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2026 no IMS traz Fernando Lemos, Ara Güler, acervo Zumví, Albert Frisch, Stefania Bril, Liti Guerreiro e outros destaques

18 de dezembro de 2025 | Equipe IMS
Eu, poeta, 1949-1952. Foto de Fernando Lemos/Acervo IMS

Em 2026, o Instituto Moreira Salles exibirá, no IMS Paulista, exposições que destacam trajetórias de fotógrafos, arquivos e figuras importantes nos cenários da arte, da militância e da memória. A programação apresenta dois titulares do Acervo do IMS: Fernando Lemos (1926-2019) e Albert Frisch (1840-1918).

Desocultação exibirá a obra multifacetada de Lemos, artista, fotógrafo, editor, designer, escritor e pensador português naturalizado brasileiro, cujo arquivo está depositado no IMS desde 2019.  Reimaginar a Amazônia. A expedição fotográfica de Albert Frisch atravessada pelas vozes do rio parte das primeiras imagens fotográficas conhecidas da Amazônia e de seus habitantes originários, realizadas por Frisch, para as interrogar e problematizar, propondo uma reflexão sobre o papel colonial da fotografia no século XIX. Duas artistas indígenas, Jé Hãmãgãy e Jeguakuai Charrua, redefinem essas imagens a partir de trabalhos realizados no contexto da Bolsa IMS de Pesquisa em Fotografia. Outras pesquisadoras, artistas e representantes das comunidades indígenas retratadas por Frisch também participam da exposição.

Jorge do Espírito Santo, pesquisador, na primeira sede do Zumví, na Igreja da Penha. Lázaro Roberto, Salvador; 1990. Fotografia em preto e branco, negativo em 35mm. Zumví Arquivo Afro Fotográfico

Também no centro cultural de São Paulo, a exposição Zumví Arquivo afro fotográfico apresentará 400 fotografias do arquivo negro e periférico Zumví, fundamental para a história da fotografia e do movimento negro no Brasil. A obra de Ara Güler (1928-2018), fotógrafo turco associado à agência Magnum e mais importante cronista visual das transformações pelas quais passou sua cidade natal, Istambul, na segunda metade do século XX, estará presente em Ara Güler | Istambul, com cerca de 200 imagens. Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello aborda a trajetória, o pensamento e a militância de Laudelina de Campos Mello (1904-1991), sindicalista e importante ativista na luta pelo reconhecimento e valorização do trabalho doméstico, também atuante na luta antirrracista. Já a Biblioteca de Fotografia realiza uma mostra de fotolivros de mulheres, sua primeira colaboração internacional, em parceria com o coletivo 10x10 Photobooks.

Pescadores voltando ao porto de Kümkapi, Istambul, 1950. Foto de Ara Güler

O IMS Poços receberá a exposição Stefania Bril: desobediência pelo afeto, que já esteve em cartaz no IMS Paulista entre 2024 e 2025. Nela, é ressaltada a particularidade do olhar fotográfico de Stefania Bril (1922-1992), polonesa que emigrou para o Brasil após a Segunda Guerra, e seu compromisso pedagógico de difusão da arte fotográfica. O centro cultural de Poços de Caldas apresentará ainda a obra singular de Liti Guerreiro, artista da região que, além de uma pintura única, produz peças a partir de materiais que encontra na natureza, em andanças pela região.

As parcerias na cidade do Rio de Janeiro se mantêm, enquanto prosseguem as obras de restauro e reforma do IMS Rio, o centro cultural na Gávea. Inaugurada em dezembro de 2025 no Paço Imperial, a exposição Luiz Braga – Arquipélago imaginário continua em cartaz até 1º de março de 2026. Vista primeiramente no IMS Paulista, a mostra reúne cerca de 250 fotografias realizadas ao longo de 50 anos de trajetória do fotógrafo paraense. O atendimento a pesquisadores segue sendo realizado na sede administrativa do IMS na rua do Russel, na Glória.

No exterior, continua em cartaz até 30 de abril, no Centro de Fotografía de la Intendencia Montevideo, a exposição Walter Firmo: en el verbo del silencio, la síntesis del grito, um grande panorama da obra do fotógrafo carioca, que estreou em 2002 no IMS Paulista e já foi exibida em outras cinco cidades do Brasil.

