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Sessão Mutual Films

Notícias do Senegal: Ceddo e As atualidades senegalesas

No mês de celebração de 66 anos da independência do Senegal, a Sessão Mutual Films de abril traz dois programas de filmes que expõem os desafios e as contradições da geração que criou os alicerces do país africano e ex-colônia francesa. No primeiro programa, quatro recém-restaurados cinejornais da série As atualidades senegalesas, um projeto do Ministério da Informação que teve início antes da independência do país e perdurou até os anos 1980. Os noticiários foram realizados entre 1966 e 1976 e focam nas ações do presidente senegalês Léopold Sédar Senghor, como sua visita à Martinica e o encontro com o então prefeito da capital do país, Aimé Césaire, ambos também renomados escritores e fundadores do movimento literário Negritude. Eles também mostram um Senegal intelectualizado e progressista, que promove artistas como o cineasta Ousmane Sembène (1923-2007), o qual vemos participando de eventos e trabalhando em seus filmes. Duas das “atualidades” foram dirigidas por Paulin Soumanou Vieyra (1925-1987), diretor-geral da série e colaborador de Sembène, que também dirigiu um retrato documental do cineasta, O avesso do cenário (1981), sobre a realização do filme Ceddo (1977), que acabou sendo censurado no Senegal e provocou um hiato de dez anos na carreira cinematográfica de Sembène. O segundo programa traz o próprio Ceddo, um anacrônico épico histórico, alegoria aos problemas enfrentados pelo Senegal no presente. O filme conta a história do rapto da princesa Dior Yacine (interpretada por Tabata Ndiaye) pelos rebeldes da sua aldeia (os ceddo), que se revoltam com a imposição do islamismo, ocorrida com a conversão do rei, e a luta deles pela preservação das tradições culturais locais. E mostra como as religiões estrangeiras (islamismo e cristianismo) participaram da comercialização e escravização da população local. O avesso do cenário é apresentado com o apoio do Institut Français e da Cinemateca da Embaixada da França no Brasil, e a primeira exibição dele e dos cinejornais no IMS Paulista será apresentada pela montadora brasileira de cinema Cristina Amaral.


Sessões especiais

IMS PAULISTA

Programa 1 - As atualidades senegalesas
22/4/2026, quarta, 19h30
Sessão apresentada por Cristina Amaral

Programa 2: Ceddo
23/4/2026, quinta, 19h30
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard

Informações sobre todas as exibições ►

Cena de Ceddo, de Ousmane Sembène

Filmes


Programa 1: As atualidades senegalesas

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

O Senegal e o Festival Mundial das Artes Negras
Le Sénégal et le Festival Mondial des Arts Nègres
Paulin Soumanou Vieyra | Senegal | 1966, 28’, DCP (Cinemateca de Bolonha), cópia restaurada | Classificação indicativa: 14 anos

Ifé – Terceiro Festival das Artes
Ife / 3ème Festival des Arts
Paulin Soumanou Vieyra | Senegal | 1971, 13’, DCP (Cinemateca de Bolonha), cópia restaurada | Classificação indicativa: 14 anos

Senegal ano XVI
Sénegal an XVI
Babacar Guèye e Orlando Lopez | Senegal | 1976, 21’, DCP (Cinemateca de Bolonha), cópia restaurada | Classificação indicativa: 14 anos

Viagem às Antilhas do presidente Senghor (Martinica e Guadalupe)
Voyage aux Antilles du président Senghor (Martinique et Guadeloupe)
Georges Caristan | Senegal | 1976, 17’, DCP (Cinemateca de Bolonha), cópia restaurada | Classificação indicativa: 14 anos

O avesso do cenário
L’Envers du décor
Paulin Soumanou Vieyra | Senegal | 1981, 26’, DCP (Institut Français/PSV-Films), cópia restaurada | Classificação indicativa: 14 anos

 

Um passeio turístico por Dacar na ocasião do Primeiro Festival das Artes Negras, em 1966, nos coloca em contato com a vida vibrante de um dos lugares mais importantes da África Ocidental Francesa. Deixando a cidade, uma pequena e exuberante comunidade pesqueira expressa o contraste entre a modernização e a cultura tradicional local. No cinejornal senegalês O Senegal e o Festival Mondial das Artes Negras, o cineasta de origem beninense Paulin Soumanou Vieyra apresenta ao espectador um país em efervescente construção e criação, no qual seus artistas tomam as rédeas na formação de uma identidade culturalmente heterogênea.

