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O cinema de nossa gente

12 de setembro de 2018

Haverá uma retrospectiva de Joaquim Pedro de Andrade no IMS Rio de 11 a 24 de outubro de 2018. A mostra, por ocasião dos 30 anos do falecimento do cineasta, apresenta 14 títulos, todos exibidos em cópias restauradas em 35 mm. A programação também passou pelo IMS Paulista de 6 a 23 de setembro de 2018. 

Joaquim Pedro de Andrade em 1971. Foto: Arquivo/Agência O Globo

“Só sei fazer cinema no Brasil. Só sei falar de Brasil. Só me interessa o Brasil.”
(Joaquim Pedro de Andrade)

Pensar o Brasil e sua gente em meio a uma história plena de contradições sempre foi o cerne do cinema de Joaquim Pedro de Andrade. Nunca de maneira panegírica ou reducionista, mas com uma argúcia ferina e incisiva. Tratando de futebol ou de carnaval, duas grandes paixões nacionais, o cineasta foi direto ao ponto: o Brasil muitas vezes não conhece, ou se esquece de tentar compreender, o que é de fato o Brasil. E é nisso que reside a atemporalidade de seus filmes. Filho dos mineiros Graciema e Rodrigo Melo Franco de Andrade, talvez venha daí a explicação de seu interesse pela preservação da memória nacional, já que Minas Gerais pode ser considerada um dos berços da memória do país, seguindo os pensadores que o cineasta estudou, filmou e com os quais conviveu.

É preciso ressaltar que Joaquim Pedro cresceu em meio à intelectualidade brasileira dos anos 1930, que foi responsável por mapear a identidade nacional e desmitificar o brasileiro, retratando-o macunaimicamente como um herói às avessas. Seu pai foi o primeiro diretor do Sphan (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o atual Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A instituição, que começou a funcionar em 1937, foi idealizada por Mário de Andrade, atendia à preocupação dos modernistas de preservar os monumentos e as obras brasileiras.

Curiosamente, o início da carreira de Joaquim Pedro aconteceu quando cursava a graduação de física, a partir de 1950, na Faculdade Nacional de Filosofia. Foi lá que ele desenvolveu sua curiosidade e sua aptidão para o cinema, participando de cineclubes e pequenas experimentações, sob a influência de Plínio Süssekind Rocha, seu professor de mecânica. Em 1953, passou a frequentar o Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), um cineclube criado por Saulo Pereira de Mello e Mário Haroldo Martins. Junto a futuros grandes nomes do cinema novo – Leon Hirszman, Paulo César Saraceni, Miguel Borges e Marcos Farias –, mergulha definitivamente na linguagem audiovisual, por meio de estudos, de projeções de filmes e da criação de um jornal amador na faculdade. Depois que se formou em física, anuncia ao pai que iria se dedicar ao cinema. Rodrigo Melo Franco não se opõe, mas encaminha o filho a um estágio no Sphan, em um grupo que participaria da restauração de Os passos da Paixão, de Aleijadinho, em Congonhas do Campo, o monumental ícone do barroco brasileiro. É muito provável que tenha sido por esse trabalho que Joaquim Pedro foi convidado pelos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira para ser assistente de direção no filme Rebelião em Vila Rica (1957), sua primeira incursão profissional.

Cena de O mestre de Apipucos

Dois anos depois, realizou seu primeiro trabalho como diretor. Os documentários O mestre de Apipucos e O poeta do Castelo foram encomendados pelo Instituto Nacional do Livro como um filme único, mas foi posteriormente separado em dois curtas-metragens. O primeiro é sobre o sociólogo Gilberto Freyre, amigo da família do diretor, que o recebeu afetuosamente em seu sítio; o segundo, sobre o poeta Manuel Bandeira, seu padrinho. A partir daí, Joaquim Pedro concluiria diversos trabalhos, entre curtas e longas, documentários e obras de ficção, além de roteiros que não chegaram a ser filmados. O cineasta transitou por múltiplas experimentações, passando pelo cinema direto e pelo cinema verdade, mesclando a literatura ao cinema novo; retomando a herança burlesca da chanchada, flertando com as novidades de seu tempo, com a televisão e com o rádio, com a Jovem Guarda ou a Tropicália e suas reverberações, utilizando tudo como exercício de cinema, e compreensão de mundo, como bom antropófago que era.

