A Sessão INDETERMINAÇÕES - Tudo aquilo que ferve está em cartaz no cinema do IMS Paulista em maio.
É possível haver incêndio onde aparentemente não há fogo? Naquele espaço, aqui, ali, em que não parece haver brasa ou qualquer indício de fumaça? Onde as pequenas combustões não se revelam de forma mais visível? Como são essas chamas que se espalham através dos sons, sons, sons, pelas palavras, pelo sangue negro; na hiperluminosidade, com a dança, além do dendê, na viscosidade da seiva, no cigarro, no mar, em acordes fúteis de um violão, em sopros descontínuos?
A junção que antecede o espalhar de brasas: Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial(Jomard Muniz de Britto, 1978) e Aquele que viu o abismo (Gregorio Gananian e Negro Leo, 2024). Saltos temporais, mistura de matérias distantes, sombriamente desconexas, colapso permanente em suas diferentes desordens; desbunde, pirraça, desalinho absoluto. Não tem como estancar esse sangue.
Não tem como estancar, pois esse fogo, essa coisa que já está, que fere, arranca, esculacha e, quando menos se espera: espalha. Vidas negativadas que se somam[1]. De permanência, nesse encontro supostamente imprevisível, apenas a mutabilidade, a contínua replicação, desmantelo. Distração, matar, morrer. Uma vontade descomunal pelo desejo, desejo incendiário, que invade tudo aquilo que tenta estruturar-se enquanto um cerco rígido e falsamente irreversível. Uma feitiçaria para a transformação. Aquele prazer anárquico em sua desimportância. Desde ontem, desde agora.
Em Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial, as invenções do Nordeste e da Cultura, sim, essas instituições fictícias, são desmanteladas a cada quadro, a cada símbolo, num cortejo de vida-morte. Vivencial, grupo de provações polifônicas, instável calor, ordem invertida para um mapa incompleto. Desnorteamento como método de contravenção, de criação diante da censura e repressão da ditadura civil-militar, que se reatualiza na figura de X, em Aquele que viu o abismo.

X, indeterminado, infinito. Eu me defino como tensão absoluta de abertura. Tomo esta negritude e, com lágrimas nos olhos, reconstituo seu mecanismo[2]. É este o corpo de um homem negro? Uma ideia negra? A própria escuridão? Capitalismo global, fascismo em seu continuum histórico, evento racial, militarismo. Os dados, os vírus, o hackeamento, a tentativa de jogar mais adrenalina nessa matéria disforme.
Tudo aquilo que ferve abre a programação da INDETERMINAÇÕES em 2026. Após a sessão, testemunharemos um encontro criativo entre Gregorio Gananian e Negro Leo, diretores de Aquele que viu o abismo. A dupla também participa de uma conversa mediada pelos cofundadores da plataforma. Já a artista transmídia antidisciplinar biarritzzz assina a vinheta do programa.
Outro destaque desta edição é o lançamento da cópia restaurada digitalmente em 2K de Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial, realizada numa colaboração entre Cinelimite e INDETERMINAÇÕES, com financiamento do Itaú Cultural e apoio da Mnemosine Serviços Audiovisuais. O processo de restauração ocorreu na cidade de Brasília, no Laboratório Digital Cinelimite, sob coordenação técnica de William Plotnick e consultoria da preservadora audiovisual Débora Butruce, com materiais digitalizados pelo Cinelimite, através do projeto Jomard Muniz de Britto: Preservação, Pesquisa e Difusão. A restauração de som é assinada por José Luiz Sasso.
Na Revista de Cinema do IMS, o filósofo e tradutor Victor Galdino assina o ensaio “Contra o excesso de ser ou ‘É preciso e urgentíssimo que alguém escreva para não salvar nada', em que reflete sobre memória, esquecimento, biopolítica e o ingovernável. Disponibilizamos também um trecho de uma entrevista realizada com Gregorio Gananian e Negro Leo em 2024, por ocasião da estreia do longa na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, onde ganhou o Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres.
Com tamanha ebulição ao nosso redor, por todas as partes, indagamos: como não perseguir a negridade [blackness] contida nesse movimento abrupto, errático e desordenado pelo estilhaçamento?[3]
[1] Jota Mombaça. “Carta às que vivem e vibram apesar do Brasil”. In: Não vão nos matar agora. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021, p. 13-19.
[2] Frantz Fanon. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. p. 124.
[3] Jota Mombaça. “Na quebra. Juntas”. In: Op. cit. pp. 21-26.