Na época em que realizou o filme, Vieyra já havia se consagrado como o autor de importantes curtas-metragens, como África sobre o Sena (Afrique-sur-Seine, 1955, codirigido com Mamadou Sarr) – considerado por muitos como o primeiro filme realizado por pessoas nativas da África subsaariana – e Lamb (Lamb – La lutte, 1963), primeiro filme da África pós-colonial a participar no Festival de Cannes. Além de cineasta, ele atuou no Senegal, seu país adotivo, como educador, patrocinador de projetos artísticos, autor de estudos pioneiros sobre o cinema africano e diretor-geral, durante 15 anos, da série As atualidades senegalesas – noticiários narrados em francês, realizados para o cinema e financiados pelo Estado senegalês, que foram produzidos entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1980.

O programa no IMS Paulista apresenta quatro “atualidades” restauradas, sendo duas dirigidas por Vieyra e outras duas pelos importantes cinegrafistas Georges Caristan e Orlando Lopez. A temática central de cada noticiário aborda algum evento do continente africano ou ação do Estado, como o terceiro Festival de Artes Pan-Africanas, na cidade nigeriana de Ifé, a comemoração dos 16 anos de independência senegalesa e a emblemática visita do presidente senegalês Léopold Sédar Senghor à Martinica para encontrar com o também político, escritor e cofundador do movimento Negritude, Aimé Césaire. As peças também trazem notícias internacionais, como uma campanha de vacinação contra a meningite no Brasil. O projeto, como um todo, é o de colocar a República do Senegal em diálogo com o mundo.

O projeto de restauração dos filmes de As atualidades senegaleses foi iniciado pelos artistas, pesquisadores e preservacionistas italianos Marco Lena e Tiziana Manfredi (baseados no Senegal há 20 anos), que descobriram os filmes durante uma visita ao principal acervo audiovisual senegalês (La Direction de la Cinématographie du Sénégal, ou DCI) e ficaram interessados na possibilidade de preservar a história mundial recente, a partir de uma perspectiva africana. Dos aproximadamente seis mil cinejornais que foram produzidos, 250 foram resgatados para digitalização e restauração. Em 2023, a Cinemateca de Bolonha fez quatro restaurações em 4K a partir de cópias em 16 mm, graças à iniciativa African Film Heritage Project (Projeto de Patrimônio Cinematográfico Africano), dentro do World Cinema Project.

Um personagem citado nos quatro cinejornais é o cineasta senegalês Ousmane Sembène – dirigindo seu média-metragem Niaye (1964), conversando com outros artistas africanos no festival em Ifé, lançando seu filme Xala no circuito francês e trabalhando no set do filme Ceddo, que foi censurado no Senegal logo após sua finalização. Vieyra, que foi coordenador da produção de Ceddo, mergulha na realização do filme em seu breve documentário O avesso do cenário, que também passará no IMS Paulista. Além de entrevistar o diretor junto aos seus principais colaboradores, como Georges Caristan e Carrie Dailey Moore (esposa do cineasta), vemos Sembène tanto na direção dos atores, em uma aldeia construída para seu drama histórico, quanto na sala de montagem, onde ele reflete sobre a edição de cinema como um gesto de pensar o mundo.

O avesso do cenário vai passar em uma cópia restaurada, cedida pelo Institut Français (através da Cinémathèque Afrique) e pela Cinemateca da Embaixada da França no Brasil. A primeira exibição dele e dos quatro cinejornais será introduzida pela montadora brasileira Cristina Amaral, conhecida por seu trabalho em filmes como Ôri (1989), Serras da desordem (2006) e Mato seco em chamas (2022), entre outros. Por sua ajuda na realização do programa, agradecimentos adicionais vão para Marco Lena e Tiziana Manfredi, e Stéphane Vieyra, filho de Paulin Soumanou Vieyra e presidente da associação PSV-Films.

 

PROGRAMAÇÃO

IMS Paulista
22/4/2026, quarta, 19h30
Sessão apresentada por Cristina Amaral

26/4/2026, domingo, 20h


Programa 2: Ceddo

Ceddo
Ousmane Sembène | Senegal | 1977, 117’, DCP (Doriane Films), cópia restaurada | Classificação indicativa da sessão: 14 anos

Quando o rei Demba War (interpretado por Makhourédia Guèye) decide se converter ao Islã, ele exige o mesmo da população majoritariamente animista de sua aldeia. Por orientação do imã local (Alioune Fall), aqueles que não se convertessem à nova religião se tornariam escravos. Inconformados com a atitude do rei, os ceddo – guerreiros não convertidos – raptam a orgulhosa princesa e herdeira do trono, Dior Yacine (Tabara Ndiaye). Enquanto diversos fiéis tentam resgatar a princesa do campo aberto onde ela e os ceddo se encontram, o imã conspira em prol de sua própria ascensão ao poder, sem prever a força da resistência local.