Em 1962, Joaquim Pedro estuda com os irmãos Maysles e consegue a doação, junto à Fundação Rockfeller, de um gravador Nagra III e de uma câmera Arriflex 35 mm para o Iphan. Seu pai, então, encaminha à Unesco um projeto para um curso de cinema documentário, ministrado pelo documentarista sueco Arne Sucksdorff, que se tornaria um divisor de águas na formação dos cinemanovistas. No mesmo ano, Joaquim Pedro integra o projeto de Cinco vezes favela, idealizado pelo Centro Popular de Cultura (CPC) no 25º aniversário da UNE, que reuniria cinco curtas-metragens. O único que já estava finalizado era Couro de gato (1960), dirigido por Joaquim Pedro. A temática era adequada aos objetivos do CPC: o drama de um garoto que capturava gatos e os vendia para a confecção de tamborins no carnaval, como forma de sobreviver em meio a um “Rio de Janeiro bossa nova”, para poucos.

Em 1963, finaliza Cinema novo (Improvisiert und zielbewusst), que acompanha a trajetória do novo cinema brasileiro e de seus colegas realizadores, e Garrincha, alegria do povo, sobre o ídolo do Botafogo e a paixão despertada pelo futebol. Filma no Maracanã e, com o gravador Nagra, registra a euforia dos torcedores no estádio. Contudo, essas captações de som foram inseridas depois às imagens dos jogos, uma adaptação necessária para driblar os imprevistos do cinema direto na época.

Cena de Cinema novo

Seu primeiro longa-metragem, O padre e a moça, foi lançado em 1965. Aproximou a linguagem do cinema à da poesia, a partir do poema quase homônimo de Carlos Drummond de Andrade, que trata da lenda de uma certa gruta do Padre e dos diversos causos mineiros. Com esse filme, o cineasta parece afirmar, acima de tudo, que nunca faria uma simples adaptação literária; ao contrário, sempre buscaria uma alternativa questionadora de temas, estéticas e linguagens. Uma marca de seu cinema seria a postura crítica em relação às fontes inspiradoras, como fez em uma encomenda da Olivetti, em 1967, para filmar Brasília, a recém-inaugurada capital do país, em que criou uma crítica sobre a desigualdade deflagrada justamente naquela que se pretendia a cidade símbolo do desenvolvimento de um Brasil moderno.

O ano de 1969 seria crucial na obra e na vida pessoal do diretor carioca, devido ao falecimento de seu pai, às consequências do AI-5 e ao seu grande sucesso de bilheteria, e um dos maiores filmes do cinema nacional, Macunaíma. Nessa adaptação da rapsódia marioandradeana de 1928, compôs um filme que leva “biscoito fino para as massas”, voltando-se ao estilo provocativo de Oswald de Andrade. Com aquele "herói da nossa gente", Joaquim Pedro não apenas brinca, mas tripudia com as diversas possibilidades de arte, questionando inclusive a Tropicália, o consumo desenfreado dos bens – por meio do retrato de um povo desiludido que não consegue mais conceber, naqueles anos de forte repressão militar, seu herói virar constelação: "Tá gostoso, coração, tá?".

Naquele Brasil tão Costa e Silva, sucedido por Médici, o projeto de herói termina na ilusão da traiçoeira Uiara, que o arrasta para seu lago e o devora, na história do “brasileiro comido pelo Brasil”, como o próprio Joaquim Pedro resumiu seu filme-catarse. Tudo isso ao som de “Desfile dos heróis do Brasil” (Heitor Villa-Lobos), coroando o epitáfio irônico que enterraria também a ideia de antropofagia festiva, problematizada pelo modernismo brasileiro, em que o povo, já sem nenhum caráter definido, é só espelho de um país arcaico e moderno, muitas vezes nem bossa nem palhoça, mas as duas a um só tempo.

