Fotografia e violência política no Brasil 1889-1964

Os fotógrafos

Tiê Higashi
Assistente de curadoria

Do franco-brasileiro Marc Ferrez ao baiano-carioca Evandro Teixeira, único fotógrafo vivo entre os expositores da mostra Conflitos, a autoria do conjunto de imagens que retrata a violência política no Brasil entre 1889 e 1964 reúne outros profissionais consagrados como Augusto Malta, Juan Gutierrez e Flávio de Barros, além de nomes menos conhecidos (Claro Jansson, por exemplo) e inúmeros anônimos e amadores.


Marc Ferrez (Rio de Janeiro, 1843 -1923)

Seu pai, escultor e gravador Zépherin Ferrez, veio para o Brasil em 1817, junto do irmão, também artista, para integrar a Missão Artística Francesa, participando da criação da Academia Imperial de Belas-Artes. Órfão aos sete anos, Marc Ferrez foi enviado a Paris para terminar os estudos, morando com a família do escultor e gravador de medalhas Joseph Eugène Dubois. Após dez anos na capital francesa, voltou ao Brasil e trabalhou na Casa Leuzinger, polo de publicações e produções fotográficas, onde aprendeu fotografia com o alemão Franz Keller.

Em 1865, abriu o estúdio fotográfico Marc Ferrez & Cia, especializado em vistas do Rio de Janeiro e retratos. Em 1870, tornou-se fotógrafo da Marinha Imperial e inventou um equipamento para fotografar um navio do convés de outro mantendo o enquadramento alinhado com o horizonte apesar do balanço das ondas.

No final de 1873, foi contratado pela Comissão Geológica e Geográfica do Império para realizar expedições fotográficas em todo o país. No fim do século XIX, registrou os estragos provocados em navios e instalações da marinha por ocasião da Revolta da Armada.

Sempre em busca dos melhores resultados técnicos e formais, Ferrez foi um incansável pesquisador de processos fotográficos. Em meio aos concursos nacionais e internacionais de que participava – e nos quais geralmente recebia destacado resultado –, comercializava produtos e artigos para fotografia, passando pela edição de livros e postais. Como empresário, em sociedade com Arnaldo Gomes de Souza, inaugurou o Cine Pathé em 1907, terceira sala de cinema do Rio de Janeiro, localizado na avenida Central (Rio Branco).

Mudou-se para Paris em 1915 para estudar fotografia em cores. No início da década de 1920, retornou ao Rio de Janeiro, pouco antes de sua morte.


Juan Gutierrez (Antilhas, c. 1860 – Canudos, 1897)

Nascido, provavelmente, nas Antilhas – outras fontes afirmam que ele teria nascido em Cuba ou na África –, chegou ao Brasil no fim da década de 1880. Em 1889, recebeu o título de “Photographo da Caza Imperial” e, logo depois, abriu a loja Photographia União, no centro do Rio de Janeiro. Passados dois anos, colocou o estabelecimento à venda para fundar, com outros sócios, o edifício da Companhia Photográphica Brazileira, espaço inteiramente dedicado à fotografia, com exposições, ateliês de impressão e laboratórios. Em poucos meses a sociedade foi desfeita. No mesmo endereço, João Gutierrez – nome que recebeu ao naturalizar-se brasileiro – abriu a J. Gutierrez, sua nova firma.

Em 1893, tornou-se responsável pelas imagens do então recém-lançado semanário O Álbum. No mesmo ano teve início a Revolta da Armada e, por ter participado do movimento pela Proclamação da República como tenente da Guarda Nacional, Gutierrez foi encarregado de fotografar o conflito em março do ano seguinte, já no fim.

No fim de 1896 eclodiu uma guerra na região de Canudos. Com o insucesso da primeira campanha militar no território, Gutierrez aceitou o convite para lutar na última campanha no sertão baiano, sob comando do general Silva Barbosa, que o promoveu de tenente a capitão da Guarda Nacional. Em abril do ano seguinte foi a Canudos, e em junho morreu em batalha. Euclides da Cunha dedicou uma passagem de Os sertões à morte do fotógrafo.


Flávio de Barros

No início de setembro de 1897, Flávio de Barros participou como soldado da Divisão Auxiliar da Quarta Expedição no território de Canudos. Ele tinha a função de fotógrafo-expedicionário, responsável por registrar e documentar as ações militares daquele conflito.

Poucas são as informações conhecidas sobre sua vida. Sabe-se que, anteriormente à fotografia, fora pintor de retratos; mantinha, segundo Boris Kossoy, um ateliê fotográfico em Salvador, o Photographia Americana, aberto em 1890.

Não se sabe o número preciso de imagens feitas por Flávio de Barros em Canudos. Seus registros cobrem diversos temas e foram arranjados em dez álbuns – dos quais se conhece apenas três –, com 72 imagens identificadas, três delas tendo sido publicadas nas primeiras edições do livro Os sertões, de Euclides da Cunha. Flávio de Barros também organizou exposições públicas de suas fotografias no Rio de Janeiro. Anunciadas pela imprensa da época, as projeções em grande formato tinham exibições pagas e se apoiavam no grande interesse que a guerra havia gerado na população.


