A Sessão INDETERMINAÇÕES - Tudo aquilo que ferve está em cartaz no cinema do IMS Paulista em maio.
Afastai de nós também, oh! Inominável
Os mundos que insistem em heróis gregos, persas, romanos, egípcios e sumérios
Os mundos que insistem na covardia
Do subjugo e da decapitação
E ensinai respeito aos mais antigos, mas
Quando necessário fazei-nos meditar no parricídio(Altíssimo, Negro Leo)
“O homem livre [...], sua vitória não contempla mais heróis”. Ao final de Aquele que viu o abismo (Gregório Gananian e Negro Leo, 2024), Ava Rocha canta sobre esse “homem” que, em sua voluntariedade excedente, destina-se ao impróprio, corrompendo a inteligibilidade das linhas que separam vida e morte – e, com isso, o resto da experiência do que se convencionou nomear “realidade”. Como Gilgámesh, protagonista do poema épico por aqui traduzido como Ele que o abismo viu[1], X (Negro Leo) se encontra com essa possibilidade de viver para além da parcela que lhe foi conferida no arranjo do mundo, e isso não vem sem um risco e uma tragédia pessoal. Nesse caso, porém, a imortalidade viria pela digitalização do sistema nervoso garantida pela ultracorporação Prolife. Pouco mais se pode dizer em termos de contextualização.
Acompanhando X, levando a sério sua agitadíssima jornada de quase 60 minutos, o frenesi imaginal nos arranca qualquer pretensão de poder situá-lo: está mesmo na China? Está morto-vivo dentro de uma simulação? O que é delírio, o que não é? O que é paranoia, mas aquela paranoia que não significa que não há ninguém atrás de você? Que espaço é esse no qual seu drama se dispersa e se desdobra? O mais importante é abrir mão da vontade, da necessidade sentida – imaginada – de situar, inclusive de desvelar a identidade desse “protagonista”. Ele não tem fronteiras. Parece que a corrupção violenta do tempo dos mortais também nos impede de acessar um espaço estável, uma espacialidade familiar.
O preço disso é a dúvida permanente. Expressão cara a Jomard Muniz de Britto, que encontramos do outro lado da sessão, encontro improvável entre parentes óbvios. Ele acrescentaria: duvidar dessa forma, sim, mas “não neuroticamente”[2] – o bom humor faz-se necessário como princípio ético que separa a insegurança da experimentação, a instabilidade da proliferação, a ruína da abundância. X é variável em movimento, não definido previamente, ponto em que se cruzam, de maneira inesperada e invariavelmente patológica, a res extensa e a res cogitans. É certamente perigosa essa lambança – X é também constante, é o que não era para ser, interface negra entre a biopolítica e o ingovernável. Ele corre o risco de ser anulado por meio desse ensaio perverso que é o capitalismo, de não poder cumprir seu objetivo maior: nada mais e nada menos do que tocar piano para outras pessoas, improvisar o próprio improviso.
Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou fricção histórico-existencial (1978) abre com um poema de Jomard musicado por Tonico Aguiar, uma das muitas assembleias de palavras no curta-metragem que poderia muito bem ter sido uma música de Negro Leo: “É preciso e urgentíssimo que alguém escreva para não salvar nada, nem mesmo a alegria”. O último verso cantado abre para um discurso, proferido por uma figura de adornos coloniais, que nos joga direto nessa Recife em disputa, em suas ruas e seus patrimônios, sua horizontalidade e sua verticalidade, por onde logo acompanharemos o cortejo funerário da cultura. A causamortis é o sufocamento pelas instituições. Se, no outro filme, X é o lugar quase impessoal de descodificação – perda de instabilidade, desfazimento de uma rede prévia de sentidos –, o que temos, com Jomard, é uma resposta ao trabalho de recodificação do espaço nordestino, sua reconstrução no imaginário social a partir de cadeias institucionalizadas de significação positiva.