Em 1970, realizou sob encomenda o vídeo institucional Linguagem da persuasão, em que questiona os estratagemas da propaganda, retomando uma leitura mordaz do consumismo naqueles anos de chumbo envoltos pelo véu do milagre econômico. E foi justamente na comemoração dos 150 anos da Independência do Brasil que filmou Os inconfidentes para a RAI (Radiotelevisione italiana). A intenção, como o próprio título já anuncia, não é falar do evento de 1789, mas analisar os indivíduos que participaram da conspiração. Consegue tratar desses homens e de seus impasses por meio de uma narrativa que estabelece profunda relação com os horrores das torturas na ditadura militar, simbolizados pelo enforcamento e esquartejamento de mais um herói, o alferes Tiradentes. Mesmo quando parecia estar lidando apenas com textos de autos de devassa, de poetas árcades e da modernista Cecília Meireles, fazia coro-denúncia com a poetisa: “Toda vez que um justo grita/ Um carrasco o vem calar/ Quem não presta fica vivo/ Quem é bom, mandam matar”.

Cena de Guerra conjugal

Em Guerra conjugal (1975), segue nas veredas da literatura ao trazer a lume a obra do recluso Vampiro de Curitiba, o escritor Dalton Trevisan. O mergulho na obra do autor que desnuda outro tipo de martírio, o das relações humanas e familiares, sobretudo nos espaços domésticos que emparedam indivíduos detentores das mais diversas taras e obsessões, culminou a seguir no curta-metragem Vereda tropical (1977), inspirado no conto homônimo de Pedro Maia Soares. Logo depois, sempre em busca dos heróis nacionais (malogrados) e do berço familiar mineiro, oferta-nos O Aleijadinho (1978), cujo surgimento na Vila Rica setecentista é pleno de incontáveis lendas, mistérios e sofrimentos, como já havia proposto o primeiro biógrafo do artesão, José Ferreira Bretas, ninguém menos que o tetravô do cineasta.

Esses laços mineiros resultam em um verdadeiro nó em seu último longa, O homem do pau-brasil (1981). Naquela bricolagem cinematográfica, eclode toda uma profusão carnavalesca-antropófaga-freudiana, capaz de revelar a figura de Oswald de Andrade bipartida em um homem e uma mulher, interpretados simultaneamente pelos atores Flávio Galvão e Itala Nandi. Uma estratégia ousada, que levou às telas todo o clima contestatório dos idos de 1967, quando o Teatro Oficina encenou O rei da vela, para horror dos conservadores. Após a abertura política, Joaquim Pedro realizou o documentário O tempo e a glória (1987) para a TVE, sobre o maior memorialista das letras nacionais, o médico e escritor Pedro Nava. Sintomática e flagrante volta ao passado, em um filme sobre outro mineiro, este contemporâneo de seu pai.

Joaquim Pedro de Andrade faleceu em 10 de setembro de 1988, ainda em atividade, e sem terminar seu grande projeto, Casa-grande, senzala & cia., em que voltaria a Gilberto Freyre, seu primeiro biografado, para tentar, mais uma vez, compreender o que é o Brasil. Uma pergunta retomada incessantemente ao longo de sua obra. Assistir, portanto, aos filmes de Joaquim Pedro é um ato político, especialmente se voltarmos à etimologia mais genuína da expressão e à máxima de Macunaíma: “Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são”.

  • Meire Oliveira Silva é doutora em Letras (FFLCH-USP) e atua no ensino de Literatura há 16 anos. É também autora de O cinema-poesia de Joaquim Pedro de Andrade: passos da paixão mineira (Appris Editora, 2016), Liturgia da pedra: negro amor de rendas brancas (Alameda Editorial, 2018) e de o CAOS e a LIRA (Ed. Benfazeja, 2018, no prelo). Além disso, é tradutora de textos literários e acadêmicos das línguas espanhola, inglesa e francesa, e pesquisadora em História do Cinema Brasileiro, com foco em documentários.

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