Sucrilhos. Dany Bulhert e Jacqueline Bril, Campos do Jordão, abril de 1973. Foto de Stefania Bril. Acervo IMS / Arquivo Stefania Bril

O Cinema marca presença com uma retrospectiva da obra do cineasta iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016), nas salas de São Paulo e Poços de Caldas. O público poderá assistir a filmes restaurados em 2k, alguns, até pouco tempo atrás, bem raros. É o caso de sua produção inicial, dos anos 1970 e 1980, realizada na divisão cinematográfica do Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens, administrado pelo governo, no período que antecedeu e sucedeu a Revolução Iraniana de 1979. Entre os cerca de 30 filmes da mostra encontram-se ainda os premiados Gosto da cereja (1997), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, e O vento nos levará (1998), Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza.

Entre os projetos da área de Educação programados para 2026, destaca-se, no Rio de Janeiro, a Escola Escuta, plataforma de formação do IMS voltada ao campo da cultura e da arte, concebida para mobilizar diálogos entre territórios populares e seus protagonistas. Serão lançados o livro O que fazemos quando encontramos uma imagem?, com uma versão física, distribuída gratuitamente a escolas da rede pública, e uma versão digital, disponível para download, e ainda, no campo das publicações, os Cadernos de mediação cultural, pensados a partir das exposições realizadas pelo IMS. No IMS Poços, continuará o atendimento estendido aos municípios circundantes, iniciado em 2025.  A equipe de educação receberá não apenas escolas públicas da cidade, mas também dos municípios limítrofes, uma ampliação do alcance territorial que fortalece o acesso das redes públicas às ações educativas do IMS.

Na área de Acervo, o Instituto Moreira Salles acaba de promover uma grande mudança em sua base de dados, com a migração para uma nova plataforma que disponibiliza em sua interface pública on-line mais de 150 mil itens das áreas de Fotografia, Iconografia, Literatura, Música, Arte Contemporânea e Centro de Memória e Documentação. Mais de 11 mil obras estão em domínio público, podendo ser baixadas e utilizadas por pesquisadores, acadêmicos e interessados em geral, com o devido crédito. O acesso é feito através de acervos.ims.com.br.


Sinopses das exposições previstas para 2026

 

São Paulo (SP)

IMS Paulista

 

O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres (1843–1999)

17 de março a julho de 2026

A Biblioteca de Fotografia recebe em março sua primeira colaboração internacional, organizada em parceria com o coletivo 10x10 Photobooks, organização fundada pela americana Russet Lederman e pela polonesa Olga Yatskevich para promover o engajamento com a comunidade global de fotolivros. Salas de leitura dessa mostra já passaram por instituições como o Museo Reina Sofía (Madri), o Getty Research Institute (Los Angeles) e a New York Public Library. A exposição propõe uma leitura da história do fotolivro feita por mulheres — do século XIX até o fim do XX. Reúne publicações clássicas e raras, além de obras pouco conhecidas que expandem o entendimento sobre o papel das mulheres na fotografia. A versão apresentada no IMS terá cerca 100 livros do acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista, incluindo alguns títulos que fazem parte da recente aquisição de 111 volumes de uma coleção de livros (realizada junto à 10x10), bem como novas adições de livros de autoras brasileiras que ainda não compunham a seleção.

 

Zumví Arquivo afro fotográfico

28 de março a 23 de agosto

A exposição apresenta uma ampla  abordagem sobre o acervo do Zumví, arquivo negro e periférico fundamental para a história da fotografia e do movimento negro no Brasil. Criado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, e tocado hoje por Lázaro Roberto e pelo historiador José Carlos Ferreira, o Zumví surgiu do compromisso de registrar a vida negra na Bahia a partir de suas próprias vivências, em um período em que a população negra raramente era fotografada por mãos também negras. A mostra reúne cerca de 400 fotografias, organizadas em 18 temáticas, entre elas Movimento Negro, Blocos Afro, Afoxés, Feira de São Joaquim, Quilombo do Rio das Rãs, Mandela na Bahia, Teatro Negro, Movimento Hip Hop, Universo Reggae, – que revelam a amplitude do acervo, das mobilizações políticas às práticas culturais, das religiosidades de rua aos mercados populares e estúdios comunitários. Integra também a mostra o documentário Acervo Zumví – O levante da memória (2021, dirigido por Íris de Oliveira). A curadoria é de Hélio Menezes, com assistência curatorial de Ariana Nuala, pesquisa de Elson Rabelo e Vilma Neres.

