou seja, uma colagem literária (clique aqui para saber mais sobre o conceito de colagem literária).
  4. Olhe rapidamente para a fotografia enviada por e-mail (exemplo de foto acima) e anote mentalmente o primeiro livro que vem à sua mente. Guarde esse título com você por 72 horas. Confie na sua intuição.
  5. Olhe novamente a fotografia e num movimento reflexivo descubra se a intuição original se sustenta. É preciso desconfiar de tudo. Em caso positivo, siga para o item 6; em caso negativo, volte ao 4.
  6. Procure uma boa edição do livro. Marque à lápis o trecho mais representativo da obra. Leia o livro na íntegra por três vezes – a segunda em voz alta – para se certificar da escolha do fragmento. Marque a página com a orelha.
  7. Leia o trecho por sete noites consecutivas da seguinte forma: uma vez na primeira noite; três na segunda; seis na terceira, dezesseis na quarta; etc.
  8. Reproduza o trecho escolhido, entre aspas, sem itálico:

“Alice estava começando a se aborrecer de ficar sentada ao lado da irmã num recosto de jardim, sem nada para fazer. Dava uma ou outra olhadela no livro que a irmã lia, mas implicava:

-- De que serve um livro sem figuras nem diálogos?

Cheia de preguiça, por causa do calor do dia, ela se perguntava se o prazer de fazer um colar de margaridas valeria o esforço de se levantar e colher flores, quando de repente um Coelho Branco de olhos cor-de-rosa passou correndo junto dela.

Nada havia de muito estranho naquilo. Nem Alice achou assim tão esquisito quando ouviu o Coelho dizer para si mesmo:

-- Oh meu Deus! Eu vou chegar muito atrasado!

Mas, quando ele tirou um relógio do bolso do colete, olhou-o e se apressou, Alice se levantou, dando-se conta de que nunca antes havia visto um coelho nem com colete e nem com um relógio de bolso. Ardendo de curiosidade, seguiu-o correndo, a tempo de vê-lo penetrar numa larga toca sob a cerca.

E lá se foi Alice, descendo atrás do Coelho, sem jamais considerar como faria depois para sair dali.”

  1. Coteje o trecho com o original. É importante que tudo esteja exatamente igual: fonte, quebra de linhas, acordo ortográfico, papel, formato etc. Se houve algum erro na cópia anterior, copie novamente incorporando as correções sem as marcações do Word. Se não, vá diretamente para o item 10.

“Alice estava começando a se aborrecer de ficar sentada ao lado da sua irmã num recosto do  jardim, sem nada para fazer. Dava uma ou outra olhadela no livro que a irmã lia, mas implicava:

-- De que serve um livro sem figuras nem diálogos?

Cheia de preguiça, por causa do calor do dia, ela se perguntava se o prazer de fazer um colar de margaridas valeria o esforço de se levantar e colher as flores, quando de repente um Coelho Branco de olhos cor-de-rosa passou correndo junto dela.

Nada havia de muito estranho naquilo. Nem Alice achou assim tão esquisito quando ouviu o Coelho dizer para si mesmo:

-- Oh, meu Deus! Eu vou chegar muito atrasado!

Mas, quando ele tirou um relógio do bolso do colete, olhou-o e se apressou, Alice se levantou, dando-se conta de que nunca antes havia visto um coelho nem com colete e nem com um relógio no bolso. Ardendo de curiosidade, seguiu-o correndo, a tempo de vê-lo penetrar numa larga toca sob a cerca.

E lá se foi Alice, descendo atrás do Coelho, sem jamais considerar como faria depois para sair dali.”

  1. Inclua a referência bibliográfica de acordo com as normas da ABNT <www.abnt.org.br>. Isso vai reforçar a ideia já discutida de colagem literária:

CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. Tradução: Nicolau Sevcenko. São Paulo: Cosac Naify, 2009, pp. 11-12.

  1. Inclua em caixa alta o seguinte título: CÓPIA FIEL.
  2. Escreva uma mini-bio sua com 283 caracteres com espaço.
  3. Envie ao IMS o material em arquivo .doc ou .docx. No assunto do e-mail coloque apenas: série Primeira Vista.

 

Atenciosamente,

Equipe técnica do site do IMS

Tiago Ferro é escritor, autor de O pai da menina morta (todavia, 2018), vencedor do Prêmio Jabuti categoria romance e do Prêmio São Paulo de Literatura categoria romance de estreia, e editor da e-galáxia e da revista de ensaios Peixe-elétrico. Nasceu em 1976 em São Paulo, onde vive. (Foto de Renato Parada)

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