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O príncipe e o sabiá

13 de novembro de 2017

Ao escrever os perfis que passariam a integrar a coletânea O príncipe e o sabiá, cuja segunda edição acaba de sair pela editora Companhia das Letras, Otto Lara Resende certamente não contava com a inclusão, no livro, do seu próprio perfil, escrito a partir de uma entrevista que lhe fez o amigo e também jornalista Paulo Mendes Campos.

À pergunta do entrevistador, “Quem é o OLR?”, Otto não se fez de rogado. Mostrou-se por meio de abundantes definições, exemplos, com muita graça e agilidade. Tem-se aí um vivo retrato do mineiro nascido em São João Del Rey, em 1922, que entrou para o jornalismo como cachorro entra na igreja: achou a porta aberta – gostava ele de dizer por puro divertimento, querendo dar impressão de acaso a uma vocação para as letras tão flagrante como a sua.  

Por escolha de Ana Miranda, organizadora da obra desde sua primeira edição, publicada em 1994 em coedição com o Instituto Moreira Salles, o perfil de Otto é o último. Funciona. Mas o leitor que quiser começar pelo fim, entenderá facilmente que uma personalidade tão perspicaz e afetiva inevitavelmente daria no arguto autor de O príncipe e o sabiá, que chegou às livrarias dois anos depois de sua morte.  

Ao seu próprio perfil, se juntam os de alguns de seus pares, cujos arquivos hoje estão ao lado do dele, sob a guarda do IMS. O “papelório”, como gostava de se referir às mais de oito mil cartas, recortes de jornal e textos datilografados que acumulou, hoje se avizinham com os de Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade Erico Verissimo, e com os do advogado e jurista Sobral Pinto.

 

Duas vezes O príncipe e o sabiá: a nova edição (2017) e a primeira (1994)

 

Para tratar da subjetividade de Clarice, mais do que da escritora, Otto  faz um texto impressionista, com recursos de percepção de extrema finura.  Imagino que ela teria se reconhecido e gostado de se ver nesse retrato em que o autor soube escolher o verbo mais que apropriado para caracterizar seu estilo: “Escrever é fulgurar”, diz ele sobre a literatura da autora de A paixão segundo G.H.

É a partir do verbo “fulgurar” que ele segue, explorando os substantivos e adjetivos correspondentes, captando, dessa maneira, o que há de essencial na obra da romancista. Ao questionar a afirmação de ser Clarice de fato uma escritora, Otto prefere crer que ela se dedicava a trabalhar a própria sensibilidade, matéria de sua arte.

“Clarice é uma aventura espiritual”, acaba ele por encerrar o perfil  que intitulou “O fulgurante legado de uma vertigem”, sem deixar de ressaltar que, mesmo nas crônicas claricianas reunidas em A descoberta do mundo, textos jornalísticos escritos para garantir sobrevivência, “há sempre a evidência de uma luz. Uma fulguração.”

Drummond é o único contemplado com dois artigos na coletânea. Ao  primeiro, “O mel oculto, o áspero minério”, Otto dá tratamento biográfico e estabelece relação entre dados da vida do poeta com os seus versos. Originalmente escrito para palestra proferida em Lisboa, tem supressões nesta edição de O príncipe e o sabiá. Já o segundo, “Tarde antiga e funesta profecia”, traz uma curiosidade interessantíssima sobre a qual já escrevi para o Blog do IMS.

Escrever sobre Paulo Mendes Campos, o amigo de toda a vida, era quase obrigatório, e Otto o faz em “Enfim a grota”, percorrendo os tempos de Belo Horizonte, quando os dois compartilhavam a ideia de que “a insônia era uma atitude literária”, e depois, o da imprensa carioca, onde  trabalharam com devoção e talento de sobra.

De Erico Verissimo, diz que foi “amor à primeira vista” e, usando rápido cinzel em poucas linhas, deixa clara a importância da obra do escritor gaúcho, além de ressaltar a graça de personalidade e inteligência.  Para Otto, a obra de Erico é indestrutível. A falta da figura humana, irreparável.

Para estar de acordo com a sobriedade do jurista Sobral Pinto, Otto escreve um texto austero: “O dr. Sobral, mesmo sem querer, ergue-se sobre seus pés como um monumento de coerência, de retidão, de força moral”, afirma, sem deixar de realçar a paixão que moveu o advogado na defesa das instituições, na batalha pela liberdade de expressão, lutas a que se entregou com sua presença de “toques quixotescos”.   

Boa parte dessa luta a que Otto se refere foi travada por meio das  quase vinte mil cartas escritas por Sobral Pinto. O IMS é guardião de uma parcela da correspondência, no momento em processo de descrição arquivística e de desbravamento do seu conteúdo. Espera-se que a publicação de uma seleção desse conjunto venha um dia iluminar a figura histórica do autor e contribuir para que não caia no esquecimento um personagem raro da dignidade brasileira. É o que sugere Otto, quando conclui o texto: “O monte de suas cartas, como o pico da Bandeira, é um dos pontos mais altos do Brasil”.

Otto não declarou  que ele mesmo deixaria alguns milhares de cartas em seu arquivo, também sob a guarda do IMS. Menos ainda que testemunham, com humor e agudeza, um período rico da cultura e da política brasileiras, o que faz com que Wilson Figueiredo, no notável posfácio a esta edição, diga que é “um tesouro intacto: a valiosa correspondência à espera de ser reunida”.

A título de novidade: as mais de oito mil cartas do arquivo de Otto Lara Resende estão descritas na base de dados de Literatura do IMS. Aí se encontram informações indispensáveis, tais como: para quem ele escreveu, de quem recebeu correspondência, onde e quando, e de que tratam as cartas. Os originais podem ser consultados mediante agendamento prévio.

A exemplo do que será feito com o conjunto epistolar de Sobral Pinto, certamente virão a público um dia, em livro. O leitor não se surpreenderá, mas certamente se encantará com o brilho desse escritor e com sua riqueza humana.

  • Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles.

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