 

Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello

16 de maio a 18 de outubro

Vista pela primeira vez no IMS Poços em 2025, a exposição apresenta a trajetória, o pensamento e a militância de Laudelina de Campos Mello (Poços de Caldas/MG, 1904 – Campinas/SP, 1991), sindicalista e importante ativista na luta pelo reconhecimento e valorização do trabalho doméstico e pela conquista de direitos para a categoria, também atuante na luta antirrracista. Reconhecida como a fundadora do primeiro sindicato das empregadas domésticas no país, Laudelina dedicou-se a combater a exploração e os abusos contra essas profissionais e atuou também para que as trabalhadoras domésticas do país tivessem não apenas seus direitos garantidos, como gozassem de uma vida digna. Por meio de fotografias, documentos e objetos históricos, em diálogo com as artes visuais e o audiovisual, como obras de Rosana Paulino, Dayane Tropicaos e Arjan Martins, a mostra conta a história de vida de Laudelina, relacionando-a com a questão do trabalho doméstico no Brasil – uma das marcas indeléveis da escravidão –, assim como questões referentes ao sindicalismo, ao associativismo negro, a questões político-culturais e o direito ao descanso. A curadoria é de Raquel Barreto e Renata Sampaio, com assistência de curadoria de Phelipe Rezende.

 

Reimaginar a Amazônia. A expedição fotográfica de Albert Frisch atravessada pelas vozes do rio

Setembro de 2026 a fevereiro de 2027

A exposição traz o álbum Résultat d´une expédition photographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro de Christoph Albert Frisch (1840-1918), que reúne as primeiras imagens fotográficas conhecidas da Amazônia e de seus habitantes originários, como centro de uma reflexão sobre o papel colonial da fotografia no século XIX. O álbum de Frisch foi uma das vertentes do projeto moderno de colonização da Amazônia e responsável pela criação de um imaginário visual sobre esse território, ainda hoje vigente. Além de 98 pranchas originais de Frisch, a exposição reúne obras de duas artistas indígenas, Jé Hãmãgãy e Jeguakuai Charrua, que redefinem essas imagens a partir de trabalhos que fizeram no contexto de uma bolsa de pesquisa do IMS. Os povos Kaixana, Omágua, Kambeba, Miranha, Mura e Tikuna, retratados pelo fotógrafo alemão, contribuirão para uma reinterpretação decolonial das suas representações, na companhia de trabalhos específicos realizados pela artista de origem indígena e afrobrasileira maranhense Gê Viana. A curadoria é de Aline Ambrósio e Ileana Pradilla Ceron, com assistência de curadoria de Leticia Puri.

  

Desocultação

Setembro de 2026 a janeiro de 2027

A retrospectiva Desocultação, de Fernando Lemos (Lisboa, 1926 – São Paulo, 2019), marcará o centenário de nascimento do artista, fotógrafo, editor, designer, escritor e pensador português, naturalizado brasileiro. A exposição apresentará a produção multifacetada do artista a partir do estudo, inventário e catalogação de seu arquivo, relacionando-o com outras dimensões de sua produção, notadamente a escrita e o desenho. Também se debruçará sobre a contribuição de Lemos para o debate artístico no Brasil e sua atuação contra as ditaduras de Portugal e do Brasil. Ao longo da vida, Lemos trabalhou com a ideia de “desocultação”, usando sua arte, fotografia e desenho para enfrentar seus medos e desejos, mas também revelar dimensões inesperadas de nossa humanidade. Nas profundezas do inconsciente, foi buscar a liberdade que precisava para lutar contra as limitações físicas, as perseguições políticas e as barreiras da arte. Com curadoria de Thyago Nogueira, a exposição Desocultação investigará as relações entre fotografia e desenho, luz e sombra, grão e traço, a partir de um mergulho inédito no arquivo de Fernando Lemos depositado desde 2019 no Instituto Moreira Salles.

