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Escrever com a imagem e ver com a palavra

Fotografia e literatura na obra de Maureen Bisilliat

Sertões: luz & trevas

Maureen Bisilliat (fotografias) e Euclides da Cunha (texto).
São Paulo: Raízes, 1982, 160 pp
Então se transfigura. 
Não é mais o indolente incorrigível ou o impulsivo violento, 
vivendo às disparadas pelos arrastadores. 
Transcende a sua situação rudimentar. 
Resignado e tenaz, 
com a placabilidade superior dos fortes, 
encara de fito a fatalidade incoercível; e reage.

Euclides da Cunha

Depois de concluir, ao menos em parte, seu amplo projeto sobre o Xingu, que envolveu exposições e publicações lançadas nos anos 1970, Maureen Bisilliat se debruçou sobre Os sertões, de Euclides da Cunha, revisitando imagens feitas entre 1967 e 1972 no Nordeste brasileiro (em Juazeiro do Norte, Canindé, Bom Jesus da Lapa e outras localidades). Em 1972, realizara, no auditório do Masp, a exposição Sombras, em que essas imagens eram projetadas junto com sons gravados por ela in loco.

Do clássico de Euclides, que deriva de uma investigação jornalística sobre a guerra de Canudos, no interior da Bahia, a fotógrafa extrai trechos das duas primeiras seções, “A terra” e “O homem”, em que Euclides “voa”, como ela diz: momentos em que o autor chega a sínteses poderosas, “de uma maneira que não é apenas mais poética que o restante, mas que cria de repente uma exultação”. Parte do livro foi pensada numa noite, quando começou a refotografar com uma lente macroimpressões e folhas de contatos daquelas imagens, lançando mão às vezes de recursos como luzes coloridas e a imersão em bacias d’água. O restante é composto com imagens mais tradicionais e em cores. Essa mudança marca também uma passagem entre as duas partes principais do livro: o passado, que ganha ares espectrais ou de sonho, e o presente, a dura realidade do “martírio secular da terra”, para usar uma expressão euclidiana, e termina numa atmosfera quase onírica, com a sequência final de fotos noturnas.

Sertões: luz & trevas é o livro favorito da fotógrafa, aquele que considera mais bem-acabado e forte. Se há um aspecto de denúncia de uma realidade – 80 anos após a publicação de Euclides, diz Maureen no prefácio, “poucas mudanças ocorreram em favor dos habitantes destas regiões” –, há também a ideia, mais da ordem do poético, de revelar um “mundo ambivalente, real e mítico, onde homem e natureza se confundem”. Aqui e em boa parte de seu trabalho, ela une o social e o estético, conseguindo se esquivar do panfletário e do piegas – como nas melhores obras de arte.

Para alegria da autora, o livro, que teve uma nova edição em 1983, não foi repudiado pelos euclidianos, como temia, e uma versão em alemão foi lançada apenas dois anos depois (com tradução de Berthold Zilly e posfácio de Mario Vargas Llosa), e diz-se ter sido um dos grandes incentivos para que Os sertões fosse posteriormente publicado naquele idioma. Em 2019, o IMS publicou uma terceira edição do livro, revista e acrescida de dois posfácios.


Do livro Sertões: luz & trevas (Raízes Artes Gráficas, 1982), de Maureen Bisilliat, com texto de Euclides da Cunha.

Do livro Sertões: luz & trevas (Raízes Artes Gráficas, 1982), de Maureen Bisilliat, com texto de Euclides da Cunha.
Do livro Sertões: luz & trevas (Raízes Artes Gráficas, 1982), de Maureen Bisilliat, com texto de Euclides da Cunha.

Do livro Sertões: luz & trevas (Raízes Artes Gráficas, 1982), de Maureen Bisilliat, com texto de Euclides da Cunha.

Do livro Sertões: luz & trevas (Raízes Artes Gráficas, 1982), de Maureen Bisilliat, com texto de Euclides da Cunha.

 

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A João Guimarães Rosa
A visita
O cão sem plumas
Chorinho doce
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O turista aprendiz
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A lanterna de Maurina e as visagens de Quaderna


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