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Aterro hoje e ontem

11 de outubro de 2016

O projeto da obra era tão grandioso – a rigor o paisagismo do parque continua em evolução até hoje – que não houve propriamente uma inauguração em outubro de 1965, quando uma festa no Dia das Crianças celebrou informalmente a entrega do Aterro do Flamengo ao carioca. A drástica intervenção na paisagem urbana na faixa litorânea entre o aeroporto Santos Dumont e a enseada de Botafogo, intensamente documentada nos anos 1960 e 1970 por Marcel Gautherot, vai ganhar no primeiro trimestre de 2017 um guia ilustrado pelo fotógrafo Alexandre Sant’Anna de árvores e palmeiras que cresceram e deram frutos em mais de 1 milhão de metros quadrados de área verde, uma pintura para quem frequenta o parque ou atravessa os 7 quilômetros de suas pistas de tráfego cortando cinco bairros da cidade (Centro, Glória, Catete, Flamengo e Botafogo).

 

O canteiro de obras com vista para o Pão de Açúcar (Marcel Gautherot, acervo IMS) se transformou no jardim que emoldura o cartão postal com a florada do Ipê Rosa (Alexandre Sant’Anna)

 

Caminhos das árvores e palmeiras do Parque do Flamengo (Réptil Editora) não será um livro de arte. Embora rica em imagens colhidas nos últimos dois anos nas mais de 100 visitas do fotógrafo ao local, a publicação tem por objetivo principal traçar um mapa botânico detalhado do jardim que o paisagista Roberto Burle Marx e o botânico Luiz Emygdio de Mello Filho plantaram entre obras arquitetônicas de Affonso Eduardo Reidy, no projeto idealizado pela urbanista Lota de Macedo Soares.

Atrás de uma imagem para o livro que simbolizasse o início de tudo Alexandre Sant’Anna visitou recentemente o acervo de Marcel Gautherot, no IMS-RJ, acompanhado do economista Joaquim Levy, que assina em parceria com a paisagista Denise Pinheiro a concepção editorial e os textos de Caminhos das árvores… Criado praticamente junto com o parque naquela área da cidade, o ex-ministro da Fazenda – desde fevereiro de 2016 diretor financeiro do Banco Mundial –, Levy escreveu para o site do IMS sobre esta faceta pouco conhecida de suas atividades.

 

A Orelha de Negro (Enterolobium) é uma das árvores mais admiradas do Parque (Foto Alexandre Sant’Anna)

 

Identidade verde

Joaquim Levy

O parque do Flamengo é um dos encontros mais felizes entre a beleza natural da nossa cidade e a excelência artistica brasileira. O MAM do Affonso Eduardo Reidy não é apenas uma joia arquitetônica: também apresenta harmonia perfeita com o mar, os morros e os jardins extraordinários de Burle Marx.

O monumento aos Pracinhas encontra no parque o enquadramento sereno e luminoso que merece, enquanto nosso coração sempre bate feliz quando saímos do engarrafamento do centro da cidade ou da zona sul e as árvores, palmeiras, e flores do aterro desfilam magicamente pelos lados das pistas expressas que redefiniram a cidade há cinquenta anos.

Crescer perto desse parque, visitá-lo ou simplesmente atravessá-lo de carro, é um privilégio enorme, cujo prazer aumenta na proporção em que se vai conhecendo as espécies, suas flores e seus frutos – alguns bem escondidos. Se essas árvores e palmeiras deixam de ser uma massa indistinta de folhagem e adquirem identidade dentro de grandes famílias, o parque ganha novas dimensões e a nossa experiência maior profundidade.  Quando essa beleza é revelada por alguem tão talentoso e sensível como o Alexandre Sant’Anna, a nossa vida se expande, fica mais alegre e ganhamos olhos para a riqueza do legado de Burle Marx e Luiz Emydgio.

 

Algumas das estrelas de “Caminhos das árvores e palmeiras do Parque do Flamengo”: Chloroleucon Tortum ou Jacaré (no alto, às esq.); Ceiba Insignis ou Barriguda (no alto, à dir.); Bahuinia Blakeana ou Pata de Vaca (acima à esq.); Adonidia Merrilli ou Palmeira de Manila (acima, à dir.). Fotos Alexandre Sant’Anna

 

Que evolução o parque teve desde seu começo com apenas algumas pequenas árvores espalhadas por enormes gramados ao redor de variados equipamentos!  Hoje cada área do parque abriga árvores extraordinárias como a elegante Paraserianthesfalcataria na passarela entre o calçadão elevado conhecido como minhocão e a marina da Glória, o vasto Enterolobiumcontortisiliquum (tamboril) que se espalha por dezenas de metros no gramado perto do tanque de nautimodelismo, e as portentosas palmeiras Coryphaumbraculifera perto dos campos de futebol society, as quais se tornaram conhecidas porque dão fruto apenas uma vez antes de morrer. Para não falar dos ingás, figueiras e da chuva de ouro da Lophanteralactescens na Cidade das Crianças. Essa transformação, além de nos presentear com árvores notáveis e revelarem a pujança da vida, nos acorda para a importância de planejamento, persistência e tempo para o sucesso de um projeto urbano, especialmente quando comparamos fotos atuais com aquelas da época da implantação do parque. Os contrastes de cinquenta anos ressaltam a qualidade visionária e precisa da ideia original!

A proposta do livro Caminhos das árvores e palmeiras do Parque do Flamengo reunindo o conhecimento da Denise Pinheiro, que há 30 anos respira o parque, à qualidade estética do trabalho do Alexandre, é criar um guia ilustrado e com mapas, que ajude a desvendar esse mundo maravilhoso. Tenho certeza que esse guia, não um vistoso livro de mesa, mas uma ferramenta de descoberta e prazer extensível a outras mídias, vai aumentar ainda mais o interesse das pessoas pelo parque, porque poucos conhecem as mais de 200 espécies aí presentes, ou puderam ver muitas delas em flor ou frutificando.

Para mim, a oportunidade de conhecer cada metro quadrado do Parque do Flamengo tem sido extraordinária, especialmente pelo convívio com a Denise e o Alexandre. Literalmente, chova ou faça sol, tem sido mais do que agradável, estimulante e instrutivo: tem sido um grande presente que esperamos poder compartilhar com todos os cariocas brevemente.

Joaquim Levy, economista, ex-ministro da Fazenda, é diretor financeiro do Banco Mundial

 

Quatro flagrantes da construção e da transformação do Parque do Flamengo em fotos dos anos 1960 e 1970 de Marcel Gautherot (acervo IMS)

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