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Duas décadas de IMS Rio

27 de setembro de 2019 |

Projetada por Olavo Redig de Campos em 1948 como residência da família do embaixador e empresário Walther Moreira Salles, que passaria a morar ali em 1951, a construção de elegantes linhas modernistas valorizadas pelo paisagismo luxuriante de Burle Marx está comemorando 20 anos como centro cultural. Em 1 de outubro de 1999, a casa na Gávea abriu suas portas para o público abrigando o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Desde a primeira exposição, Rio de Janeiro 1825-1927, que reunia iconografia e fotografias sobre a cidade, o espaço já recebeu 1.820.000 visitantes em outras centenas de mostras, shows, palestras, cursos e milhares de sessões de cinema. Para comemorar a data, o IMS Rio promove, ao longo de todo o mês de outubro, uma programação que começa exatamente dia 1, às 11h, com a reinauguração do jardim e a abertura de uma exposição institucional permanente sobre a própria casa. Um show de Lenine homenageando Jackson do Pandeiro (no dia 6) e atividades educativas variadas para crianças e adultos completam a festa.

Em duas décadas o IMS Rio foi cenário de exposições de renomados artistas visuais brasileiros (Fayga Ostrower, Gonçalo Ivo, Arthur Piza, Roberto Magalhães, Rosângela Rennó) e estrangeiros (Saul Steinberg, Richard Serra, William Kentridge, William Eggleston, Anri Sala), assim como foi palco de shows memoráveis (João Bosco, Elton Medeiros, Elza Soares, Paulinho da Viola, Nelson Sargento). Sem contar as mostras de grandes nomes cujas obras integram o gigantesco acervo do instituto, em constante expansão: em 2019 são aproximadamente 2 milhões de imagens na área de Fotografia; 11.800 na Iconografia; mais de 170 mil itens em Literatura; e quase 240 mil na Música, sem contar o acervo Walther Moreira Salles, a Biblioteca de Fotografia e a Memória institucional, totalizando 229 arquivos e coleções.

“É uma casa de memória. Da memória que confere identidade e precisa ser preservada também como fiadora de liberdade. Da liberdade de enxergar com cuidado e espírito crítico, o passado, o presente e o futuro”, escreve Flávio Pinheiro, superintendente executivo do IMS, no texto que acompanha a exposição permanente IMS Rio – Casa e jardim.

O jardim, aliás, está no centro das comemorações. Tombado pelo patrimônio histórico municipal, assim como a própria casa, ele foi devastado pelo temporal que provocou grandes danos ao Rio de Janeiro em fevereiro de 2019, desde então ele vem passando por um cuidadoso processo de restauração sob a batuta do Escritório Burle Marx. Ganhou novas mudas de espécies que já existiam ali e foram derrubadas pela tempestade, outras que foram incorporadas ao espaço, uma nova iluminação e aproximou-se mais das formas orgânicas criadas originalmente para a área pelo paisagista. A reinauguração será celebrada com a distribuição aos visitantes, ao longo do dia, de 300 mudas de várias espécies, e a reedição do Guia do Jardim, hoje esgotado, acompanhado de um marcador que traz um pequeno texto sobre a restauração.

A partir de terça-feira também estará aberta a exposição IMS Rio – Casa e Jardim, apresentada de forma permanente na Sala de Azulejos, que já abriga duas maquetes (uma delas tátil) da casa. Ali o público conhecerá um pouco mais sobre Redig de Campos – há um croqui feito pelo arquiteto modernista em uma das paredes – e sobre Roberto Burle Marx, além de apreciar ângulos diversos do centro cultural, feitos em épocas distintas. A mostra reúne 30 imagens registradas pelos fotógrafos Marcel Gautherot (em 1954), Carlos Moskovics (em 1985), Cristiano Mascaro (em 1999) e Robert Polidori (em 2009), que revelam os amplos espaços envidraçados, a fonte no jardim interno, a varanda dos cobogós (um dos cantos mais fotografados do IMS Rio), o painel de azulejos criado por Burle Marx para ornamentar o lago das carpas, a vegetação exuberante.