Ceddo trata da resistência africana à penetração do cristianismo e, principalmente do Islã, para defender sua identidade cultural”, declarou o produtor do filme, Paulin Soumanou Vieyra, em um documentário (O avesso do cenário) sobre sua realização. Ambientada nas paisagens áridas do interior do Senegal, em um período pré-colonial intencionalmente não especificado, a ficção criada pelo cineasta e escritor senegalês Ousmane Sembène oferece diversas metáforas para tratar de assuntos presentes nas primeiras décadas de independência do país africano. Enquanto o imã converte cada membro do vilarejo, extirpando seus adereços, raspando os seus cabelos e dando-lhes novos nomes, o missionário europeu (Pierre Orma), completamente apático ao seu entorno, não cria obstáculos para a comercialização da população escravizada. Já o comerciante europeu, sem falas e com uma presença marginal ao contexto da história, apesar de aparentar apenas acompanhar o curso natural da dinâmica dos líderes locais, provoca o maior impacto à população com seu comércio de armamento, pólvora e álcool, em troca de pessoas escravizadas.[1]

Ceddo estreou na mostra Forum no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1977, e passou na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes no mesmo ano. Ele foi o quinto longa-metragem dirigido por Sembène, após os sucessos internacionais de A garota negra (La Noire de..., 1966), Mandabi (1968), Emitaï (1971) e Xala (1975). O primeiro cineasta a dirigir um longa-metragem no Senegal independente cresceu em uma família muçulmana, porém adotou um pensamento marxista e revolucionário quando adulto. Com a independência do país, na década de 1960, o público para quem se direcionava já não vivia diretamente à mercê do governo francês, porém o diretor considerava que a condução do país ainda seguia nos anos 1970 submissa ao ex-colonizador, e o principal exemplo disso dava-se na adoção do francês como língua primária, uma vez que a língua uolofe (usada nos diálogos de Ceddo e de outros filmes de Sembène) era amplamente falada. Assim, não foi por acaso que um estopim para a censura de Ceddo no Senegal tenha sido a forma da escrita no título do filme: Para os censores, a palavra “Ceddo” deveria ter apenas um “d”, enquanto, para o diretor, a forma tradicional continha dois “d”.

A censura de Ceddo impactou violentamente a vida de Sembène, já que havia sido a maior produção dele realizada até aquele momento. Apesar da boa recepção no exterior – ajudada em parte pela brilhante fotografia colorida de Georges Caristan e Orlando Lopez e a trilha sonora magnética e anacrônica composta pelo músico camaronês Manu Dibango – o lançamento do filme no Senegal ocorreu apenas após a saída do presidente Senghor do governo, na década de 1980. Sua proibição provocou um hiato de dez anos na carreira cinematográfica de Sembène, que depois voltou a fazer mais quatro celebrados longas-metragens antes da sua morte, aos 84 anos, em 2007.

O filme foi restaurado em 4K em 2023 a partir dos seus negativos originais em 35 mm pela Criterion Collection (nos Estados Unidos) e Éclair Classics (na França). O projeto fez parte de uma série de restaurações digitais dos filmes de Sembène, ocasionada pelo centenário do diretor. As exibições de Ceddo no IMS Paulista marcam a estreia brasileira da nova restauração do filme e serão acompanhadas por um vídeo de apresentação de Alain Sembène, filho do cineasta, que participou na coordenação da iniciativa.

[1]  O tratamento de questões históricas no filme é detalhado de forma compreensiva no artigo “A África ‘pré-colonial’ no filme Ceddo (1977)”, que foi publicado em 2025 pelo professor universitário brasileiro Sílvio Marcus de Souza Correa.

 

 

PROGRAMAÇÃO

IMS Paulista
23/4/2026, quinta, 19h30
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard

26/4/2026, domingo, 17h40


Programação

IMS PAULISTA

22/4/2026, quarta
19h30 - Programa 1: As atualidades senegalesas
Sessão apresentada por Cristina Amaral

23/4/2026, quinta
19h30 - Programa 2 - Ceddo
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard

26/4/2026, domingo
17h40 - Programa 2: Ceddo
20h - Programa 1: As atualidades senegalesas


Ingressos

Vendas
Os ingressos do cinema podem ser adquiridos online ou na bilheteria do centro cultural, mais informações abaixo.

Meia-entrada
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem e maiores de 60 anos.

Cliente Itaú
Desconto de 50% para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

Devolução de ingressos
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.

Sessões com debate
As sessões com debate são gratuitas. Sujeita à lotação da sala. Distribuição de senhas 60 minutos antes do evento. Limite de 1 senha por pessoa.


IMS Paulista

Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Bilheteria: de terça a domingo, das 12h até o início da última sessão de cinema do dia, na Praça, no 5º andar.

Os ingressos para as sessões são vendidos na recepção do IMS Paulista e pelo site ingresso.com. A venda é mensal e os ingressos são liberados no primeiro dia de cada mês.


Sessão Mutual Films

Sessão Mutual Films é um evento bimestral com o propósito de criar diálogos entre as várias faces do meio cinematográfico, trazendo para o público, sempre que possível, filmes, restaurações e eventos inéditos em sessões duplas.