Claro Jansson (Hedemora, Suécia, 1877 – Itararé, SP, 1954)

Chegou ao norte do Paraná em 1891, aos 14 anos, acompanhado do pai, da madrasta e de quatro irmãos. Dois anos depois, irrompeu a Revolução Federalista e Jansson foi compelido a se juntar às tropas legalistas, regressando após dois dias de campanha no Rio Grande do Sul. Em 1893, transferiu-se para Porto União da Vitória, na fronteira entre o Paraná e Santa Catarina, onde, por ser alfabetizado, logo pôde ascender socialmente. Em seguida, viveu na Argentina para trabalhar com transporte de madeira e erva-mate. Começou a fotografar de forma amadora durante os deslocamentos necessários a essa atividade. Aos poucos, adquiriu domínio técnico mais apurado e, em 1911, voltou ao Brasil para viver novamente em Porto União da Vitória. Estabeleceu-se como fotógrafo profissional e abriu o primeiro estúdio da região, realizando retratos e vistas, estas vendidas avulsas ou em álbuns. Nessa época, foi contratado pela Lumber para fotografar as atividades desenvolvidas pela empresa, uma das maiores madeireiras internacionais instaladas no país. Em 1912, eclodiu a Guerra do Contestado. Jansson fez o mais completo registro do conflito. Sua identificação política com as ações das forças de repressão e a grande qualidade técnica de suas fotografias lhe renderam o título de Primeiro Tenente da Guarda Nacional. Ao fim dos conflitos de 1924, fotografou a passagem da Coluna Paulista em direção ao sul do Paraná. Três anos mais tarde, mudou-se para Itararé, no interior de São Paulo, onde fotografou a passagem de Getúlio Vargas rumo à capital após o fim da Revolução de 1930. Em 1932, Jansson fotografou as tropas legalistas que vinham do sul para combater as forças paulistas durante a guerra civil no estado.

Augusto Malta (Mata Grande, AL, 1864 – Rio de Janeiro, 1957)

Em 1888, deixou Alagoas para morar no Rio de Janeiro, onde integrou a Guarda Municipal. Tendo a fotografia como hobby, fazia revelações caseiras em uma câmara escura improvisada. Em 1903, foi levado por um amigo que trabalhava na prefeitura para fotografar as obras do recém-eleito prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos. Logo fora contratado como fotógrafo oficial da Diretoria Geral de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal. No cargo criado especialmente para ele, Malta deveria captar imagens das ruas que teriam seu traçado modificado pelo projeto de reforma urbana em andamento.

Pereira Passos deixa o cargo em 1906; Malta, no entanto, continua a ocupar o posto por mais 30 anos, até a aposentadoria. Dois anos depois de entrar para a prefeitura, foi contratado também pela Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company Limited – a Light, como ficou conhecida. Responsável pela imagem oficial da modernização fluminense, registrou ainda grandes eventos, como a Exposição Nacional de 1908 e a exposição do Centenário da Independência em 1922; aspectos da vida cotidiana da capital e episódios excepcionais, caso das imagens da Revolta da Chibata.


Gustavo Prugner (São Bernardo do Campo, SP, 1884 – São Paulo, 1931)

No início do século XX, ganhou uma das câmeras distribuídas para promoção da loja de artigos fotográficos de Conrado Wessel, pai de um colega seu na Escola Alemã. Prugner passou então a trabalhar como fotógrafo e laboratorista. Registrou a Revolução de 1924 e se dedicou unicamente à produção de cartões-postais a partir de suas fotografias.

Acumulando as funções de fotógrafo e editor, Prugner investiu na produção de cartões-postais. Suas imagens podiam também ser adquiridas em álbuns que ele mesmo organizava. Apesar de sempre indicar as marcas GP em suas fotos, uma série delas fora veiculada nas revistas ilustradas e jornais da época sem identificação explícita.


Guilherme Santos (Rio de Janeiro, 1871-1966)

A partir de 1905, foi pioneiro na introdução da estereoscopia no Brasil. com a qual passou a registrar a paisagem urbana, o cotidiano, os habitantes e as festas da então capital do país. Em 1925 tornou-se membro do Photo Club Brasileiro. Era integrante da alta burguesia carioca e apoiava a volta da monarquia; foi também sócio do Theatro Lírico e membro da Sociedade Brasileira de Belas Artes.

Dentre seus conjuntos fotográficos mais importantes está o registro da Revolução de 1930 no Rio de Janeiro. Santos documentou o fim do conflito, após a vitória do movimento revolucionário, e os vários ataques às sedes dos jornais governistas, como O Paiz, A Gazeta e A Vanguarda. Apesar de registrar a rua no momento da ação, o fotógrafo parecia se afastar da cena, colocando-se de fora da multidão.

Em 1945, registrou o desmonte do Morro do Castelo. Essas imagens ganhariam destaque na mídia, resultando em grande interesse por sua coleção.