Um pouquinho desses espaços, aliás, também poderá seguir com os visitantes. No dia 1 a loja do IMS Rio começa a vender a linha de produtos comemorativa do aniversário, da qual faz parte uma nova série de cartões-postais. Entre eles está, por exemplo, um detalhe das maçanetas douradas das portas da casa, moldadas a partir da mão de Walther Moreira Salles, e que são uma grande atração para o público. “São muitos os pedidos de postais com as maçanetas, e nesse conjunto queríamos contemplar todas as áreas da casa”, conta Elizabeth Pessoa, diretora do IMS Rio desde sua inauguração. “Temos o cobogó, a fachada, a piscina, o jardim…” Os postais trazem imagens que integram a exposição institucional, além de outras mais recentes, como a da maçaneta, feitas por Ailton Silva, responsável pelo laboratório fotográfico do IMS. Caneca, lápis, bolsa, caderno e porta-copos (estes inspirados nas formas geométricas vazadas dos cobogós) complementam a linha comemorativa.

Na grade da programação especial está o show Jack Soul Brasileiro, homenagem do cantor e compositor Lenine a Jackson do Pandeiro, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado em 2019. Dia 6 de outubro, às 18h, acompanhado por seu violão, Lenine lembrará algumas músicas de referência do compositor paraibano. O show acontece no cineteatro do IMS Rio e os ingressos estão esgotados (há uma fila de espera), mas o espetáculo também será transmitido ao vivo num telão para quem estiver no jardim.

A partir dos registros minuciosos dos números de visitantes (são aproximadamente 100 mil por ano) e atividades (mais de 25 mil em duas décadas) feitos desde a inauguração do IMS Rio, Elizabeth Pessoa vai lembrando os grandes momentos ao longo do período. Entre as 144 exposições apresentadas até agora, as maiores visitações pertencem a O Brasil de Marc Ferrez, em 2005, e Rio: primeiras poses, em 2015.  A observação da planilha também mostra as mudanças ocorridas dentro da própria programação do centro cultural. Se antes as atividades eram mais homogêneas, itinerando pelas outras unidades – além do IMS Poços, fundado em 1992, e do IMS Higienópolis, desativado em 2016 e substituído pelo IMS Paulista, em 2017, havia ainda o IMS em Belo Horizonte, fechado em 2009 –, na última década a programação passou a ser mais orgânica, lembra Elizabeth.

“É a época em que o IMS começa a expandir bastante os acervos, e isso se reflete na programação, que cresce igualmente”, conta a diretora. “Tem início uma série de atividades em torno dos acervos, como o Dia D, que celebra Carlos Drummond de Andrade, e Hora de Clarice, para Clarice Lispector. Então procuramos uma programação com uma personalidade própria do IMS, mas que um pouco adaptada às cidades”.

Cartazes da exposição <em>Rio de Janeiro - 1825-1927</em>, que abriu o IMS Rio, em 1999 / Acervo IMS
Folhetos da exposição Rio de Janeiro - 1825-1927, que abriu o IMS Rio, em 1999 / Acervo IMS

Apesar da consolidação do espaço como ponto de cultura inequívoco no Rio, ainda há muitos desafios pela frente, lembra Elizabeth. Há 20 anos a cidade tinha menos oferta na área, e a circulação urbana era mais fácil. “A cidade mudou muito, e o acesso, em geral, ficou mais difícil. Não é especificamente a Gávea, é o Rio como um todo”, analisa Elizabeth. “Então sabemos que o visitante do IMS Rio vem pelo lugar, porque quer estar aqui, porque não é um bairro de passagem. Por isso nosso número de visitação é muito significativo. É muito bom saber disso”.