Voltando a outro de seus filmes superoitistas, O palhaço degolado,do ano anterior, temos essa imagem da “casa-grande de detenção da cultura”: no encontro entre patrimonialização e essencialismo, a antiga Casa de Detenção do Recife, com sua arquitetura panóptica, ainda que desterritorializada e reterritorializada como Casa de Cultura, não deixaria para trás sua função de clausura, esta só teria mudado de sentido. Jomard enxerga, nessa possibilidade, um risco também associado aos pensadores-heróis de um Nordeste “autêntico” – Freyre e Suassuna – erguido no lugar de sua sistemática representação como espaço de muitas ausências, terra de fomes e secas. A questão, assim, é como libertar a cultura dos projetos de nação. Em Inventário, a consolidação de uma memória oficial pede, como resposta, alguma forma de esquecimento (é preciso recusar aquilo que nos foi recusado[3]).
“Será que os críticos preferem ser ‘guardiães de cemitérios’?”[4]
“Você não precisa se lembrar, deixa pra lá.” X é acordado por um homem – batizado de Doutor Sun pelos diretores – no meio da rua, deslocado de si mesmo, sem saber o que lhe aconteceu ou como foi parar ali. Nós que testemunhamos sua errância também não sabemos, não importa quem é aquele que o pronome “sua” indica. “Deixa pra lá.” Sem memória, faltam-nos os fios que arranjam o espaço e o prendem para que não se disperse a qualquer momento; faltam-nos, também, os fios que usamos para costurar a nossa identidade pessoal. X se encontra, assim como nós, nesse momento prévio à recodificação, que reúne e restaura uma ordem. Sua subjetividade é mais como estação minimalista por onde “as coisas migram”, para citar mais uma vez a canção na voz de Ava.
Há uma insistência nesse momento prévio, como se fosse dádiva, como se fosse oportunidade singular; insistência no tempo anterior à questão sobre ser ou não possível “falar desta Olinda cidade”. Anterior a mais um mito fundador – à tentativa de dar “respostas passadas aos problemas” de agora, como diz o manifesto Inventário de nosso feudalismo cultural, assinado por Jomard, Caetano, Gil e outros[5]. Essas respostas são como a muralha que Gilgámesh constrói, e deixa como eternidade possível, dado que ele mesmo, apesar de sua jornada, morrerá. Não é mais relevante, aqui, a pedra do que a imagem-fronteira, que também vive mais do que os homens. O que é necessário que eu tenha sido? O que é necessário que eu tenha sido, seja, continue sendo, para não ser deixado para trás, na margem, na fronteira com a natureza? Para que eu viva para sempre…
Há uma pergunta que soa mais de uma vez em Aquele que viu o abismo: “Como é que você vai reabilitar uma pessoa sem apagar a sua história?”. Trata-se de uma preocupação voltada à relação entre cura e preservação – dada a possibilidade de a personalidade ser desfeita junto com o trauma – que podemos repensar, talvez de maneira um tanto corrupta, como a relação entre metamorfose e memória. Nesse sentido, a correção biopolítica produz, ainda que pela violência, um esquecimento a ser aproveitado. O abismo do poema mesopotâmico, aliás, é o espaço de onde as possibilidades ganham corpo, esse lugar antes do ser, antes das formas e dos códigos – aquosidade sem rosto lembrável. Qual a diferença entre homem e espaço geográfico? Ambas as coisas podem ser racializadas, colonizadas, governadas, enclausuradas, imageticamente carregadas ao ponto da exaustão. Ambas podem ser vítimas de um excesso de ser.
O caráter ameaçador da organização patrimonial do espaço, com o risco destrutivo que acompanha a biopolítica, nos toca como fantasmagoria amaldiçoada, que inclui, na verdade, a nós mesmas e mesmos. Isso quer dizer: no caótico Nordeste anti-institucional e abissal que Jomard e o Grupo de Teatro Vivencial fazem invadir a cena, e que poderíamos chamar de “Y”, querendo ou não, somos como X. Pouco importa se a imagem oficial nos mostra seca ou quitutes, sobretudo quando uma ditadura militar ronda a marginalidade. A hipótese: e se, simplesmente, não houvesse imagem alguma investida de força suficiente para governar, ou para participar de um governo?
