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Filmes que deixaram marcas

05 de dezembro de 2017

 

A mostra Projeções 2017 é uma revisão possível do ano que acaba, dentro do projeto curatorial das duas salas do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A seleção, realizada a partir de discussões internas constantes da nossa equipe (Barbara Rangel, Lígia Gabarra e Thiago Gallego), propõe uma revisão, ainda em tela grande e neste mês de dezembro, de filmes que a partir de agora só poderão ser vistos longe das salas de cinema, nas diversas plataformas hoje disponíveis para uso pessoal e doméstico.

Não tentamos com essa seleção especial reunir "os melhores do ano", mas apresentar uma revisão possível do que foi lançado comercialmente no Brasil em 2017, obras que talvez tenham marcado o período como pontos de cultura, sejam comerciais ou sem pretensões comerciais. E oferecemos isso nas condições excelentes de som e projeção 2D e 3D das nossas duas salas.

E como filmes marcam seus determinados momentos na cultura? A pergunta permanece aberta para qualquer um tentar responder.

O caso de Dunkirk (EUA/Inglaterra), de Christopher Nolan, por exemplo, é curioso. A Warner Bros., estúdio que foi a casa de Stanley Kubrick até a sua morte em 1999, parece ter pego Nolan como seu substituto. Nolan realiza filmes comerciais com alguma postura autoral, e isso ficou claro este ano no enorme barulho feito em torno do uso de filme Kodak para rodar e exibir um projeto como Dunkirk.

Em algum momento da máquina de marketing para o lançamento, parecia ser imperativo amar esse filme pelo simples fato de ter sido rodado em 70 milímetros. Curiosamente, nenhuma cópia analógica chegou ao Brasil, onde seu lançamento bem-sucedido no último mês de julho transcorreu apenas em sistema digital DCP.

Cena de Vá e veja

Como contraponto, programamos uma outra visão da Segunda Guerra Mundial para acompanhar a visão mais recente proposta por Nolan: a cópia nova restaurada em 4K de Vá e veja (Idi i smotri, URSS, 1985), de Elem Klimov, lançada em setembro no Festival de Veneza. Essa obra difusa e impressionante nos dá uma outra imagem da guerra, por meio da experiência soviética, em que o horror é palpável e a ideia de herói é frágil. Chance rara de ver um dos grandes filmes do cinema, e talvez o grande filme de guerra.

O que dizer de Blade Runner 2049 (EUA), de Denis Villeneuve? Essa atualização preocupada em respeitar a property estabelecida ao longo de 35 anos pelo original Blade Runner (EUA, 1982), de Ridley Scott – que também vamos exibir em sessão dupla –, chegou com enorme expectativa em outubro: muitos gostaram, outros não muito, e houve decepção para os investidores. O novo Blade Runner talvez sugira mais uma discussão sobre os modelos de negócio que moldam os filmes caros feitos hoje do que uma outra discussão sobre inteligência artificial, ética e genética.

Às vezes a discussão pode ser estética e política, pois é quando o cinema reflete preocupações e conquistas que correm paralelas à vida em sociedade. Temos o ambiente de trabalho brasileiro e suburbano de Corpo elétrico (Brasil), de Marcelo Caetano, e a relação inebriante de natureza em O ornitólogo (Portugal/França/Brasil), de João Pedro Rodrigues. Vale registrar o alcance que It – A Coisa (EUA), de Andy Muschietti, teve não só como produto comercial de terror, mas também por sua associação com a Era Trump na presidência.

Cena de Blade Runner 2049

Em Toni Erdmann (Alemanha), de Maren Ade, e Corra! (Get Out, EUA), de Jordan Peele, há dois outros exemplos de interesse bastante ilustrativos neste lote de filmes. O primeiro, algo parecido com uma comédia (mas não estou totalmente convencido) sobre um mundo engessado por um pensamento empresarial todo cheio de pequenas eficiências, nos sugere uma crônica sobre um presente que pode englobar também a realidade política e peluda do Brasil.

