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Palavras de mestres

06 de setembro de 2018

Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Antônio Maria, Clarice Lispector. Durante muito tempo esse respeitável time de autores fez a alegria cotidiana de milhares de brasileiros, derramando nas páginas dos jornais observações da vida comum, quase banal, transformadas em grande literatura. É com esses mestres que o Instituto Moreira Salles e a Fundação Casa de Rui Barbosa lançam, dia 12 de setembro, o Portal da Crônica Brasileira, uma casa virtual para abrigar o melhor que já se produziu no gênero no país, começando pelos autores presentes nos acervos das duas instituições.

O lançamento acontece no auditório do IMS Rio, às 19h, e será marcado pelo bate-papo com o editor do site, Humberto Werneck – que terá uma coluna quinzenal, batizada de “Rés do chão”, na qual explorará recortes diversos do vasto acervo do portal – e o jornalista Sérgio Rodrigues. Logo depois haverá leitura de textos com a atriz Ana Carina, o advogado e diretor teatral Bruno Lara Resende (filho de Otto), e o ator Daniel Braga (neto de Rubem).

“O IMS tem em seu acervo cronistas da estatura de Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Otto Lara Resende, com pelo menos dez mil crônicas já digitalizadas, catalogadas e disponíveis há alguns anos na base de dados. Achamos que todo esse material precisava ter mais visibilidade”, conta Elvia Bezerra, coordenadora de literatura do IMS, e curadora do site, ao lado de Rosângela Rangel, da Rui Barbosa. “Normalmente a base de dados é mais visitada por estudiosos e pesquisadores, tem uma navegação um pouco mais complexa, e a ideia foi tornar esse conjunto mais atraente, disponível para um grande público. O Brasil tem cronistas extraordinários, tem muita gente boa para entrar ainda, mas estamos começando com os clássicos da crônica que estão nos nossos acervos”, completa Elvia.

Nos próximos meses o portal será alimentado de forma contínua, mas já entra no ar com aproximadamente 2.600 obras dos seis escritores, que no portal são vistos nos traços inconfundíveis do caricaturista Cássio Loredano. Todos os textos estarão disponíveis, mas uma área especial trará a Crônica do Dia, com uma seleção feita pelos curadores a partir do conjunto. “Podemos lembrar uma efeméride, ou destacar ali um fato curioso que tenha alguma relação com a atualidade”, diz Elvia.

A maior parte das crônicas reunidas no portal está digitalizada, ou seja, elas são apresentadas exatamente como foram publicadas nos jornais, e os recortes ainda podem ser ampliados. Cerca de 50 crônicas também foram transcritas para facilitar a leitura em celulares e tablets. Entre os mais de 2.600 textos estão 816 de Rubem Braga. Reconhecido como mestre dos mestres do gênero, sua produção está sob a guarda da Casa de Rui Barbosa, instituição que tem ainda crônicas de outros gigantes como Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, e Clarice Lispector (estes dois últimos também presentes, de outras formas, no acervo do IMS).

Embora as crônicas de Clarice estejam na Rui Barbosa, por enquanto ela está presente no portal com seis textos extraídos de livros. Mesmo caso de Antônio Maria, que não arquivou recorte algum de sua produção, e por isso as 50 obras selecionadas, cedidas pela família, foram transcritas de livros.

“Não temos notícia de um recorte sequer que Antônio Maria tenha guardado, mas como deixar um nome tão importante para o gênero de fora do portal? Tivemos que abrir exceções”, conta Elvia, lembrando que outros casos semelhantes podem surgir, já que o objetivo é que outras instituições se juntem ao portal mais adiante. O futuro certamente incluirá, por exemplo, a produção de Machado de Assis. “Se quiséssemos poderíamos recuperar os recortes das crônicas dele nos jornais, mas não há vantagens em publicar textos com uma grafia muito antiga, visualizações que podem estar muito ruins. Então vamos optar por crônicas publicadas com textos fixados. Já estamos conversando sobre isso com a Academia Brasileira de Letras”.

 

Os seis autores inicialmente reunidos no novo portal fazem parte de uma geração que, nas décadas de 1950 e 1960, foram responsáveis pela chamada era de ouro da crônica. Um gênero tão adorado pelos leitores que muitos juram de pé junto ser ele genuinamente brasileiro, embora aqui só tenha ganhado um jeitinho todo seu, como lembra Humberto Werneck no primeiro texto da coluna, intitulado “Crônica & aguda”.

Mesmo lembrando que uma boa crônica “permanece no leitor com a mesma aderência de um bom conto, de um romance, mesmo que ela não tenha nenhuma ambição dessas”, o editor do portal acha difícil definir o que seja uma, porque ela é única para cada admirador. “Acho que essa capacidade que o cronista tem de seduzir, de catar o leitor com essa piscadela logo na primeira linha, e cativá-lo até o final, como se o capturasse para uma conversa individual, é uma coisa de mestre”, observa ele, que pretende fazer da coluna “Rés do chão” uma convidativa porta de entrada para o novo site.

Marta de Senna, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, recorda que é de uma geração para quem a crônica “era um gênero absurdamente incrível”, significando de fato uma importante porta de entrada para o mundo literário. “Realmente a considero um dos gêneros mais importantes para uma cultura, porque é um registro, um comentário do cotidiano. Então fiquei maravilhada com a proposta do IMS para fazer o portal”, conta ela, também uma grande pesquisadora da obra de Machado de Assis, com livros publicados sobre o autor. “Por isso acho importante destacar a parceria entre uma instituição pública e uma privada. Mostra que somos realmente comprometidos com a divulgação da cultura brasileira ao maior número de usuários possíveis”.

Além dos textos, o Portal da Crônica Brasileira traz os perfis dos autores, e menu de busca variada, que pode ser feita por temas, títulos, periódicos, inclusive nas imagens. Uma vez por mês o público também poderá ouvir uma crônica gravada por um convidado. A primeira delas é “Meu ideal seria escrever...”, de Rubem Braga, na voz do poeta Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do IMS.

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