“Por que foi precisamente aquela gota a gota d'água? Eis o segredo: as milhões de outras que a acompanharam – é tudo matemática”[6]
Sendo como X, aquele que viu o abismo, mesmo que nossa catábase tenha sido impulsionada por uma vontade sombria de eternidade, de fixação fotoquímica na nuvem das representações, o espaço que habitamos – e que se confunde com o que somos a cada momento – é organizado por essa livre associação “nordestina” que Jomard convoca. É um exagero irresponsável cruzar, dessa maneira, os dois filmes e os problemas que trazem para o pensamento, sobretudo quando lidam com violências de ordem bem distintas? Bem, morte é morte. E um homem é o espaço que sobrevive – vive – ao se misturar com espaços mais amplos.
Dizer que X é negro ou que Y é nordestino abre ou encerra a questão? Por outro lado, se há uma preocupação acerca de que vida viver, seria mesmo possível sustentar, permanentemente, a dispersão ou a dúvida? É preciso sempre substituir “X” e “Y” por algum número, certo? “Se você quiser rimar, melhor aprender como somar”, diz Mos Def em Mathematics, coleção de versos que oferece uma tradução da violência sistematicamente direcionada às pessoas racializadas como negras em linguagem matemática[7] – newtonianismo militante que vê na proliferação numérica a possibilidade de pensar o inquantificável.
“X” e “Y” devem ser substituídos eventualmente, certo. Esses números que virão, entretanto, são aleatórios, não são a essência por trás da marca, a ordem secreta do mundo que nos livrará das más – falsas – representações. Esses números não param de vir, de passar e voltar e desaparecer novamente. Quantos nordestes no Nordeste? Infinitos, até a nordestinidade nada ser sem a liberdade das variáveis, nada servir para uma harmonia nacional que tem em muitas formas de morte o seu sustento. E, ainda que a cultura morra, ressuscita em sua multitude, fracasso constitutivo das instituições, como vemos nos créditos de Inventário. Quem mais poderia habitar esse lugar impermanente, sem substancialidade, livre de muralhas? Aquele que não tem nome próprio.
A memória ainda é uma ilha de edição. Precarizada, com recursos insuficientes, infraestrutura elétrica demasiadamente antiga e risco permanente de incêndio. Pode-se trocar o seu corpo pelo da instituição: uma memória oficial – um bom uso para muralhas, como as da China imperial. Ou trocar o seu corpo por uma construção digital. São duas formas de viver para além da mortalidade que nos foi dada. Duas formas de evitar a questão derradeira da liberdade, que nada mais é do que a questão do esquecimento; contornando, assim, o fato mesmo de que a humanidade está condenada a ela, esse presente terrível, maldição épica. “Sua vitória não contempla mais heróis.”
[1] Sin-léqi-unnínni. Ele que o abismo viu: epopeia de Gilgámesh. Tradução, notas e comentário de Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
[2] Carolina Leão. “Aos oitenta anos, Jomard Muniz de Britto ainda rejeita o cativeiro das definições”. Revista Literária Pernambuco, n. 134, abr. 2017. Disponível em: pernambucorevista.com.br/acervo/images/pdf/PE_134_web.pdf.
[3] Expressão usada algumas vezes por Fred Moten e Stefano Harney, e também por outras pessoas engajadas no que se convencionou chamar black studies nos EUA. Ver, por exemplo, dos autores mencionados: The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study. Nova York: Minor Compositions, 2013, p. 96.
[4] Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães, Celso Marconi et al. "Inventário do nosso feudalismo cultural". In: Bordel brasileiro bordel. Recife: Comunicarte, 1992, p. 82.
[5] Ibidem, p. 81.
[6] “Why did one straw break the camel's back?/ Here's the secret – the million other straws underneath it/ It's all mathematics”, versos de Mos Def em Mathematics (1999).
[7] “You wanna know how to rhyme? You better learn how to add.”
