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Escrever com a imagem e ver com a palavra

Fotografia e literatura na obra de Maureen Bisilliat

O turista aprendiz

Maureen Bisilliat (fotografia e concepção), Antonio Marcos Silva e Telê Porto Ancona Lopez (concepção) e Mário de Andrade (textos).
Catálogo. São Paulo: Fundação Bienal/Editora Abril, 1985, 80 pp.

Não sei, quero resumir minhas impressões desta viagem litorânea por Nordeste e Norte do Brasil, não consigo bem, estou um bocado aturdido, maravilhado, mas não sei… Há uma espécie de sensação ficada da insuficiência, de sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem-arranjadinho que ainda tenho dentro de mim.

Mário de Andrade

Na sala especial O turista aprendiz, que Maureen Bisilliat montou a convite da direção da 18ª Bienal de São Paulo, em 1985, seu ponto de partida foram os diários em que Mário de Andrade narra suas viagens pelo rio Amazonas até o Peru e a Bolívia, em 1927, e, no ano seguinte, pelos estados do Nordeste, pesquisando as culturas populares.

Em parceria com o arquiteto e amigo Antonio Marcos Silva, Maureen criou uma sala de paredes e piso escuros, e, ao longo do corredor em forma de rio, se espalhavam mais de 400 fotografias de sua autoria e 50 feitas por Mário (a professora Telê Ancona Lopez escreveu que o autor foi “um fotógrafo moderno, mas de reconhecimento tardio”), além de objetos de arte popular, indumentárias de festas e rituais e, por fim, o média-metragem que ela realizou com Lúcio Kodato que documentava a viagem em que repetiram alguns passos de Mário pelo Amazonas.

Uma “explosão de beleza e encantamento”, como escreveria em resenha a crítica Stefania Bril, que tornava pretensiosa a tentativa de transpor tal exuberância para o catálogo que acompanhava a mostra. Por isso, talvez, a opção por um tom mais baixo: como num álbum de colagens, sobre o fundo branco, aparecem extratos do diário de Mário e poemas de outros livros dele, textos de Maureen e uma pequena seleção das imagens de ambos.

O projeto de O turista aprendiz parece aglutinar em si todos os grandes interesses de Maureen: publicação, arte popular, exposição, vídeo, fotografia, trabalho em equipe e, claro, literatura. É por essa potência de síntese de sua obra que o escolhemos para o início desta exposição, embora não seja cronologicamente a primeira vez em que ela uniu fotografia e literatura. Aqui, de forma significativa, o vemos junto a materiais da loja/galeria O Bode e de publicações feitas por ela nos anos de Memorial da América Latina.

É notável como as trajetórias de Mário e de Maureen se assemelham. Pois ambos sempre estiveram, cada um a seu modo, em busca da essência da cultura popular brasileira. E se “cruzariam” novamente quando, mais tarde, Maureen decidiria revisitar o diário que ela mesma escrevera durante aquela viagem (uma “comunicação à distância” com o neto Nicholas, então com 5 anos), aliando trechos de Mário a frames do documentário para compor quase que uma terceira viagem, a saber, o livro Decantando as águas: O turista aprendiz revisitado, diário de bordo 1985, publicado pela Cinemateca Brasileira em 2012.

Do livro <em>O turista aprendiz</em> (Fundação Bienal/Editora Abril, 1985), de Maureen Bisilliat (fotografia e concepção), Antonio Marcos Silva e Telê Porto Ancona Lopez (concepção) e Mário de Andrade (textos)
Do livro O turista aprendiz (Fundação Bienal/Editora Abril, 1985), de Maureen Bisilliat (fotografia e concepção), Antonio Marcos Silva e Telê Porto Ancona Lopez (concepção) e Mário de Andrade (textos)

 

Do livro <em>O turista aprendiz</em> (Fundação Bienal/Editora Abril, 1985), de Maureen Bisilliat (fotografia e concepção), Antonio Marcos Silva e Telê Porto Ancona Lopez (concepção) e Mário de Andrade (textos)
Do livro O turista aprendiz (Fundação Bienal/Editora Abril, 1985), de Maureen Bisilliat (fotografia e concepção), Antonio Marcos Silva e Telê Porto Ancona Lopez (concepção) e Mário de Andrade (textos)

 

Outros livros que fazem parte da exposição
A João Guimarães Rosa
A visita
Sertões: luz & trevas
O cão sem plumas
Chorinho doce
Bahia amada/Amado
Pele preta
A lanterna de Maurina e as visagens de Quaderna


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