O segundo, algo parecido com um filme de horror (mas não estou totalmente convencido), apresenta o ponto de vista (infelizmente ainda incomum) de um cineasta negro sobre viver em sociedade nos Estados Unidos, com resultados perturbadores, seja como relato social, seja como thriller.

É também notável que o impacto de Corra! como crônica social tenha encontrado um sucesso comercial acachapante, e com isso uma geração instantânea de prestígio para o seu realizador, um estreante em longa-metragem. O filme é cotado atualmente para a chamada "temporada de prêmios", e isso inclui o recente ruído (e prova de que Corra! é esse agente cultural poderoso) via Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. A indicação do filme na categoria Melhor Comédia levou Jordan Peele a rebater pelo Twitter: "É um documentário".

Cena de Corra!

Moonlight: sob a luz do luar (EUA), de Barry Jenkins, foi também outro filme autoral de 2017 com realizador, ponto de vista e personagens negros a ganhar lançamento nas salas multiplex brasileiras, algo infelizmente raro. O filme de Jenkins venceu o Oscar de Melhor Filme e ganhou espaço incomum para uma narrativa de cadência pessoal, com personagem principal negro e gay.

Em 1989, vale informar, Faça a coisa certa (que exibimos em cópia importada cintilante neste último mês de novembro), o hoje clássico de Spike Lee, ganhou lançamento brasileiro com apenas duas cópias 35 mm para todo o território nacional, mesmo sendo um filme indicado ao Oscar de Melhor Roteiro (Lee) e Ator Coadjuvante (Danny Aiello). Talvez algum avanço tenha acontecido aí, ainda com muito espaço para melhorias.

Há debates importantes acontecendo, olhares e posturas sendo reformadas em relação à representação e à ação do negro e da mulher no cinema, algo também notável no maior sucesso de bilheteria do ano nos EUA, Mulher-maravilha, ter sido dirigido por uma cineasta, Patty Jenkins, algo inédito até então.

De qualquer forma, as discussões surgem de filmes e de posturas, e duas artistas mulheres, realizadoras com trajetórias fortes no cinema, foram questionadas exatamente sobre como lidar com a representação da história: Daniela Thomas, em Vazante (Brasil), a partir de uma participação no último Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, encontra percepção semelhante na reação que Sofia Coppola teve à sua revisão de O estranho que nós amamos (The Beguiled, EUA) a partir do filme de Don Siegel de mesmo nome, lançado em 1971. Estaremos projetando as duas versões.

Cena de Vazante

Com tantas questões estéticas, políticas, sociais e raciais a partir de filmes em 2017, talvez a melhor coisa seja olhar para o futuro a partir da nossa pequena seleção de curtas-metragens brasileiros, todos lançados ou vistos por esta curadoria este ano. Claramente novas vozes estão surgindo, e o cardápio de ofertas e pontos de vista me parece mais abrangente e rico.

Talvez seja o acesso irrestrito e livre de teorias fílmicas e literárias que explique um musical como Dance seu PhD, de Natália Oliveira e o Vogue 4, em que uma tese de doutorado em medicina forense é apresentada em um filme ágil e vibrante, originalmente feito apenas para a internet, mas que exibimos aqui nessa sessão. Deus, de Vinicius Silva, 25 anos, nos informa que "Deus é uma mulher negra", e ele usa a sua bagagem emocional de homem e negro para – mais uma vez – expressar-se, algo que Gabriel Martins também parece concordar ao nos dar o retrato de uma garota do mundo, mas de Contagem, Minas Gerais, no também poderoso Nada.

Há algo de novo no roteiro do cinema, e nós apenas nos sentimos muito bem de poder reproduzir isso nas nossas salas.

 

  • Kleber Mendonça Filho é coordenador de cinema do IMS.

 

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Aqui, a programação completa dos filmes de dezembro nas salas de cinema do IMS:

 

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