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O anfitrião de Chichico

23 de maio de 2017

Pelo hall, em grandes banners, já passou a desafiadora contorcionista de Otto Stupakoff, deixando intrigados os visitantes do IMS antes de entenderem que viam uma mocinha engenhosa e não uma montagem: a equilibrista prometia surpresas na exposição que terminou em abril deste 2017. Passou também a menina de Alécio de Andrade, livre de qualquer perigo enquanto subia, veloz, uma longa escada: convite a aventuras, brasileiras ou não, registradas pelo fotógrafo carioca. Passaram ainda a criança curiosa de Manuel Álvarez Bravo, sugerindo descobertas, além de Melanie Farkas, primeira mulher de Thomaz Farkas, prometendo viagens surpreendentes. Não faltou nem mesmo uma peça mecânica, em foto de Hans Gunter Flieg, indicando que a arte pode emanar dos metais de fins mais prosaicos.

Agora, para apresentar a exposição Chichico Alkmim, fotógrafo, o visitante diminui o passo, ou se detém, inquieto, diante do jovem negro que se posta ao lado de uma pequena e  alta mesa, onde deixou depositado o chapéu. Duvido que alguém siga em direção à porta de entrada da Casa da Gávea sem procurar corresponder ao olhar do fotografado. Como passar adiante ignorando o cuidado que ele teve para se vestir? Como seguir indiferente ao terno e aos sapatos usados para fazer a pose? O único que ele tinha e que o crescimento natural da adolescência o tornou curto? Ou, quem sabe, com que empenho deverá ter pedido emprestadas as peças para compor sua foto de grand seigneur?

 

 

De um modo ou de outro, a roupa completa, para ele, não passa de acessório. Não é ela que o torna elegante. A sua elegância vem de muito além da roupa, e vem mesmo antes dela. É interior, mas transborda, irrefreável, no corpo ereto, na cabeça firme, positiva, no olhar nobre, no gesto limpo, livre de qualquer afetação, nos braços que pendem com naturalidade, denunciando uma espécie de serenidade principesca.

Que importa se as meias estão enrugadas – nem pensou que devia ajustá-las –, se o botão do paletó mal se fecha, se as mangas estão curtas? É delas que saem as mãos grandes, portinarianas, possivelmente engrossadas pelo trabalho no minério de Diamantina, em Minas Gerais, onde era morador, e onde, garimpando, insistia em descobrir a limpidez do diamante. Decerto o achado não seria para ele, mas para o explorador da pedra que fez de Diamantina uma das mais pródigas cidades mineiras do século XIX.

Acima de tudo, o que nos seduz na foto é a mansa altivez do rapaz. “Estou aqui”, tem-se a impressão de ouvi-lo dizer naquele início do século XX, época da foto, pouco depois que, muito provavelmente, seus avós foram açoitados no garimpo da cidade mineira.

Se lembrarmos que Chichico Alkmim começou a fotografar na Diamantina de 1912, nos damos conta de que, não havia muito tempo, a escravidão castigara os negros daquelas terras. Eram os lavadores, que viravam as bateias até que o diamante estrelasse no esmeril. Nascido depois da fase de abundância da pedra preciosa, o moço anônimo retratado por Chichico encontrou produção escassa, o que não significa que trabalhasse menos. Ao contrário, o esforço para encontrar as pedras pode lhe ter sido maior e mais penoso, porque sem boa recompensa.

Anfitrião único e inaugural, foi posicionado à esquerda da entrada da Casa da Gávea. Está impregnado de responsabilidade. Não só recebe os visitantes como, antes de tudo, os acolhe. E o faz com doçura, além de firmeza. O sorriso é brando. Desenha-se mais nos olhos do que mesmo nos beiços dignos. A perna esquerda, discretamente projetada para a frente, indica o destemor com que se coloca diante da câmera. Atitude que pode ter adotado também na vida – espera-se. “Estamos aqui”, parece nos lembrar hoje, como se, sob as lentes de Chichico Alkmim, no início do século XX, antevisse este, no qual, ainda que de maneira insuficiente, espaços nobres do cenário político mundial seriam ocupados por seus descendentes, aqueles mesmos que viveram sob o infame jugo dos brancos.

Qual seria o seu nome? Não posso admitir outro: ele se chama Pedro. Do grego, “petra”, é “pedra”, “rochedo”. Assim ele se impõe, na entrada da Casa, dono de uma solidez humana desconcertante para a sua juventude. Terá atingido a maioridade? Talvez não. Mas, precocemente, adquiriu a envergadura de patriarca. Ele é Pedro, e ele recebe a todos que queiram conhecer o pedaço de um Brasil prodigiosamente honrado e grave que Chichico Alkmim registrou e que Eucanaã Ferraz expõe por meio de uma curadoria não menos refinada e humana.

 

Em sentido horário: 1. Filha dos dançarinos. México, 1933 (Coleção Associação Manuel Álvarez Bravo) 2. Contorcionista. São Paulo, SP, c. 1962 (Otto Stupakoff/Acervo IMS). 3. Refinaria de Cubatão, série para Pirelli. Cubatão, 1955 (Hans Gunter Flieg/Acervo IMS). 4. Grand-Palais. Paris, França, 1975. (Alécio de Andrade/Acervo IMS). 5. Melanie Farkas. São Paulo, c. 1947 (Thomas Farkas/Acervo IMS)

 

* Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles.