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Mulheres em luta

07 de maio de 2026

O filme Aqui não entra luz está em cartaz nos cinemas do IMS Paulista e IMS Poços.

 

Dois filmes brasileiros dirigidos e protagonizados por mulheres são o destaque da semana nos cinemas: o documentário Aqui não entra luz, de Karol Maia, e o drama/suspense/libelo Eclipse, de Djin Sganzerla. São, de certa forma, opostos e complementares, lidando, cada um à sua maneira, com a resistência feminina à nossa herança histórica patriarcal.

Comecemos por Eclipse, centrado, em princípio, na história de um casal de classe média na faixa dos quarenta anos: a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla) e o advogado Tony (Sergio Guizé). Ela está grávida do primeiro filho e os dois parecem o modelo perfeito de harmonia civilizada e amorosa. Tão perfeito que o espectador já desconfia de cara que há algo sombrio e ameaçador à espreita, como a magnífica onça pintada que ronda uma floresta na primeira imagem do filme.

O drama se complica, em mais de um sentido, com a entrada em cena da meia-irmã de Cleo, Nalu (Lian Gaia), uma moça de origem indígena que está fugindo da fazenda onde trabalhava como administradora, depois de ter reagido ao assédio violento do jovem filho (Pedro Goifman) do patrão (Luís Melo).

A chegada de Nalu desvela um quadro histórico-social-étnico com o qual ela quer romper: o do patriarca que mantem sua família “oficial”, branca e sorridente, enquanto desfruta clandestinamente de mulheres de classes subalternas, muitas vezes indígenas ou negras, eventualmente emprenhando-as de filhos e filhas que eles abandonam à própria sorte.

 

Suspense duplo

O duplo suspense de Eclipse pode ser resumido assim: Nalu escapará de seus prováveis perseguidores, capangas do patrão fazendeiro? O casal Cleo/Tony romperá com o ciclo de opressão machista e eventualmente pedófila da nossa sociedade?

O projeto de Djin Sganzerla é ambicioso, buscando articular drama pessoal, suspense e manifesto social num todo orgânico, coerente e verossímil. O desejo de abarcar tantos temas talvez desande aqui e ali, com a intenção da mensagem pesando ocasionalmente sobre a fluência narrativa.

Mas a força unificadora de Eclipse reside, a meu ver, na sua construção poética. Essa construção tem como balizas ou alicerces as imagens recorrentes da onça – signo de beleza e violência – e do eclipse – imagem do obscurecimento, da obliteração, mas também do encontro de opostos, como na bela lenda indígena narrada por Nalu. Em seus melhores momentos o filme conecta o drama dos personagens às dimensões da natureza e do cosmos.

Isso se dá por meio de uma fotografia exuberante (de André Guerreiro Lopes), feita de forte contraste e cores vívidas, a um passo da saturação, até mesmo nas cenas mais escuras, ou sobretudo nelas. Há, como poucas vezes se tem visto no cinema recente, uma aposta na sombra e no negrume como forma de valorizar a luz e, ao mesmo tempo, de criar incerteza. Uma coisa linda de se ver.

 

Aqui não entra luz

Se Eclipse atesta o amadurecimento de Djin Sganzerla como cineasta, o documentário de Karol Maia pode ser visto desde já como um marco na nossa cinematografia. A partir de uma reflexão sobre o quarto de empregada – esse resquício da escravidão que conecta a trabalhadora doméstica à mucama e o próprio quartinho à senzala –, a diretora investigou a condição e a história dessas profissionais em diversos pontos do país: Rio, Minas, Bahia, Maranhão, São Paulo.

Aqui faz pleno sentido a desgastada expressão “lugar de fala”. Filha de uma empregada doméstica, quando criança Karol acompanhou a mãe em diversas “casas de família” paulistanas. Diferentemente das outras trabalhadoras entrevistadas no filme, a mãe não dormia no emprego. Mas as “dependências de empregada” – esse espaço apertado e sem janela, às vezes menor que o closet da patroa – sempre intrigaram a cineasta, que dedicou oito anos a esse filme.

Ainda que acabe por perder um pouco o foco, abandonando na maior parte do tempo o prisma sócio-arquitetônico, o documentário aborda trajetórias de vida variadas e tocantes, de mulheres que sobreviveram às condições materiais e morais mais duras possíveis e contam suas histórias de olhos enxutos e não raro com humor delicioso. Não são talking heads, são pessoas mostradas inteiras, em seu dia a dia e em imagens de arquivos domésticos. São vidas que pulsam na tela.

Com essas biografias singulares se compõe um painel chocante da nossa formação histórica feita de opressão de classe e de raça. Crianças vendidas ou entregues pela família para trabalhar sem remuneração, adolescentes abusadas pelos patrões, mulheres idosas mantidas praticamente em cárcere privado – há de tudo nesses relatos.

De quebra, desmascara-se a frase usada com mais frequência para edulcorar a opressão: “Ela é como se fosse da família”. “É como se fosse, mas não é”, resume, indignada, uma dessas mulheres. “Não estuda como os filhos do patrão, não viaja, não pode sair, não senta na mesa do almoço, não tem herança.”

A par dessas marcas de continuidade da exploração, o filme registra também as mudanças, as lentas e duras conquistas trabalhistas e sociais. Uma das entrevistadas conta com um sorriso orgulhoso que viu pela TV, junto com os patrões, a promulgação por Ulysses Guimarães da Constituição de 1988, com os direitos das domésticas.

 

Exemplo vivo

A própria Karol Maia é o exemplo vivo de que as coisas mudam. Filha de empregada doméstica, tornou-se diretora e produtora de webseries e cineasta de respeito: Aqui não entra luz ganhou o prêmio de direção no último Festival de Brasíla, concorrendo com nomes como Ruy Guerra, Guto Parente, José Eduardo Belmonte e Torquato Joel.

Narrado em primeira pessoa pela própria diretora, o filme culmina com diálogos entre Karol e sua mãe, que a princípio resistiu em participar. A certa altura, a cineasta diz que, nas suas sessões de terapia, receava que suas confidências fossem ouvidas pela mãe, que fazia faxina no consultório da psicóloga. Em outra passagem, lembra que sua demissão como aprendiz de uma empresa foi presenciada pela mãe, que trabalhava de faxineira no escritório. Nessas conversas divertidas e comoventes entre mãe e filha está resumida uma parte importante da nossa história social, uma parte aonde ainda entra muito pouca luz.