 

Ara Güler / Istambul

14 de novembro de 2026 a 11 de abril de 2027

Com curadoria de Samuel Titan (IMS) e Tuana Pulak (da Fundação Ara Güler, em Istambul), a exposição tem como tema a obra do fotógrafo turco Ara Güler (1928-2018), o mais importante cronista visual das transformações pelas quais passou sua cidade natal, Istambul, na segunda metade do século XX. Como fotojornalista e como membro da agência Magnum, Güler cobriu diversos episódios da história moderna na Turquia e no exterior, mas a mostra no IMS será devotada quase exclusivamente ao olhar do fotógrafo sobre Istambul, por meio de cerca de 200 imagens em preto e branco, quase sempre das décadas de 1950 e 1960. Cidade milenar às voltas com a modernização frenética do século XX, a Istambul de Güler passa longe do cartão postal e vai se revelando caleidoscopicamente, em camadas e ângulos por vezes discordantes, com grande protagonismo de personagens populares. A mostra se inscreve na sequência de outras ocasiões em que o Instituto  Moreira Salles se debruçou sobre a fronteira tênue e fértil entre fotojornalismo e criação artística, a exemplo das exposições sobre Sérgio Larrain (2019) e Joseph Koudelka (2024).

Poços de Caldas (MG)

IMS Poços

 

Stefania Bril: desobediência pelo afeto

7 de março a 2 de agosto

Primeira exposição individual depois de quase cinco décadas da última mostra organizada com o trabalho da fotógrafa polonesa que emigrou para o Brasil nos anos subsequentes ao fim da Segunda Guerra. Stefania Bril (1922-1992) desenvolveu sua obra principalmente nos anos 1970, e teve importante atuação como crítica e curadora, trabalhando ativamente na construção de um circuito cultural para a fotografia no Brasil no contexto da abertura democrática. Com novas ampliações de suas fotos, muitas delas inéditas, além de vintages e materiais de arquivo, a exposição ressalta a particularidade de seu olhar fotográfico – que se dá em chave feminina, calcado no afeto e na desobediência às lógicas dominantes – e seu compromisso pedagógico de difusão da arte fotográfica. Stefania Bril: desobediência pelo afeto foi exibida pela primeira vez no IMS Paulista, de agosto de 2024 a janeiro de 2025. A curadoria é de Ileana Pradilla e Miguel Del Castillo, com assistência de curadoria de Pamela de Oliveira.

 

Liti Guerreiro

29 de agosto de 2026 a 31 de janeiro de 2027

Artista autodidata da região de Poços de Caldas, Liti Guerreiro tem uma trajetória única: foi caçador grande parte de sua vida, é compositor de mais de 3.000 canções, erveiro e raizeiro. Sua pintura, que varia da figuração popular à abstração, é incomum, assim como são radicalmente singulares as suas criações escultóricas, que utilizam objetos da natureza que encontra em suas longas caminhadas, como raízes, pedaços de árvores, pedras e ossos de animais. É essa mitologia individual, fruto de sua criação incessante e construída a partir de suas andanças pela região, que será exibida na exposição que tem curadoria de Marcela Vieira e Deyson Gilbert. A mostra reunirá pinturas, esculturas, músicas e textos (poesia e prosa).

Rio de Janeiro (RJ)

Instituições parceiras

 

Luiz Braga – Arquipélago imaginário

Até 1º de março

Inaugurada em 9 de dezembro no Paço Imperial, a exposição com curadoria de Bitu Cassundé apresenta uma seleção com cerca de 250 fotografias realizadas ao longo de 50 anos de trajetória do fotógrafo paraense. A partir do arquivo do artista, o recorte não linear de imagens delineia a dimensão do imaginário sensível e ficcional de Luiz Braga (Belém, PA, 1956) sobre o território amazônico, principal interesse em sua produção. O título da mostra se refere ao chamado arquipélago do Marajó, maior arquipélago fluviomarítimo do mundo, formado por mais de 2.500 ilhas no estado do Pará, que inclui a capital Belém e a Ilha do Marajó, lugares registrados por Braga. Ao escolher a terra natal como campo poético de investigação de imagem e vida, ao longo das décadas o fotógrafo elabora operações relacionais de aproximação e convívio com as pessoas e lugares registrados. O resultado é uma produção intensa, carregada de intimidade e cuidado com os sujeitos e ambientes, que compreende aspectos de uma Amazônia múltipla. Luiz Braga – Arquipélago Imaginário foi um dos grandes destaques do IMS Paulista em 2025.