Aniceto de Barros Lobo

Barros Lobo é figura importante para o entendimento do estatuto da fotografia profissional em São Paulo. Foi editor, jornalista e publicitário do primeiro periódico paulista sobre fotografia, a Illustração Photográphica, “uma revista científica mensal e de ensino de photographia e artes correlativas”. O primeiro número, de abril de 1919, vinha encartado junto do caderno Illustração de São Paulo. Na segunda edição a revista tornou-se autônoma, graças à parceria com a Casa Stück, especializada em materiais fotográficos.

A Illustração Photográphica se propunha a promover e a discutir fotografia para além do círculo fechado e especializado dos fotoclubes. Os textos, todos escritos por Barros Lobo, tratavam de questões variadas em torno da profissionalização e da institucionalização da fotografia, debatendo direitos autorais, fotografia aérea e concursos, entre outros temas.
Em 1914, surgem os primeiros anúncios do estúdio Photo Lobo em jornais. O estabelecimento se apresentava como uma agência jornalística, oferecendo reportagens fotográficas, serviços de reproduções e ampliações, além de distribuição e venda de fotografias para outros veículos de imprensa. Barros Lobo foi também fotógrafo das revistas Pirralho e Careta.


Phil Schaefer

Foi um fotógrafo alemão que estabeleceu seu estúdio na Rua da Imperatriz Tereza Cristina, no centro de Recife. Registrou os acontecimentos da Revolução de 1930 na cidade.


Benjamin Abrahão (Zahlé, Líbano, 1890 – Águas Bellas, PE, 1938)

Veio do Líbano para o Brasil em 1915, onde já morava parte de sua família, fugindo da convocação para lutar na Primeira Guerra Mundial. Estabeleceu-se primeiro em Recife, onde atuou no comércio de tecidos e de produtos típicos do Nordeste, e, cinco anos depois, em Juazeiro do Norte, atraído pela forte peregrinação à região. Nesta cidade, tornou-se secretário pessoal de Padre Cícero. Conheceu Lampião em 1926, quando este foi à cidade receber a bênção do célebre vigário e a patente de capitão. Abrahão organizou os encontros de Lampião com a imprensa local.

Em 1934, após a morte de Padre Cícero, Abrahão propôs a Adhemar Albuquerque, dono da Aba Film, fotografar e filmar o grupo do cangaceiro. Dois anos depois, com um filme 35 mm, passou de junho a outubro no sertão registrando cenas do cotidiano de Lampião e seu bando. Tanto o filme quanto as fotografias foram, em 1937, censurados pelo Departamento de Imprensa e Propaganda do regime de Getúlio Vargas. Nesse mesmo ano, Benjamin Abrahão foi morto com 42 facadas, sem que o crime jamais viesse a ser esclarecido.


Mário de Moraes (Rio de Janeiro, 1925¬-2010)

Começou a carreira de jornalista-fotográfico em 1942, aos 17 anos, como repórter do jornal O Radical e, logo depois, da revista Fon-Fon!. Membro da Associação Brasileira de Imprensa desde 1948, dois anos depois, passa a fazer parte da equipe fotográfica da revista O Cruzeiro, onde recebeu o seu primeiro Prêmio Esso. No mesmo período, trabalhou na TV Tupi como assistente de direção e, em 1964, torna-se chefe de reportagem da Rede Globo no primeiro telejornal da emissora, o TeleGlobo. No ano de 1966, é convidado para retornar à revista O Cruzeiro, como diretor de redação. Mário de Moraes recebeu o segundo Prêmio Esso pela criação da Revista da Comunicação.


Campanella Neto (Pouso Alegre, MG, 1932 – Rio de Janeiro, 2004)

Começou a fotografar aos 14 anos. Pouco tempo depois, mudou-se para São Paulo, trabalhando como revelador no laboratório da Fototica. No início da década de 1950, atraído pelo impulso do fotojornalismo, foi para o Rio de Janeiro e trabalhou no jornal A Noite. Em 1956, passou a colaborar com a revista Mundo Ilustrado, do Diário de Notícias e a fotografar para o Jornal do Brasil, onde consolidou sua carreira de fotojornalista.

Acompanhou com sua câmera importantes acontecimentos da segunda metade do século XX, da morte de Getúlio Vargas à construção do Muro de Berlim. Em 1959, recebeu o Prêmio Esso pela cobertura fotográfica da Revolta de Aragarças, em Goiás. A partir de 1967, tornou-se subeditor do Jornal do Brasil, permanecendo no cargo por 20 anos.


Evandro Teixeira (Irajuba, BA, 1935)

Aproximou-se da fotografia em 1958, ao estagiar no Diário de Notícias de Salvador. Logo se mudou para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar como fotógrafo do Diário da Noite. Cinco anos mais tarde, transferiu-se para o Jornal do Brasil, onde atuou até 2010 e se consolidou como fotojornalista. Fotografou desde importantes momentos da política no país até grandes eventos esportivos. É conhecido pelos registros de rua feitos em 1968, que mostram a forte repressão e violência militar contra o movimento estudantil, no início do período da ditadura militar.